Florianópolis, 12 de dezembro de 2017
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Eles estão se organizando: Secundaristas que ocuparam escolas em 2016 elegem nova gestão da UFES

Reportagem:

Logo pela manhã do dia 13 de novembro, fora possível perceber jovens e adolescentes em torno do Terminal Integrado do Centro (Ticen) à procura do letreiro UFSC — Semidireto, nas placas espalhadas nas estações do terminal de ônibus. Eram alunos da rede pública municipal, estadual e federal de ensino que se dirigiam à universidade para participar do 31° Congresso da União Florianopolitana de Estudantes Secundaristas, a UFES.

‘A escola é nossa’. Este foi o tema do Congresso que reuniu cerca de 150 estudantes secundaristas na UFSC, das 8h às 17h, para debater a conjuntura atual do país e do movimento estudantil, o fechamento de escolas em Florianópolis, machismo, racismo, homofobia e eleger uma nova gestão para a UFES. Em suas falas os estudantes deram suas opiniões, debateram ideias entre si e sem medo de discordar.

Na primeira roda de conversa da tarde, por exemplo, os estudantes debatem aborto, e a recente aprovação da PEC 181. Divergiram, e para um dos estudantes, as secundaristas explicaram: não é fácil dizer não quando os homens não querem usar camisinha.

 

 Na mesma palestra, um copo com frases machistas circulou entre os estudantes. Cada um tinha a tarefa de pegar o papelzinho do recipiente e ler uma das frases ao microfone. Um garoto leu: “Homem que é homem não chora”. Uma das palestrantes da roda de conversa sobre machismo, a acadêmica do curso de Serviço Social e militante do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, Djulia, perguntou a ele: “Você tem alguma coisa para dizer sobre essa frase?”. Ele respondeu: “Eu choro bastante”. Após os risos da plateia, Julia, a estudante do EEB Simão José Hess, e também palestrante do debate, explanou para os estudantes o porquê o machismo também afeta os homens e finalizou dizendo: “A reprodução do machismo desumaniza as pessoas, e todo mundo acaba sofrendo com isso”.

Congresso ocorreu no Auditório do EFI das 8h as 17h.

Congresso ocorreu no Auditório do EFI das 8h as 17h.

 

Ocupações de 2016 na Grande Florianópolis

Este ano, 2017, foi o primeiro de movimento estudantil do aluno do IFSC Mauro Ramos, Joaquim Machado. Ele e mais 24 estudantes que participaram de ocupações por toda a Grande Florianópolis construíram a Chapa 1, a vencedora do Congresso da UFES. De acordo com o secundarista, para que o movimento de ocupações que o trouxe até o congresso como membro de chapa renasça será preciso organizar a ‘base’. “A gente vê um Brasil muito apaziguado nesse momento. Várias reformas passaram agora e o povo parou de se mobilizar, acho que não adianta a gente tentar ocupar os espaços só quando reformas como essas vêm à tona. É necessário todo um trabalho de base, toda uma discussão e é por isso que a gente acha que a UFES é necessária, é propícia nessa conjuntura, talvez a gente não consiga fazer apontamentos em nível nacional, mas vamos fomentar os estudantes com um trabalho de base forte que pode gerar uma maior participação nas lutas do movimento estudantil”, explicou Joaquim.

 

“Esse fervo do movimento estudantil voltou com as ocupações. A maioria das pessoas que estão reestruturando a UFES é remanescente dos primeiros contatos com o movimento estudantil dentro das ocupações.” Joaquim Machado.

Os estudantes da chapa 1 apresentam suas propostas de trabalho

Os estudantes da chapa 1 apresentam suas propostas de trabalho

Os estudantes da chapa 1, concorrente unica e vencedora do 31º Congresso da UFES, se posicionaram contrários ao fechamento das escolas em Florianópolis, ao movimento escola sem partido e as reformas previdenciária e trabalhista. “Sabemos que essas reformas terão implicações nas nossas vidas, vão afetar o nosso futuro já que vamos ser inseridos no mercado de trabalho após sairmos da escola. Além disso, em muitas escolas tem estudantes que já são trabalhadores, e a gente precisa lutar com eles”, disse um dos estudantes na apresentação de pautas da Chapa 1.

Para o secundarista, Joaquim Machado, os professores da rede pública e os alunos precisam estar unidos para reivindicar seus direitos e defender uma educação pública de qualidade. “Os professores também sofrem com essa questão das reformas trabalhistas e do ensino médio. Não há outra maneira se não construir uma resistência com professores e alunos unidos”, disse Joaquim.

 Entre as propostas da Chapa 1 está a criação de uma organização dos grêmios da cidade. “Um espaço que os grêmios poderão compartilhar o que estão passando nas escolas”, disse Hannah O’Sullivan no momento em que alguns membros da chapa apresentaram as propostas no Congresso.

Vanessa e Maria Clara participam pela primeira vez de um evento do movimento estudantil.

Vanessa e Maria Clara participam pela primeira vez de um evento do movimento estudantil.

As estudantes do ensino médio e técnico do IFSC de São José, Maria Clara Santos e Vanessa de Oliveira, atravessaram a ponte e vieram juntas ao Congresso. As secundaristas ficaram sabendo do evento, pois a comissão eleitoral do Congresso e outros estudantes passaram nas salas do Instituto convidando-as. Maria Clara disse que os pais a proibiram de participar das ocupações que aconteceram no final de 2016 no IFSC de São José. “Eu não participei, mas achei que o movimento foi essencial até para o que está acontecendo aqui hoje. Imagina hoje vários estudantes de escolas diferentes estão reunidos, e eu acho que é assim, se unindo, que nossa voz fica mais forte”, disse a estudante.

 Em ocupações as atividades e tarefas são divididas em GTs, os grupos de trabalho. Para o estudante do primeiro ano do ensino médio do Colégio de Aplicação, João Vitor Vargas, que participou das ocupações de 2016, a possibilidade de poder compartilhar com os colegas de aula sua experiências na ocupação fez toda a diferença. “Tu aprendes a viver em uma pequena sociedade dentro da escola, onde cada um tem uma função. Tinha o pessoal da faxina, o pessoal da alimentação, por exemplo, e isso te dá uma visão de mundo muito diferente.Alguns professores realizaram espaços para a gente poder socializar a experiência das ocupações com pessoas que não participaram”, explicou João.

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João Vitor foi ao Congresso da UFES junto com as colegas do Colégio de Aplicação Elsa Viviane Sierra Fanti e Larissa Peres de Matos. Para Elsa o evento vai fortalecer o movimento estudantil na Grande FlorianópolisReestabelecer a UFES e lutar pelo movimento estudantil é acreditar que sim, podem haver mudanças” afirmou a estudante.