Florianópolis, 12 de dezembro de 2017
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capa Maruim

Para Van Gogh, com amor

Reportagem:

Como uma história a se contar no momento que antecede o sono, a voz que experimenta decifrar o sujeito protagonista é suave e quase cerrados os olhos, por entre os feixes, a íris paralisa quando o brilho de um déjà-vu emerge, como num sonho que se aproxima.

A tela, que se projeta na soturna imensidade, é quadrada. Como não poderia deixar de ser em movimentos que se pretendem estáticos. As pinturas de Van Gogh ressaem de pinceladas que percorrem a tela simétrica com a mesma destreza que penso terem sido feitas quando criadas pelo artista.

Das pinturas que fez e da gente que quis guardar, o longa* os revive. E, de repente, são expostas íntimas memórias daquelas relações existidas. Revelações talvez mais do que me fosse apropriado, salvo a imaginação sobre a vida daquele homem, diante de seus autorretratos. Hoje tão comuns.

Guiado pela verdade, Armand Roulin, filho do carteiro e também amigo de Vincent Van Goh, começa sua jornada a partir de uma carta do artista que se destina a Theo, irmão do pintor. Seu caminho é permeado por demasiados flashbacks, que se diferenciam da narrativa cronológica do filme por seu desbotamento e por estética mais aproximada do realismo do que do pós-impressionismo.

Apesar de tantas regressões, a trama se desenvolve em um suspense que amarra em suas pinceladas. Constantes e marcadas que são, as pinceladas compostas por mais de 200 mãos, são mencionadas como o grande trunfo do longa, assim como a mim, formam uma grande ode ao artista que Van Gogh foi.

Sensível ao tornar humano o “artista incompreendido”, que morreu aos 37 anos tendo vendido apenas um quadro em vida, a animação traz o questionamento recente sobre o suicídio do pintor devido à fatos pouco explorados e talvez não tão interessantes a personalidade formada por gerações posteriores. Oitocentas cartas e sessenta e cinco mil frames depois, sigo na busca por senti-lo.

*Com Amor, Van Gogh (Dorota Kobiela e Hugh Welchman, Reino Unido/Polônia, 2017)