Florianópolis, 12 de dezembro de 2017
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Leishmaniose: três de cinco cães condenados à morte pela prefeitura não estão doentes

Reportagem: e

 

Rinthe, Pilú, Pinga, Chiquinha, Paloma, Chaves, Urso e Linda receberam uma visita inesperada dia primeiro de outubro. No alto do morro onde moram, no Saco dos Limões, o acesso à casa simples de madeira é feito por um caminho íngreme de pedras soltas, possível apenas para quem o sobe a pé. Foi assim que as veterinárias do Centro de Controle de Zoonoses da prefeitura de Florianópolis (CCZ) chegaram para coletar sangue dos oito cachorros (6 fêmeas e 2 machos) com suspeita de Leishmaniose Visceral. Duas semanas depois, o resultado dos exames atestou que todos os cães estariam infectados e, na mesma visita, três Chaves, Urso e Linda foram recolhidos pelo CCZ para serem sacrificados. Rinthe, Pilú, Pinga, Chiquinha e Paloma foram poupadas, por ora, por estarem prenhas. Os agentes do CCZ voltariam depois que as cachorras dessem à luz para recolhê-las, junto de suas crias, e conduzi-las ao mesmo destino dos outros cães infectados.

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Subida que faz parte do acesso à casa de Maicon e sua família. Foto: Lucas Weber / MARUIM

Garantida por lei, uma contraprova foi solicitada por Maicon Mendonça, tutor dos cães, e por  Rosa Villanueva, bióloga, protetora e defensora dos direitos dos animais que ficou sabendo do caso através de uma denúncia feita por Maicon no Facebook e passou a acompanhar de perto os desdobramentos da história. Uma clínica veterinária particular coletou as amostras dia 2 de novembro e fez dois exames sorológicos diferentes (RiFi e Elisa), no valor total de 550 reais, pagos por Rosa.  O resultado constatou que apenas duas estavam de fato com a doença.

Em janeiro Maicon solicitou à Diretoria de Bem-Estar Animal (Dibea) a castração de seus oito cachorros. O serviço é realizado gratuitamente, mediante comprovação de residência  e baixa renda do responsável — até 3 salários mínimos por família. As cirurgias foram agendadas para agosto, mas próximo à data marcada 5 cachorras entraram no cio e o Dibea remarcou os procedimentos para janeiro de 2018. Nesse meio tempo, todas as 5 cachorras engravidaram e deram a luz a 27 filhotes — 5 deles crias de Paloma e Chiquinha, as cadelas infectadas com leishmaniose. Marcelo Dutra Cunha, gerente de bem-estar animal da Dibea confirma que os atendimentos podem demorar cerca de 5 meses ou mais, e que, como qualquer outro serviço de saúde, tem bastante fila, o que aumenta a espera pelo atendimento.

 

Outras incoerências por parte da prefeitura ajudaram a agravar o problema. Tatiane Evangelista, veterinária responsável pelos exames de contraprova, afirma que a prefeitura deveria ter dado orientações à família de Maicon sobre a leishmaniose, e proporcionado condições para que as cadelas infectadas não ficassem expostas ao agente transmissor da doença, o mosquito-palha (Lutzomyia sp). Segundo Maicon, nada disso aconteceu. Para evitar que os animais infectados sejam picados por mosquitos transmissores que propagam a doença, podem ser usados métodos repelentes como coleiras antiparasitárias e líquidos aplicados no pescoço do animal. Rosa, a protetora, foi quem comprou 5 coleiras e colocou nas cachorras, para que, mesmo doentes, não oferecessem risco à família nem à comunidade. A veterinária também questionou o procedimento realizado pelo CCZ, que optando por eutanasiar os animais infectados, escolheu esperar as cadelas prenhas parirem para só então recolhê-las junto de seus filhotes e matar todos.

 

“O diagnóstico é muito difícil, existe uma gama enorme de exames que podem ser feitos até que se comprove, com certeza, que o animal está infectado. Não se condena um animal no primeiro exame”, ressalta Tatiane.

