Florianópolis, 22 de fevereiro de 2018
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Especial Não Deixe o Samba Morrer: As tias da Dascuia

Reportagem:
Reportagem: Catarina Duarte e Lívia Schumacher Corrêa 

Nesta semana a Passarela Nego Quirido recebe ritmistas, passistas e foliões para celebrar mais um carnaval em Florianópolis. Os mais diversos rostos ocupam os 21 mil lugares da passarela do samba, aguardando ansiosos o início dos desfiles. Do carro abre-alas até a velha guarda, a comunidade apresenta o trabalho de um ano todo, que reúne milhares de pessoas que dedicam seu tempo para que a festa brasileira mais tradicional aconteça.

A Dascuia do Morro do Céu, a Consulado da Caeira do Saco dos Limões, a Copa Lord do Monte Serrat, a Coloninha, que carrega o nome de sua comunidade do continente, a Protegidos da Princesa, do Morro do Mocotó. Espalhadas pela cidade, as escolas de samba de Florianópolis representam os moradores de seus bairros, suas comunidades. Nos anos 70, com a vontade de manter a memória viva, mesma motivação desta reportagem, Aloísio Silva e Edson Conceição compuseram e Alcione cantou: “Antes de me despedir deixo ao sambista mais novo o meu pedido final: não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar. O morro foi feito de samba, samba pra gente sambar…”. Essa série de textos conta as histórias de cada uma das agremiações manezinhas participantes do Grupo Especial do carnaval de 2018, da mais antiga para a mais nova.

 

As tias da Dascuia

 

“Ala das Baianas: Geralmente composta pelas sambistas mais idosas e vestidas

como no tempo do Brasil Colônia. Inspirada nas mulheres que vieram da

Bahia para o Rio de Janeiro nas últimas décadas do século passado, mais conhecidas por ‘tias’”

– Atila Ramos, artista plástico manezinho e escritor do livro “História do Carnaval da Ilha”

 

Já era hora do café da tarde na casa de Dona Valdeonira. Na mesa, bolos e pães para quem estivesse de passagem pelo bairro manezinho Morro do Céu, rua São Joaquim, casa número 35. Nas janelas, panos das cores da Estação Primeira de Mangueira se tornavam cortinas e, nas paredes, porta-retratos contavam histórias do carnaval de Florianópolis. Na casa rosada de dois andares que é tanto moradia de Valdeonira quanto sede improvisada da escola de samba Dascuia, ela, sua filha Edna e sua sobrinha Juçara discutiam o que seria feito com a ala das baianas da agremiação.

As baianas chegam ao desfile aclamadas por seus pavilhões. Como traje, vestidos munidos por saias rodadas presas às suas cinturas. A parte superior da roupa traz uma camiseta com golas e mangas cobertas por diferentes enfeites. Na cabeça, as trunfas turbantes mais enfeitados dão aspecto de realeza, completados pelos pés calçados por saltos altos e argolas metal ao longo de seus braços. Mesmo sem um quesito que as avalie exclusivamente, é obrigatória sua existência nas escolas de samba. No último carnaval em Florianópolis, o número mínimo é de 30 componentes na ala.

A ala antes era composta por homens portando navalhas presas as suas pernas, que seguiam as escolas, desfilando pelas laterais. A função era defender a escola e evitar os bate-fundos, brigas geradas por ataques feitos por outras escolas. A partir de 1940, as ‘tias’ que acolhiam os sambistas em suas casas, passaram a ser homenageadas através desta ala. Hoje, na Dascuia, a situação se inverteu.

Valdeonira Silva dos Anjos convida todos para tomar um café em sua casa. Mesmo atarefada com os cuidados ao marido, a liderança na Associação de Mulheres Negras Antonieta de Barros e com a compra e venda de artigos feitos de fuxico, a historiadora formada pela Universidade do Estado de Santa Catarina, faz questão de cuidar de sua escola. Ninguém pega a fantasia antes de falar com ela. Com as baianas não é diferente. Aos 81 anos, a mulher de cabelos grisalhos e olhos pretos, planeja o encontro das ‘tias’ muito antes dos desfiles, para que elas se sintam parte importante da Dascuia.

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Dona Valdeonira com seus fuxicos. Foto: Reportagem

Se Dona Valdeonira é a mãe da agremiação, Altamiro José dos Anjos, o famoso Seu Dascuia, é o pai. Juntos desde o final da década de 50, o casal vive pelo carnaval. Quando Dascuia era presidente da Protegidos da Princesa, Valdeonira era presidente da ala feminina. Quando Dascuia teve um derrame que o deixou surdo e depois uma fratura de fêmur que o deixou em cadeira de rodas, foi Valdeonira quem cuidou de seu marido – e cuida até hoje, ao lhe dar comida e falar dos feitos de sua história para quem quiser ouvir. Foi um dos sete filhos do casal, inclusive, quem sugeriu que o nome da escola de samba fosse em homenagem ao seu pai. A comunidade aceitou na hora.

Dascuia era Dadá até cair de bicicleta quando jovem e bater a cabeça no chão, deixando-a com formato de cuia. Hoje, aos 82 anos e com a saúde debilitada, ele já não atua ativamente pelo carnaval, mas o passado do carnavalesco foi tanto de festa quanto de seriedade. Um dos foliões mais respeitados de Florianópolis, ele ajudou na fundação das duas agremiações mais velhas da cidade, a Protegidos da Princesa e a Copa Lord, e chegou a ser presidente de ambas. Até bloco de rua em sua homenagem ele tinha: as Noivas do Dadá desfilavam na Praça XV, centro de Florianópolis, até 2006. Depois, migraram para o desfile de blocos da Passarela Nego Quirido e em 2011 o bloquinho tomou as proporções de hoje: virou Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Dascuia, conquistando espaço no coração dos foliões pelo acolhimento que só as tias da família podem dar.