Florianópolis, 12 de dezembro de 2017
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Cantinho dos Idosos: conquistas e dificuldades de uma das Instituições de Longa Permanência em Florianópolis

Reportagem:

Por Carol Gómez e Monique Souza

Existem cerca de 27 de Instituições de Longa Permanência (ILPIs) em Florianópolis e cada uma é fundamental para o cuidado e assistência básicos aos idosos, principalmente aqueles em situação de abandono. Mas uma série de coisas torna o Cantinho dos Idosos, em Ratones, um lugar singular – desde a abnegação e dedicação de Dona Marina, que largou tudo o que conhecia e tinha vivido para criar a casa, até a maneira como ela supera as dificuldades para mantê-la funcionando. É um espaço permeado de amor, de paz e de tristeza – sentimentos que nem sempre combinam, mas que ali aprenderam a coexistir.

É em uma casa branca de janelas azuis, rodeada por pés de mirra, orquídeas, rosas, bananeiras e tantas outras plantas, que funciona o Cantinho dos Idosos. Foi criado em agosto de 2006 e hoje abriga 60 idosas/os, tanto pessoas que estão ativas e lúcidas, quanto os acamadas, que precisam de atenção e tratamento especiais.

O jardim é bem cuidado, e quem caminha por ele encontra plaquinhas de madeira que simbolizando um pouco do que o Cantinho representa para muitos: paz, amor, silêncio…

O jardim é bem cuidado, e quem caminha por ele encontra plaquinhas de madeira que simbolizando um pouco do que o Cantinho representa para muitos: paz, amor, silêncio… Foto: Carol Gómez/MARUIM


Um lago com patos, gansos e peixes traz ainda mais vida ao local. “Instituição de Caridade e Apoio ao Desamparado”, exibe a fachada, mas quem convive com os idosos e com os funcionários sabe que o lugar é muito mais que isso, é o lar da simpatia e da solidariedade. Foto: Carol Gómez/MARUIM

Um lago com patos, gansos e peixes traz ainda mais vida ao local. “Instituição de Caridade e Apoio ao Desamparado”, exibe a fachada, mas quem convive com os idosos e com os funcionários sabe que o lugar é muito mais que isso, é o lar da simpatia e da solidariedade. Foto: Carol Gómez/MARUIM

Quem nos recepcionou foi Dona Fátima, uma das moradoras, que antes das 9h da manhã estava na entrada, esperando pelo momento de leitura. “Pode sentar, fica à vontade. Acho que daqui a pouco Dona Marina vem”, convidou. E conversa não faltou. Falou com carinho de Dona Marina e dos voluntários que visitam o local, comentou sobre os animais que vivem no Cantinho e até dos invernos frios que passou em Florianópolis desde que se mudou para a cidade, há cerca 20 anos.

Pelas explicações prévias de Dona Fátima e depois de apresentadas ao local por Dona Marina, descobrimos um pouco mais sobre a divisão do espaço. Na ala 1, funcionam refeitório, cozinha, salas administrativas e sete quartos que têm nomes de pássaros, formando uma bonita harmonia. João-de-Barro, Curruíra, Tucano, Bem-Te-Vi, Sabiá.

Na ala 2, os cinco quartos levam nomes de santos. Quando questionada sobre a razão dos nomes, Dona Marina responde quase distraidamente: “Não sei por que razão, mas com certeza Jesus sabe”. Ainda assim, mesmo quem não entende de santo consegue perceber: São Francisco, São Gabriel, São Rafael, São Domingos e São Miguel estão ali pra acolher quem precisa. Foto: Carol Gómez/MARUIM

Na ala 2, os cinco quartos levam nomes de santos. Quando questionada sobre a razão dos nomes, Dona Marina responde quase distraidamente: “Não sei por que razão, mas com certeza Jesus sabe”. Ainda assim, mesmo quem não entende de santo consegue perceber: São Francisco, São Gabriel, São Rafael, São Domingos e São Miguel estão ali pra acolher quem precisa. Foto: Carol Gómez/MARUIM

Estrutura e sobrevivência

 

“Vocês vão fazer isso com os idosos, deixá-los sem luz?”

Foi assim que Dona Marina desafiou os funcionários da CELESC que apareceram para cortar a energia elétrica do Cantinho por falta de pagamento. Argumentou que sempre estava tudo em dia e que não era justo eles deixarem a instituição no escuro logo no primeiro atraso. Com coragem e determinação, conseguiu convencê-los até que uma conhecida, dona da padaria que doa pães para os idosos, arcou com a dívida de R$ 5 mil.

Apesar do esforço de Dona Marina e dos voluntários, às vezes o incêndio fica grande demais e parece que não vai dar para apagar. O espaço sobrevive com as doações – comidas, remédios, produtos de higiene – que recebe, não tendo outra renda fixa além dos 70% dos benefícios dos idosos moradores (que cobrem apenas as despesas com funcionários, cerca de R$ 80 mil por mês). Desde o início, as doações foram fundamentais para a existência do local. Os bancos da praça interna, os materiais de construção da casa e todo o resto da estrutura física do Cantinho também fazem parte dessas contribuições.

