Florianópolis, 22 de janeiro de 2018
Search
25397816_1546700775411154_1060000391_o

120 batimentos por minuto: o gozo como ritmo revolucionário

Reportagem:

Por Flávio Dias

Em Cannes, no calor do último mês de maio – na riviera francesa – um filme fez nascer um fervor novo que, já há alguns anos, não fazia parte das seleções comedidas do glamouroso e, por vezes, demasiado tradicional festival. Uma emoção, uma excitação que conjuga o coletivo e o íntimo como só o cinema em seu esplendor consegue acordar.

Mesmo se nos últimos anos o festival parece se fechar em uma espécie de código – onde os filmes apresentados parecem vir com uma “receita” ou “fórmula” de cinema propícia e adaptada para agradar os membros do juri – essa última edição nos presenteou com um objeto de arte audaz e livre que, contrariamente, ao “padrão Cannes” ousou sair do pessimismo e da misantropia do chamado “cinéma d’auteur”.

Embora, o presidente do júri desse ano – o espanhol Pedro Almodóvar – tenha preferido (mais uma vez) premiar um filme que, obviamente, encaixa-se na estética e na visão pessimista do mundo dos ganhadores das últimas edições (como se  inconscientemente o festival quisesse ser perdoado por seu  luxo e ostentação), o Grand Prix do júri –  espécie de “segundo lugar” do festival – foi atribuído ao filme “120 batimentos por minuto”. Genial e esperançoso, o filme de Robin Campillo foi a grande revelação de Cannes, ovacionado por um público visivelmente emocionado.

Contrariamente ao vencedor da Palma de Ouro desse ano (o sueco “The Square” e seu sarcasmo de frieza cirúrgica)  120 batimentos por minuto é um filme que, literalmente, pulsa. Colorido, sem restrições ao gozo, ao desespero,  à  urgência, à luta e à emoção. Uma película que tem a ousadia de pensar e de querer provar que a arte é, mais do que nunca,  ato de resistência coletiva. De rebelião contra a vulgaridade, o preconceito e o mercantilismo de nossos dias.

O filme conta a história dos primeiros anos de luta do grupo Act Up, pioneiro na luta contra a disseminação do  HIV e, sobretudo, contra a discriminação aos portadores do vírus. Batendo de frente na política hipócrita dos governantes franceses e, principalmente, na desonestidade e ganância da indústria farmacêutica, esse coletivo não governamental organizava atos e performances de intensa rebeldia, aliando humor, música, alegria, educação e rebelião coletiva. Suas ações destoavam drasticamente das manifestações e campanhas da época  que  vitimizavam e condenavam os grupos de risco, ao gosto da moral vigente. Invadindo escolas, cerimônias governamentais, laboratórios farmacêuticos e, literalmente, as ruas de Paris, os membros do Act Up mostravam que o gozo, o prazer, a arte, a alegria, a música e a poesia são ferramentas indispensáveis contra qualquer forma de dominação ou de discriminação.  

O diretor Robin Campillo nos convida para  uma viagem terrível e magnífica – infernal e sublime – não apenas no âmago do período em que a narrativa se situa: final dos anos oitenta e início dos anos noventa; mas também diretamente incrustada aos corpos e sensações dos personagens, fazendo assim do seu filme, uma obra contemporânea  atualíssima. Mais do que lutar contra a doença, seus personagens combatem o olhar pesado, cínico e maldizente de uma sociedade que insiste em considerá-los como párias.  Contra o cinza das tímidas e/ou hipócritas  campanhas governamentais de prevenção, o coletivo Act Up injetou sua energia  festiva, abrupta, urgente  de ruptura e de contestação na sociedade francesa.

Seus militantes invadiram o espaço público sem pedir licença contagiando corações e almas de um sopro novo, tentando mudar o paradigma da doença.

Sendo Campillo mesmo, um ex-militante do grupo Act Up, ele situa seu filme em pleno auge da epidemia, período nefasto de preconceitos pungentes e de violência enorme. Seu filme traça uma metáfora lindíssima entre contágio e a propagação do vírus e a irradiação também do que vida tem de mais precioso e belo pela força de seus personagens: a coragem, a união, a batalha cotidiana para afirmar-se  e assumir o gozo, o  prazer, enfim, a essência do que se é – enquanto indivíduo – e a liberdade primordial e ilusória de sonhar. Seu filme inunda a tela de desejo, de gozo, de impulso vital. Muito mais do que de tristeza  de um olhar insípido, dramático ou exageradamente açucarado como, na maioria das vezes, é tratado o tema da AIDS, o filme 120 batimentos por minuto ousa a esperança e a luta.

Desde seus primeiros planos, onde, sob uma névoa de cores e de texturas de uma boate, os corpos “condenados” dançam transcendentes, Robin tece um pulsante sentimento de emergência; onde os fragmentos de poeira no ar irradiam-se e se colidem em transgressão, como se mais do que o vírus passando de corpo à corpo, a vontade de viver também passasse, viajando igualmente na vontade de lutar.  

Basicamente, o filme se divide em duas partes: a primeira coletiva; onde se vê a organização do Act Up, com suas reuniões onde dinâmicas de grupo são criadas, tão tensas quanto libertadoras. É interessante aprender com o funcionamento democrático e apaixonante dessas reuniões: a força do coletivo se entremeando à necessidade do aspecto íntimo de cada história. Um exemplo simples mostrado no filme é a forma como,  ao invés de aplaudir-se as intervenções, propõem-se se estalar os dedos, permitindo assim,  aos outros participantes de, rapidamente, poder usar a palavra. Nesses tempos, em que a democracia parece um assunto do passado, varrido da atualidade política, os encontros do grupo Act Up, e mesmo as disputas entre os diferentes pontos de vista de seus participantes, são uma inspiração forte para a construção de um diálogo mútuo. A segunda parte do filme revela-se mais íntima e acompanha a evolução da doença e da história de amor entre Nathan e Sean, dois membros do grupo, com seus sofrimentos e suas alegrias e descobertas. Em uma sequencia marcante, Nathan masturba carinhosamente Sean em seu leito de hospital e é essa a força do filme: não negar o prazer, o afeto, o amor de seus personagens, mesmo em seus momentos mais delicados.

Desde sua exibição em Cannes, na noite do 20 de maio desse ano, o filme que, em princípio, havia sido programado apenas em pequenas salas alternativas, vem ganhando público e invadindo (como o Act Up) as grandes salas “Multiplex” – ou seja, os shopping-centers do cinema por toda a França, chegando já à um milhão de espectadores. Indicado para o Oscar de filme estrangeiro, onde representará  o cinema francês, 120 batimentos por minuto é um resposta tanto ao pessimismo vigente do “cinéma d’auteur” burguês que vomita erudição, misantropia e tédio – e que parece tanto agradar os organizadores do festival de Cannes – quanto ao cinema “blockbuster” hollywoodiano e suas infinitas franquias de super-heróis. O filme de Robin Campillo é uma injeção de vida e seu sucesso também de público traz esperança à esses tempos sombrios de vulgaridade e de morbidez. Vibrante, sutil e potente, aliando o coletivo e o íntimo, 120 battements par minute, conjuga o lírico, o político, o poético e o sensual; porque é assim, a vida: uma batalha cotidiana onde a luta é mais bonita, mais forte,  mais eficiente e mais profunda, quando se pode também amar e gozar.