Florianópolis, 22 de fevereiro de 2018
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Foto: Felipe Maciel

Manifestantes detidos em 2016 seguem respondendo na justiça

Reportagem:

Fotos: Felipe Maciel

As manifestações em Florianópolis fortemente reprimidas há pouco mais de um ano, no final de 2016, contra as medidas de recessão econômica do Governo Temer (PMDB) repercutem ainda hoje na vida de algumas pessoas. O fotógrafo autônomo Gabriel Rosa e a estudante de Relações Internacionais Vanessa Canei permanecem tendo que responder na Justiça em liberdade provisória, detida e detido na noite do ato “Ocupa Ponte”, em 10 de outubro. A manifestação foi motivada principalmente pela Proposta de Emenda à Constituição 241, que aprovada, impossibilita atualmente novos investimentos em serviços públicos.

Vanessa e Gabriel foram denunciados por resistência à prisão e desacato à autoridade, à estudante soma a denúncia dano ao patrimônio público pela suposta queima de dois cones. Filmagens e fotografias feitas no dia mostram, pelo contrário, brutalidade de policiais militares durante a ação.

Na tarde desta terça-feira (6/2) uma dezena de pessoas acompanhou do lado de fora do Fórum da Capital, no centro da cidade, a audiência dos dois jovens de 28 anos. Uma nova audiência foi agendada para 11 de abril, pois uma das testemunhas de defesa, um fotógrafo do Diário Catarinense, não havia sido intimado.

Vanessa natural de Saltinho, no interior do estado, mora longe da família e para se sustentar na graduação trabalhava em baladas noturnas na capital. Ela teve que sair do emprego por causa das restrições condicionadas na liberdade provisória, que a impedem de poder sair de casa entre as 22h e 5h.

 “Fiquei com o sentimento de injustiça por ter sido presa aleatoriamente. Eu primeiro achei que não daria em nada, porém no dia seguinte na audiência de custódia recebi algumas restrições. E de outubro de 2016 até hoje ainda não fui ouvida. Tinha esperança que hoje teria fim, mas agora só em abril.”, falou Vanessa após a audiência.

“Fiquei com o sentimento de injustiça por ter sido presa aleatoriamente. Eu primeiro achei que não daria em nada, porém no dia seguinte na audiência de custódia recebi algumas restrições. E de outubro de 2016 até hoje ainda não fui ouvida. Tinha esperança que hoje teria fim, mas agora só em abril.”, falou Vanessa após a audiência.

Ela conta que tentava sair pela tangente quando começou a repressão da polícia em frente à ponte e ela foi levada para a delegacia. O fotógrafo Gabriel trabalhava por sua vez na cobertura do ato de forma autônoma ao ser detido. Segundo seu relato, ele estava posicionado entre a Polícia Militar e as manifestantes, filmando a PM, ao ser atingido por gás lacrimogêneo. Sua detenção ocorreu no momento em que saía e tentava cobrir os olhos com um lenço para se proteger.

No vídeo independente produzido pelo professor Carlos André, uma das testemunhas, publicado no acompanha.libertar.org é possível ver a cena, dos 00:35 aos 00:49. Na gravação fica evidente a passividade do fotógrafo diante da situação.

No mesmo ato do dia 10 de outubro, a estudante Larissa Neves também foi detida, pelos supostos mesmos delitos atribuídos a Vanessa Canei. Ela que aguarda confirmação do juiz para poder prestar seu relato foi a única entre os três que aceitou acordo proposto na audiência de conciliação no ano passado e cumpriu trabalho voluntário. Além de truculenta a sua detenção (imagem abaixo), ela conta ter sofrido muito assédio por ser lésbica. Vanessa e Gabriel decidiram não aceitar o acordo. A ação movida contra os dois ocorre na 4ª Vara Criminal da Capital.

Foto: Marcelo De Franceschi

A estudante Larissa Neves foi detida no mesmo ato pelos supostos delitos também atribuidos a Vanessa Canei.

A advogada popular Daniela Felix a frente na defesa junto à Luzia Cabreira lamenta a postura do Ministério Público de movimentar uma ação justo por desacato, matéria posta em cheque pelo Supremo Tribunal Federal. “O dano ao patrimônio que está sendo atribuído a Vanessa são dois cones queimados em uma operação policial que despendeu muito mais dinheiro com o armamento não letal utilizado. Essa falta de critério do Ministério Público é temerária, o órgão precisa pensar em um todo.”

Foto: Felipe Maciel

“Nossa perspectiva é a de que ambos sejam absolvidos principalmente pela grande quantidade de provas, de vídeos, de fotos, de matérias jornalísticas que dão conta de comprovar que não foram eles os autores dos delitos que estão sendo atribuídos. Conseguiremos identificar nesse caso mais um processo de criminalização de manifestantes que tem de responder ao processo, todo esse desgaste, e acabam absolvidos por inexistência da materialidade do delito ou da identificação concreta da autoria.”, comenta a advogada Daniela Felix.