Florianópolis, 12 de dezembro de 2017
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Clube Negro Novo Horizonte comemora 32 anos de resistência

Reportagem:

Fotos: Arquivo da Sociedade Recreativa Esportiva e Cultural Novo Horizonte

À Beira-Mar, e a poucos metros do mais novo e luxuoso empreendimento da região, resiste há mais de 30 anos a sede do Clube Negro Novo Horizonte. Na noite chuvosa do dia 12 de agosto, 340 pessoas se encontraram no Salão de Festas do clube para comemorar ao aniversário de 32 da Sociedade Recreativa e Cultural Novo Horizonte.  

Os convidados foram recebidos por um altar de espelhos e flores que serviu de moldura para quem quisesse ser fotografado pela profissional contratada para registrar a festa. Perto das 22h o salão de dois andares já estava lotado. Em uma tela branca localizada no palco uma série de imagens estava sendo projetadas: fotos antigas de pessoas dançando em um salão, amigos reunidos em uma festa e meninas negras em pomposos vestidos brancos.

IMG_2530Ao ver as fotos no telão, Ari e Leda de Freitas Cunha, casados há 44 anos, lembraram-se de sua filha Claudia, que aos 15 anos debutou com um grupo de meninas negras em um dos bailes organizados pela Sociedade Novo Horizonte. “Para nós foi um orgulho, foi uma honra quando a nossa filha debutou no nosso clube, da nossa raça”, lembrou Leda. Para Ari e Leda, assim como para outros casais presentes na festa, o Clube Negro era um dos poucos lugares da Grande Florianópolis disponíveis para negras e negros dançarem e festejarem. “Esse clube nós frequentamos até hoje, e valorizamos muito, pois nos anos 80 era um dos poucos lugares permitidos para negros”, afirmou Ari.

E foi para ser um espaço onde os negros pudessem se reunir e se divertir que, um grupo de familiares descendentes do escravo Marcos Manoel Vieira criou em 1985 a Sociedade e Clube Novo Horizonte.  O grupo fora reunido por causa de pesquisas de historiadores da UFSC, sobre a família de Marcos Manoel Vieira. A pesquisa fazia parte de homenagens ao centenário da abolição da escravatura (1988), e que em São Pedro de Alcântara culminaria na construção de um santuário e um monumento na cidade.  

O diretor-fundador do Clube, Eduardo Farias, lembra que o grupo se uniu para fortalecer o evento de inauguração do monumento e do santuário, mas que sentiram a necessidade de estarem unidos em outros espaços. “A gente sentiu a necessidade, porque os clubes negros que nós já frequentávamos estavam em decadência. Hoje nós temos um espaço que congrega toda a raça negra”, disse Eduardo Farias.

O casal Manoel Hilário Neto e Maria José Hilário prestigiam a festa de comemoração de 32 anos da Sociedade

O casal Manoel Hilário Neto e Maria José Hilário prestigiam a festa de comemoração de 32 anos da Sociedade

Um espaço que recebe há 30 anos Ari de Freitas Cunha e Leda Santana de Freitas Cunha, casados há 44 anos, e Manoel Hilário Neto e Maria José Hilário, moradores do bairro Agronômica, próximo ao Clube, casados há 40 anos. “A sociedade é um lugar que podemos ficar tranquilos, somos todos iguais irmãos aqui”, explica Manoel Hilário Neto.  

O Novo Horizonte também recebe em noites de festa a jovem Daiane Miranda, de 23 anos. A estudante de Enfermagem da UFSC é a rainha do Clube. E na noite da comemoração desfilou nos corredores do salão. Em 2017, 30 anos depois da criação do Clube Negro, Daiane não é proibida de entrar em lugares. Mas reconhece que não é em todos os bares ou baladas que se sente a vontade. “Dá para notar muito a diferença de hoje para antigamente, eu falo isso pelas histórias que os meus pais contavam. Eles só frequentavam clubes negros, hoje eu posso entrar em todos os lugares, mas em algumas baladas daqui [Florianópolis], eu não me sinto totalmente confortável, parece que eu sou um ET. Poder entrar no lugar não quer dizer que você não será discriminado também”, disse Daiane.  

Entre tubarões à beira-mar

Atual sede da Sociedade construída em 2014

Atual sede da Sociedade construída em 2014

Estar à Beira-mar, em Florianópolis e rodeado de apartamentos de luxo, não facilitou o trabalho dos membros da Sociedade nos últimos anos. “Completar 32 anos aqui, depois de toda luta que travamos desde a década de 80 é uma imensa alegria. Mas as coisas não estão fáceis. Para nós continuarmos nesse local, temos enfrentado muitas coisas ainda”, relata o presidente Edenilson Antônio Rosa. Segundo os diretores os esforços da prefeitura e de empresários para retirá-los dali são frequentes. O diretor Eduardo Farias acredita que será difícil retirar o Clube daquele local. “A Fundação Palmares já emitiu um documento que orienta que a sociedade continue no mesmo local, apesar de alguns segmentos da sociedade persistirem em querer tirar nós daqui. Imobiliárias, prefeitura”, explica Eduardo.

Além de festas e jantares, a Sociedade Novo Horizonte promove atividades para a comunidade, como oficinas de informática para idosos e aulas de dança afro. A diretora de atividades sociais da Sociedade, Gisele Correa Costa, aposta no Clube como um espaço de promover a cultura afro-brasileira. “Eu vejo esse espaço de fortalecimento da cultura afro-brasileira. Eu penso que aqui e um lugar aonde as pessoas negras vêm para se reconhecer, se valorizar e se auto afirmar. Nós oferecemos oficinas que resgatam a nossa cultura, temos uma biblioteca onde é possível pesquisar mais sobre a história e a cultura negra”, explica Gisele.