Florianópolis, 21 de novembro de 2017
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Sob o tabu, uma cultura do suicídio

Reportagem:

 

Por Noa Cykman / Imagem de capa: Isaac Cordal

 

É assustador falar sobre suicídio. É preciso encarar sua possibilidade, sua presença, sua multiplicação, sua eminência; é preciso admitir sua pertinência, sua plausibilidade, sua coerência, sua legitimidade; é preciso enfrentar o mistério, o incógnito, o incontrolável, o inconcebível, o decisivo; é preciso confrontar o segredo, a interdição, o silêncio, o repúdio religioso, o tabu na mídia, o tabu na família, o tabu na escola, o tabu na sociedade, o tabu no velório, o reproche generalizado; é preciso equacionar o pensamento, o sentimento, o medo, o espelho, o conhecimento, o desconhecimento, o nada; é preciso reconhecer seu caráter social, nossa condição participante desse corpo social, nossa responsabilidade, nossa parte doente participante desse corpo social doente.

E há como um receio de que ela nos ouça. Que sua sombra se nos apresente ou que nosso próprio lado sombrio ressoe – que, de alguma forma, ela se manifeste. Há como um temor de despertá-la – ela, que está permanentemente de tocaia, que nos observa ininterruptamente, que se transfigura imaginação afora e assume todas as formas do medo. Que nos embaça a vista e paralisa a razão. Há a aflita recusa do pensamento que ameaça e a autoflagelação redobrada pela censura. Ela está por trás e por dentro do suicídio e nos aturde em movimentos contrários de aproximação e afastamento. Ela nos habita, ainda que por ausência, ou pela expansão da ausência. Falar de suicídio é como mirar os olhos do basilisco.

Suicídio. Quando o assunto se dá a público, em casos excepcionais, repercute a conjugação: o suicídio é um tabu e é preciso pautá-lo. É possível que a escassez de menções e o retorno da conjugação reflitam um problema adicional: o de que não se sabe ou não se ousa falar sobre o que é preciso falar para falar de suicídio. Aos poucos, revelam-se dados, sempre aterradores, que são para o debate como uma estaca zero. Em seguida, observações psicologizantes, que enfatizam o caráter individual e recomendam respaldo médico – essas oferecem ao debate soluções cuja eficácia é como a das grades no topo dos prédios.

Enquanto pestanejamos, o território do suicídio se alastra. Não se restringe a regiões íntimas, excepcionais e indiscutíveis. Há um território real, social, compartilhado, sendo pactuado, reproduzido e disseminado cotidianamente. O suicídio é o efeito culminante de um modo de vida ordenado em torno da destruição da vida. É o sintoma drástico de uma vida esvaziada de sentido, em que a própria vida tornou-se mais afim da morte. É o sinal, tão assustador porque nítido, de que a vida, como nos é dado viver, precisa ser interrompida.

Segundo Spinoza, um dos mais notáveis filósofos da tradição ocidental, a destruição provém sempre de uma força externa. Na medida em que uma coisa existe, ela tende a reafirmar sua própria existência, e apenas causas exteriores, mais potentes que ela, a podem destruir. Em sua obra “Ética”, o autor argumenta: “Ninguém, portanto, a não ser que seja dominado por causas exteriores e contrárias à sua natureza, descuida-se de desejar o que lhe é útil, ou seja, de conservar o seu ser. Quero com isso, dizer que não é pela necessidade de sua natureza, mas coagido por causas exteriores, que alguém se recusa a se alimentar ou se suicida”.1

Suicídio, com Spinoza: invasão de forças externas que tomam o ser ao ponto de impedi-lo de identificar-se consigo mesmo. Um fim autoimposto, contudo desde fora, um sujeito que se aniquila “porque causas exteriores ocultas dispõem sua imaginação e afetam seu corpo de tal maneira que este assume uma segunda natureza, contrária à primeira, natureza cuja ideia não pode existir na mente”. Uma alteridade destrutiva engolida e vestida por dentro como a negação absoluta de si. Algo nisso remete à alienação: Marx insurge e outra vez a crítica social parece pertinente, ou imprescindível, para discutir o expansivo fenômeno de negação da própria vida.

