Florianópolis, 21 de novembro de 2017
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O canto de Valdete

Reportagem:

Em Sambaqui, há manhãs à beira-mar em que tudo parece um pouco de tinta muito leve e mais nada. Apenas um pouco de tinta e frescura. A própria luz molhada estremece. O dourado tem muita água e desbota. Uma gota de azul basta para interligar céu e mar. Como névoa, a brisa da manhã, trespassada e a escorrer, nascendo e hesitando, vai beirando a costa verde de braços abertos para a baía, estreitando-a amorosamente contra si. Aqui nessa terra serena de montes e favos de Mata Atlântica, as povoações de origem açoriana constroem sempre os seus casebres brancos de janelas e portas coloridas virados de frente para o mar – por pura contemplação, acredito. Na última segunda-feira de fevereiro, o hálito cerrado de maresia molhava a vegetação e a claridade não hesitava em posar e o sol em aquecer, dourando os pescadores e suas baleeiras, as vielas de pedrinhas, os telhados, as paredes das casas e o farto campo de bananeiras de Dona Valdete, alimentado diariamente com nutrientes dos pés quase na água. 

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Crédito: Vitor Shimomura

A cerca de cinco quilômetros daquele terreno, na quase inexplorada Ponta da Luz, a senhora rendeira do bairro nascia, há 82 anos, sob o abraço carinhoso das águas e da floresta nativa. No início do século XX, o bairro era somado por pequenas aglomerações, localizadas na Ponta do Sambaqui e Barra do Sambaqui – ambas interligadas através de longas trilhas de mata fechada. Para ir até a escola, na época um casarão branco de janelas e portas azuis, a pequena Valdete tinha que subir diariamente pelos morros e descer por riachos até encontrar, duas horas depois, um pedacinho de civilização. Quando ia de canoa com seu pai, a viagem levava 30 minutos. Pelas dificuldades de locomoção, a rendeira estudou apenas por três meses. Desistiu também para ajudar seu pai nas atividades diárias: pesca, roça e venda de bilro – técnica artesanal de renda proveniente dos açorianos no Séc. XVIII repassada por sua mãe quando tinha apenas sete anos de idade.

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A base alimentar de sua família era, de segunda a segunda, ostra in natura retirada das pedras mesmo, peixes diversos e de diversos preparos, berbigão, siri, arroz, farinha e pirão d’água. Às vezes também tinha cana, mandioca e milho. Já carne vermelha era artigo de luxo, compravam duas vezes por mês. E foi assim que passou sua infância e adolescência. “Carne era para quem tinha dinheiro para gastar, meu filho. A gente era pobrinho pobre. Comia o que o mar e a terra podiam nos dar”. Finaliza Valdete, me chamando de Davi – nome do meio de meu irmão, com o qual tenho a honra de ser chamado toda vez que passo pela rua e ela me vê. “Davi, vocês toda hora passam por aqui e eu não vejo. E quando vejo eu não tenho mais banana para dar”. Reclama, em tom irônico.

Às vezes, quando estou de folga, sentado em casa, o telefone toca: é Valdete dizendo que tem mais cachos de banana para entregar. Desligo o telefone e corro ligeiro porque sei que aquela senhora é arisca e não teme os 100 degraus feitos à mão com pedra e cimento. Quando chego, logo na ponta do último piso, entre as sombras de pitangueiras e árvore de espinhos, avisto Valdete já subindo a escada, agarrando com uma das mãos os arames improvisados de corrimão, enquanto na outra, aperta os cachos de banana embalados em sacolas de supermercado. “Ó, Davi, estas estão verdes mas deixa na cestinha que ela fica madura rapidinho”. Essa queridês em forma de pessoa fica contente ao me ver porque lhe remete ao passado, quando me viu horas depois do parto no colo de minha mãe. Diz que cresci tão rápido como chuva de verão. Não duvido, e muito menos contesto meu novo nome.

