Florianópolis, 12 de dezembro de 2017
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Após repressão da GMF, batalhas de rap procuram regulamentar situação em Florianópolis

Reportagem:
Por Rafael Moreira
 
Na semana após a intervenção da Guarda Municipal de Florianópolis na batalha de rap da Alfândega da última quinta-feira (31/8), organizadores da Batalha da Alfândega e da Batalha das Mina foram atrás das documentações exigidas pela prefeitura para a regularização dos eventos. Nesta segunda-feira (4/9), pessoas da organização da Batalha da Alfândega foram ao Pró Cidadão pedir autorizações para uso do espaço público e utilização de fonte sonora em área pública — o sistema necessário para os pedidos estava fora do ar. Em paralelo, nesta quarta-feira (6/9) aconteceu uma reunião entre a organização da Batalha das Minas, a assessoria do gabinete do deputado Cesar Valduga (PC do B), uma representante da União de Negros pela Igualdade (Unegro) e João da Luz, superintendente de serviços públicos da Prefeitura Municipal de Florianópolis (PMF).
 
Batalha da Alfândega (31/8)
Fotos: Hortência Vieira
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Despreparo 

 
Apesar de aberta ao diálogo, a representação da PMF  se mostrou totalmente despreparada sobre o assunto.

 

— O que são essas batalhas? É uma briga é o que? — perguntou João da Luz ao iniciar a reunião.

 
Em seguida, João perguntou o que seria uma rima. O tema central da conversa, entretanto, deveria ser a regulamentação das batalhas. O processo para que isso aconteça é o mesmo para qualquer outro evento musical na rua: autorização de uso do espaço público, no Pró-Cidadão; uso de fonte sonora, na Floram; e encaminhamento do processo à secretaria de jogos e diversões públicas da Polícia Civil.
 
Ao ser perguntado pelo MARUIM se a prefeitura possui alguma política direcionada aos movimentos culturais que utilizam a rua para se manifestar, João da Luz respondeu que desconhece, mas concorda que eles deveriam ser tratados de forma específica.
 

Organizadores da batalha dizem que o uso do espaço público é direito de qualquer cidadão e garantem: com ou sem autorização, a batalha da Alfândega precisa continuar.

 
Um dos organizadores da Batalha da Alfândega, MC Jota, diz que o pedido de autorização não é necessariamente uma coisa ruim. “Querendo ou não, se quisermos nos profissionalizar e aumentar nossa estrutura geral, teremos que uma hora ou outra tirar as documentações necessárias. Então não vejo como ruim esse fator. Estamos apenas começando a nos profissionalizar, mas sem perder a essência do movimento”, explicou o rapper.
 
Como se organizam as batalhas de rap?
 

Pelo menos oito batalhas de rap acontecem nas ruas da região metropolitana de Florianópolis

 
A batalha Central (terças-feiras), da Costeira (quartas-feiras), da Palhoça (quartas-feiras), da Alfândega (quintas-feiras), da Armação (sextas-feiras); a batalha das Mina (sábados), a batalha do Norte (domingos) e a batalha da 196 / Biguaçu (domingos).
 
O início de todas essas batalhas aconteceu de forma muito parecida. Um pequeno grupo de conhecidos que se reúne para fazer música. Após um longo período de tempo mais “minas e manos” começam a participar. Em entrevista ao Maruim em 2015 o MC, e também figura marcante na organização das batalhas em Florianópolis, Cubano diz que no início se reuniam menos de cinco pessoas, mas com o crescimento chegou a ter eventos com mais de duzentos participantes. Sobre o tema, MC Jota, um dos atuais organizadores da batalha da Alfândega, relata o que acredita ser preciso para o crescimento de uma batalha: “Para a evolução não tem mistério, é trabalho, levo como profissão a organização das batalhas de rima. Tem que ter seriedade e investimento de tempo, às vezes também dinheiro pra fazer a parada vingar”.
 

Assista: MCS EXPULSOS DA ALFÂNDEGA PELA PM SE ORGANIZAM PARA VOLTAR AO LOCAL DE ORIGEM

 

Os conflitos recentes

Geral – Historicamente as ações ostensivas contra as batalhas na ilha partiam da Polícia Militar (PM). As ações eram semelhantes à que aconteceu na noite de quinta (31/8). Os oficiais pediram autorizações e alvarás para a ocupação dos espaços públicos pelos MCs.  Através de reuniões entre a advogada Lorena Duarte, vereador Lino Peres e o comando da Polícia Militar, as abordagens cessaram. 
 
Batalha da Central – Em junho deste ano ocorreu um atrito com um morador da vizinhança. Este morador, acompanhado de amigos, teria chegado à batalha portando uma arma de fogo e spray de pimenta e ameaçado os participantes tentado encerrar o evento daquela noite. A Polícia Militar foi chamada, houve a mediação, e o sujeito voltou com sua arma de fogo para casa.
 
Batalha das Mina – O episódio mais recente de repressão aconteceu no sábado (26/8), quando uma viatura da Polícia Militar mandou desligar a caixa de som e pediu a autorização de uso do espaço público. A batalha desligou o som e continuou até as 22h sem o uso dos alto falantes.
 
Batalha da Alfândega – Na quinta-feira(31) a batalha de rap da Alfândega foi interrompida pela ação da GM (Guarda Municipal), que forçou os aproximadamente 300 integrantes a deixarem o local. O evento era a etapa final da seleção classificatória para o duelo nacional de Mc’s de 2017. A atual comandante da Guarda Municipal, Maryanne Mattos, alega em entrevista ao jornal Hora de Santa Catarina, que “Por uma questão de segurança, qualquer evento precisa de autorização”. Do outro lado, a advogada e assessora do vereador Marquito, Lorena Duarte, diz que a ação é inconstitucional ferindo o direito de uso do espaço público.