Karl Marx, autor clássico e um dos mais contundentes teóricos e críticos do sistema capitalista, descreveu a alienação como um processo de desidentificação do humano, que se sente progressivamente desconexo do produto de seu trabalho, do sentido de seu trabalho, de seus pares e, em última instância, de si mesmo.2 Já não se vê como parte da espécie. Será preciso ainda um tiro para que seja relevante ao tema em questão? O problema já se apresenta.

Somos impelidos a viver vidas que não nos dizem respeito, infinitas vidas feitas meios para fins alheios. Cooptadas por interesses ilegítimos de terceiros. Multidões escravizadas por ideais fraudulentos, imaterializáveis, e pela materialidade impreenchível da acumulação. Individualismo e competição se apresentam como princípios vitais. Somos, sobretudo, rivais.

Personagens violentos (na economia da escassez, é preciso), obedientes (o medo garante a segurança), artificiais (produzindo avalanches de imagens para figurar-nos). Alteridades destrutivas que gradativamente nos penetram e nos incitam ao que não somos. Em nosso modo de vida atual, e segundo as bases de nossa filosofia política, somos personagens que não gostaríamos de encontrar. A alteridade nos invade – não uma alteridade cuja diferença é reflexo da nossa, mas uma alteridade exterior, que não nos pertence, cujo limite é falso. Talvez um transborde distópico da “baixa antropofagia” – o polo reativo do hibridismo identitário, atrelado ao modusvivendi capitalista, cancro de interesses egóicos –, como identificada no “Manifesto Antropófago” pelo escritor Oswald de Andrade.3 Assim é compreensível, embora aterrador, que indígenas estejam no topo do ranking de suicídios no Brasil. Soterrados por uma alteridade corrosiva. A opção da rejeição de si os acossa mesmo entre crianças e adolescentes, e o fenômeno cresce vertiginosamente.4

Esquecemos que somos terráqueos e classificamos o sofrimento como doença mental. Contudo a depressão não é nem um distúrbio casual, nem um território privado. Não é recente a percepção do vínculo entre sociedade e doença: Émile Durkheim contribuiu para a fundação da Sociologia com seu clássico estudo sobre as características sociais do suicídio5. A Antropologia, desde o culturalismo do século XX, reconhece que a produção de sujeitos desajustados é própria dos sistemas sociais, devido a sua dinâmica, e não o resultado de problemas individuais inatos e independentes do contexto. Este é um ponto enfatizado também por Michel Foucault, influente teórico do século XX, ao analisar a gênese histórica da “doença mental”.6 A doença, a loucura, a depressão não são categorias objetivas, neutras ou atemporais, mas produtos de contextos sociais, morais, políticos. A rotulação do doente mental, como utilizada atualmente pela psiquiatria, é uma forma particular, cultural e arbitrária de classificar determinado comportamento e, geralmente, é nociva e degradante ao sujeito em questão, ao mesmo tempo em que subestima a relevância das condições de seu entorno.

O argumento é reiterado e aprofundado pelo filósofo contemporâneo Byung-Chul Han, a partir da declaração de que “cada época possui suas enfermidades fundamentais”. As doenças correspondem ao contexto em que se manifestam. Segundo ele, é o modo de vida ocidental moderno que produz e sustenta subjetividades depressivas, ansiosas, transtornadas, hiperativas, hiperneuróticas. Diz: “A violência neuronal não parte mais de uma negatividade estranha ao sistema. É antes uma violência sistêmica, isto é, uma violência imanente ao sistema”.7 A difusão do suicídio pode ser vista como a culminância vulcânica das disfunções de nossa época. Aumento de 60% nos casos nos últimos cinquenta anos, segundo a Organização Mundial de Saúde.8 78% deles entre pessoas economicamente vulneráveis – delata a Agência das Nações Unidas.9 Um nódulo crítico, cujo exame não se esgota em diagnósticos individuais: mergulhando na profundidade do tema, destrincha-se densa série de condenações graves  sobre nossa forma de viver.