 

Segundo Paula Virginia Peruch dos Santos, médica veterinária do CCZ, quando o resultado é positivo para leishmaniose, agentes vão até a casa dos tutores para dar a notícia pessoalmente, já que haverão muitas dúvidas para serem sanadas. Os donos recebem informações  sobre a doença, e as duas opções que podem ser tomadas: o tratamento com um profissional veterinário particular, já que a prefeitura não fornece o medicamento; ou a eutanásia.

Maicon conta que os agentes lhe deram como única alternativa a morte dos animais, uma vez que o tratamento custaria cerca de 10 mil reais e precisaria ser feito por um médico veterinário particular. A Dibea nem o CCZ oferecem a medicação para controlar a doença. Os agentes o advertiram sobre o risco que ele estava correndo, bem como a comunidade, mas não explicaram sobre como a doença funciona nem que medidas deveria tomar para se proteger e aos cachorros, conta o tutor.

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Casa de Maicon, sua esposa e seus pais. Lar de, atualmente, 32 cães. Foto: Lucas Weber / MARUIM

 

O CCZ dá 7 dias para que a família tome uma “decisão consciente”, esclarece Paula. Caso a escolha seja pelo tratamento, que envolve exames periódicos e acompanhamento veterinário, podendo chegar a R$1.500 mensais, o tutor deve manter o CCZ informado sobre todos os procedimentos e prestar contas a respeito da saúde do animal. Em caso de eutanásia, os agentes vão até a casa do tutor recolher o animal, que já vai sedado para o CCZ, onde recebe uma dose maior de sedativo e é encaminhado para uma salinha afastada onde a substância letal é injetado.

“O processo é indolor”, garante a veterinária, que também explica sobre os testes de leishmaniose realizados em animais de rua. Nesses casos, o CCZ informa que procede conversando com vizinhos para saber um pouco da história do cão e tenta achar um responsável para receber o resultado dos exames. A prefeitura abriu licitação para a compra de coleiras e a previsão de entrega para cachorros em área de risco é para começo do ano que vem, segundo Paula. No Sistema de Divulgação de Editais de Licitação das Prefeituras Municipais, no portal do governo de Santa Catarina, não consta nenhum edital em andamento ou já encerrado sobre compra de coleiras ou outro tipo de repelente para cães.

 

Brasil é o único país que utiliza a eutanásia como medida de saúde pública

A leishmaniose é uma doença infecciosa grave, causada pelo protozoário Leishmania infantum. Existem dois tipos dessa doença: a Leishmaniose Visceral, cujos sintomas são febre por mais de 7 dias, aumento do fígado e baço, além de perda de peso acentuada; e a Tegumentar, que provoca úlceras na pele e mucosas, segundo relatório do Ministério da Saúde. Nos cães, os principais sintomas são o emagrecimento, falta de apetite, crescimento rápido das unhas, feridas próximas aos olhos, pontas das orelhas e no focinho e conjuntivite. A transmissão acontece quando o mosquito-palha, também chamado de flebotomíneo, pica uma pessoa ou animal doente (cachorros, gambás, raposas e outros mamíferos da floresta) e se contamina com o sangue infectado. A partir disso, ao picar pessoas e animais sadios, o mosquito espalha o protozoário. Os primeiros relatos da Leishmaniose Visceral no Brasil foram feitos em 1934 em pessoas que morreram com suspeita de febre amarela.

 

Nas Américas, a leishmaniose visceral é endêmica em 12 países. O Brasil está na lista de países com transmissão em expansão, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde,  de 2016. “No período de 2001 a 2014 foram registrados um total de 48.720 casos de leishmaniose visceral e média anual de 3.480 casos, sendo que 96,42% (46.976) estão concentrados no Brasil” consta no relatório. No Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral, produzido pelo Ministério da Saúde, consta no item 7.3.1 que “a prática da eutanásia canina é recomendada a todos os animais sororreagentes e/ou parasitológico positivo”, não oferecendo nenhuma alternativa de tratamento ao animal.