Crédito: Vitor Shimomura

Crédito: Vitor Shimomura

À minha frente, enquanto dedilha na renda de bilro uma faixinha para cabelo, Valdete sopra pelo beiço fino de origem açoriana um sotaque genuíno e voz bela, serena e vivaz – daquelas que te prende os ouvidos e te enche o peito de ar em busca de refúgio para tantos suspiros. “Ratoeira bem cantada, faz chorar, faz padecer. Também faz um triste amante do seu amor esquecer. Meu galho de malva, meu manjericão, dá três pancadinhas no meu coração” canta, ritmada. No gingado do refrão da Ratoeira, – roda de homens e mulheres, onde cada um expunha os seus sentimentos em forma de versinhos ritmado-, a pele suave e enrugada da cor do pão era claramente refletida nos óculos transparentes que escondiam a profundidade dos seus olhos negros e cansados. Estava vestida com um gosto sutil: blusa branca e leve de pequenas rosas estampadas, saia preta de linha crua e Havaianas azuis remendadas com alças de cores distintas – laranja e vermelha. “Visse, tô bonita que nem rabo de cabrita” troça Valdete, em meio a gargalhada um tanto envergonhada. 

Quase sempre de uma bravura imensa, a mulher da beira-mar, logo que casa carrega consigo quase todo o peso do lar, cresta-se e envelhece. Com Valdete não foi diferente. No mar, enquanto pescava, conheceu o famoso seu Toló, pescador parrudo e falecido marido, quando estava na flor da idade, aos 19 anos. Desabrochou e casou-se logo em seguida, quando Toló propôs o namoro, negado por ela. “Eu disse que não queria namorar para depois ele ir embora e me deixar. Era só casando mesmo, meu filho. Depois o Toló foi lá em casa, não tem, e me pediu em casamento, mas eu gostei. Casei cedo e ficamos mais de 50 anos juntos”. Enquanto assistia o marido subir à poupa da canoa para navegar, Valdete cuidava da casa e da filha, fazia renda, observava as bananeiras, capinava o jardim e os terrenos baldios dos vizinhos.

Quando o pescador retornava do ofício diário, à espera, a mulher também limpava os peixes e os colocavam para secar no varal improvisado com bambu, para depois comercializar entre a comunidade, restaurantes e comércio local. Anos após sua morte, seu Toló acabou virando lenda e ganhou nome da praia ao lado de sua casa. Hoje, Valdete guarda saudades e lágrimas contidas, enquanto no varal que antes pregava peixes limpos e escalados, hoje residem apenas roupas, lençóis e panos de prato. 

Crédito: Vitor Shimomura

Crédito: Vitor Shimomura

A senhora que tenho diante de mim viu a vida lhe transformar, moldurando rugas por onde já caíram lágrimas, mãos deformadas e castanhas, que ganham o pão de cada dia e cheiram a sal e ervas daninhas. É uma beleza extraordinária. Beleza da verdade e da vida trágica, das pessoas que cumprem a existência e só caem esfarrapadas e exaustas à beira-mar, mas que encontram a felicidade todas as manhãs ao sentir a terna brisa que vem de longe, sem saber de onde, mas que transpassam pela janela somente para bater frescas em seu rosto. 

Dona Valdete não tem retratos da família, nem fotos suas ou de seus pais e irmãos. A única recordação que tem de sua vida passada é uma foto com seu marido e uma vizinha, tirada há 10 anos atrás. Para ela, as memórias que vem à mente bastam. “Naquela época não existia foto aqui, não. Tenho tudo de bom marcado na minha cabeça, lembro de tudinho e quando quero, Davi”. Portanto, Dona Valdete, guardo aqui um espaço para contar uma parcela de sua vasta história, perpetuada nas entrelinhas como patrimônio histórico de Sambaqui. Para mim, és cria da terra, rainha do mar e filha desse infindo vento sul. És bananeira, conchinhas e grãos de areia. Um retrato fiel da essência que move toda essa gente simples, calada e de peito aberto. 

Logo, logo tornarei a ver novamente o azul que nos cerca, e chegará mais alto até mim o seu imenso ecoar prolongado e tranquilo. Para nós, basta pregar os olhos marejados no horizonte para se perceber distintamente a grande voz do mar chamando. Valdete criou-se com ele e guardou-a para sempre em seu peito – eu também nunca mais a esquecerei.

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Crédito: Vitor Shimomura

Crédito: Vitor Shimomura

Crédito: Vitor Shimomura