Estamos sucumbindo em ânsia. Cegos pelo impulso desvairado, nocivo e por todos os lados incentivado de obter mais, de possuir mais, de fagocitar gulosamente a alteridade que devasta o planeta e todas as formas de vida que o povoam, e que tensiona ao limite a desigualdade social. Tudo não será suficiente. Ao que parece, dinheiro é a maior hipnose que a humanidade já sofreu. Algo como um suicídio coletivo global. A reversão da difusão dos suicídios individuais não se dará pela oferta de ansiolíticos e antidepressivos. Distúrbios na química cerebral são metonímias: toda a vida na Terra sofre de um desequilíbrio causado pelo deliberado e sistemático extermínio por parte da sociedade humana. Nossa saúde depende das relações que estabelecemos com as fontes de energia que o universo nos dispõe (materiais, sutis, mentais, afetivas, emocionais, espirituais). É preciso reconectar-se com a vida, ou reinventar-lhe o sentido, para estancar o sofrimento que nos acossa.

Ressignificar e reorganizar nossas relações requer a experimentação de modelos econômicos e políticos distintos. Walter Mignolo, influente teórico do movimento descolonial, nota a importância de projetos que confrontem a globalização neoliberal e construam uma organização sociopolítica a partir da desfetichização do poder, de uma organização econômica voltada à vida e não à morte, e orientada pela reciprocidade e pela distribuição da riqueza, não por sua acumulação.10 Talvez possamos discutir “saúde política” – fator sistêmico de nossas condições vitais pessoais? “Saúde coletiva” como fenômeno relacional? Experimentar outras formações sociais é aventurar-se por novas subjetividades. Em trânsito a um novo período histórico, viveremos uma metamorfose de nossas enfermidades fundamentais. Quem sabe em crescente, talvez espiral, ou assintótica aproximação à cura?

A morte está à espreita. E é bem vinda, à sua maneira. Não por nossa façanha, não pelo avesso, desde um falso fora; ela vem de um fora extremo, desde um campo inacessível, habita o intangível, mora no estrangeiro. Rainha, senhora do tempo, suspira ao ser chamada antes da hora. Sua força não é essa do veneno: é a potência do vento, dos ciclos, da aurora. Nossa alma está escura, nossa carne está cravada em agruras que ameaçam ofender os elementos. Ela nos observa, constantemente, como quem vela; ela nos escolta, perdoa nossos pesadelos, roga-nos a espera e determina seu inverso. Avassaladora, ela nos consola. Em algum beco soturno, um suicídio a acende: ela ruge sobre a Terra, e chora ao levá-lo embora…


 

Noa Cykman é formada em Ciências Sociais e, atualmente, dedica-se à pesquisa sobre a utopia em seu mestrado, e atua na coordenação do Laboratório da Utopia (UFSC). É militante pela Rede de Resistências e Lutas Populares, participa do coletivo Ocupa Obarco e gosta de escolher palavras para fabricar ideias ou poemas.

 

[1] SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

[2] MARX, Karl. Manuscritos Econômico-filosóficos São Paulo: Boitempo, 2004.

[3] ANDRADE, Oswald de. Manifesto antropófago. In: ______. A utopia antropofágica. São Paulo: Globo, 1995. 

[4] Mapa da Violência. Disponível on-line em: <http://www.mapadaviolencia.org.br/>.

[5] DURKHEIM, Émile. Suicídio: estudo de sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

[6] FOUCAULT, Michel. A constituição histórica da doença mental. In: ______. Doença mental e psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.

[7] HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

[8] Organização Mundial de Saúde. Prevenção do suicídio: um recurso para conselheiros. Disponível on-line em: <http://www.who.int/mental_health/media/counsellors_portuguese.pdf>.

[9] Organização das Nações Unidas. Campanha da ONU busca conscientizar população sobre prevenção ao suicídio. Disponível on-line em: <https://nacoesunidas.org/campanha-da-onu-busca-conscientizar-populacao-sobre-prevencao-ao-suicidio/>.

[10] MIGNOLO, Walter. Desobediência Epistêmica: a opção descolonial e o significado da identidade em política. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura, língua e identidade, Niterói, n.34, p. 287-324, 2008.