 

Até 2010, médicos veterinários que se dispunham a tratar a leishmaniose visceral canina poderiam sofrer advertências do Conselho Federal de Medicina Veterinária. Em 2012, um caso ficou famoso no Mato Grosso do Sul, quando a presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV), Sibele Luzia de Souza Cação, teve seu mandato cassado por defender o tratamento da doença em cães, e ficou inelegível por quatro anos. O conselho justificou sua decisão conforme a legislação vigente do Ministério da Saúde e o Ministério da Agricultura, uma vez que, como porta-voz institucional, Sibele estaria “agindo de forma contrária aos aspectos técnicos e éticos sobre o tema, em desacordo com a lei e aumentando os riscos para a Saúde Pública”.

 

 Segundo a médica veterinária Tatiane Evangelista, a política de matar os animais já demonstrou ser ineficaz há muito tempo. “Controle populacional (castração), educação, proteção como coleiras para proteger da picada, vacinação e tratar os animais infectados” são medidas que, juntas, são eficientes e podem diminuir a incidência de novos casos. Se tratados, muitos cachorros podem viver bem com a leishmaniose, pois uma vez controlada a carga parasitária ele não oferece riscos ao ambiente.

 

Primeiro caso de leishmaniose canina em Florianópolis completa 7 anos

A primeira vez que a doença foi diagnosticada em Florianópolis foi em 2010, na Lagoa da Conceição, em um cachorro. Em humanos só foi aparecer sete anos mais tarde, em agosto deste ano, em um homem de 53 anos, morador do Saco dos Limões — sendo também o primeiro caso de Santa Catarina e, em setembro, em um morador do Pantanal, de 34 anos. Ambos foram diagnosticados precocemente e tiveram um tratamento bem sucedido. Desde 2010, o CCZ diagnosticou mais de 400 casos de leishmaniose visceral canina. Os casos se concentravam na região da Lagoa da Conceição, mas hoje já estão espalhados por 34 bairros de Florianópolis.

Até setembro deste ano, 956 animais foram testados e, entre eles, 56 sacrificados. Os principais focos de ocorrência são na Lagoa, Canto e Costa da Lagoa da Conceição, Rio Tavares, Pantanal, Córrego Grande e Itacorubi. Desde o aparecimento da doença, em 2010, mais de  7.000 cães foram investigados pelo CCZ. Em setembro, como consta no último relatório disponibilizado pelo Departamento de Vigilância Epidemiológica da Coordenação Geral de Doenças Transmissíveis, do Ministério da Saúde, foram eutanasiados 15 cães em Florianópolis 10 no bairro Saco dos Limões, onde mora Maicon.

 

Doenças negligenciadas

A leishmaniose integra a lista de 18 doenças negligenciadas da Organização Mundial de Saúde (OMS). Fazem parte dessa categoria doenças, geralmente transmissíveis, que são tratáveis e curáveis, mas que por atingirem majoritariamente as camadas mais pobres da população e ocorrerem principalmente em países em desenvolvimento, não despertam o interesse da indústria farmacêutica em produzir medicamentos para tratá-las. Os métodos para diagnosticá-las são antigos e inadequados, por também não receberem atenção e investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

 

“Úlcera de Buruli, Doença de Chagas, Dengue, Dracunculíase, Equinococose, Trematodíase transmitida por alimentos, Doença do sono (tripanossomíase africana), Leishmanioses, Hanseníase (lepra), Elefantísase, Micetoma, Cegueira dos rios, Raiva, Esquistossomose, Verminose transmitida pelo solo, Teníase/ cisticercose, Tracoma (conjuntivite granulomatosa) e Bouba são as doenças negligenciadas apontadas pela OMS e Médicos Sem Fronteiras.”

 

Um relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre as doenças negligenciadas com maior ocorrência no Brasil, aponta que a leishmaniose é mais frequente entre indivíduos do sexo masculino (72%) e maiores de 10 anos (91,5%). A maior incidência de casos é no Norte do país, que sozinho deteve 50% das ocorrências entre 2003-2008.

Segundo a Coordenação de Fiscalização de Produtos Veterinários do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o único medicamento com o registro autorizado para tratar a leishmaniose visceral é o  Milteforan. A portaria  adverte a proibição de  tratamento da leishmaniose visceral com “produtos de uso humano ou não registrados no MAPA”. Uma caixa de 90ml do medicamento pode ser encontrado na internet na faixa de preço de R$2.200,00 e o tratamento dura 28 dias.