O Cantinho é registrado como uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), que tem o objetivo de possibilitar moradia coletiva a pessoas de idade igual ou superior a 60 anos, com ou sem suporte familiar e diversos graus de dependência e complexidade.

Os idosos chegam lá por diversos meios: além do trabalho de rua, que Dona Marina fez por muitos anos para dar comida e encontrar pessoas que precisassem de abrigo, também são encaminhados pelo Ministério Público, pela Secretaria Municipal de Assistência Social de Florianópolis e pelo Centro POP.

O Promotor de Justiça do Ministério Público de Santa Catarina Daniel Paladino aponta que as principais dificuldades que essas instituições enfrentam para continuar em funcionamento são as de ordem financeira e estrutural. Outro problema frequente é a renovação de alvarás, tanto do Corpo de Bombeiros quanto da Vigilância Sanitária. “Temos, além do Estatuto do Idoso, leis específicas que tratam dos requisitos para a criação e manutenção dessas instituições – leis que muitas vezes não são observadas. Muitas vezes, as pessoas abrem a instituição e só depois vão atrás dos documentos, dos alvarás.”

Paladino explica ainda os principais requisitos estabelecidos por essas leis: “O primeiro é o atestado de funcionamento por parte do município, atestado de habilidade. Esse tipo de instituição tem que estar dentro de uma área permitida pelo zoneamento local. Depois o habite-se do Corpo de Bombeiros, da Vigilância Sanitária e a inscrição no Conselho Municipal do Idoso.”

Apesar das adversidades, ILPIs são de extrema importância para o acolhimento de idosos, principalmente aqueles com vínculos familiares fragilizados ou em situação de vulnerabilidade. Os setores municipais responsáveis por essas instituições são, segundo o Promotor de Justiça, o Conselho Municipal do Idoso e a Secretaria de Assistência Social de Florianópolis.

Para averiguar de que forma trabalham para garantir assistência às ILPIs, entramos em contato tanto com o Conselho Municipal do Idoso quanto com 12 setores da Secretaria de Assistência Social do município. Até o momento da publicação desta reportagem, nenhum deles havia se manifestado.

Quanto ao Cantinho dos Idosos, Paladino afirma que, apesar de no passado ter apresentado uma série de irregularidades, hoje é uma instituição que funciona de acordo com todas as normas exigidas. Mas a situação financeira, embora não seja um problema exclusivo do Cantinho, preocupa. “É uma das poucas instituições conveniadas com o município, então eles recebem repasses, mas nem sempre esses repasses são suficientes para cobrir todas as dívidas”, explicou.

Hoje, o Cantinho conta com auxílio de uma fonoaudióloga, uma fisioterapeuta três vezes na semana, massagista, médico voluntário, psicólogos, voluntários que fazem apresentações aos moradores, um grupo de leitura e outro de educação física, que é encaminhado através da Prefeitura municipal.

Além dos profissionais da saúde, os funcionários que cuidam da cozinha e da limpeza são essenciais para manter o Cantinho funcionando. Maria das Neves, responsável pela lavanderia, conheceu o espaço por meio da irmã. Trabalhou por um tempo, mas teve que ir embora. Ficou três meses fora e conseguiu voltar, trazendo também o marido. De Dona Marina e do local de trabalho, ela fala com muita alegria. “Gosto de tudo aqui. Me sinto bem, me encontrei”. Foto: Carol Gómez/MARUIM

Além dos profissionais da saúde, os funcionários que cuidam da cozinha e da limpeza são essenciais para manter o Cantinho funcionando. Maria das Neves, responsável pela lavanderia, conheceu o espaço por meio da irmã. Trabalhou por um tempo, mas teve que ir embora. Ficou três meses fora e conseguiu voltar, trazendo também o marido. De Dona Marina e do local de trabalho, ela fala com muita alegria. “Gosto de tudo aqui. Me sinto bem, me encontrei”. Foto: Carol Gómez/MARUIM

A enfermeira Cynthia Helena Ferreira Machado trabalha no Cantinho há um ano. Conta que chegou na Instituição “de paraquedas” e que se apaixonou pelo lugar. “O trabalho é árduo, mas o carinho une”, explicou. Acostumada com o trabalho em clínicas e hospitais particulares, ela fala que o trabalho no Cantinho é muito mais limitado por causa das condições estruturais. “Aqui nós dependemos inteiramente do SUS. Teve até um episódio em que alguns exames foram bloqueados, em outro faltou paracetamol e tivemos que ir procurando de posto em posto”.

A rotina no Cantinho

 

Caminhando pelo Cantinho, é possível encontrar os moradores realizando todo tipo de atividade: leitura, organização de roupas, confecção de tapetes, banho de sol, exercícios na academia ao ar livre.

Um dos momentos mais especiais da semana é a leitura em grupo, que acontece todas às terças-feiras. Os idosos se reúnem na entrada do Cantinho enquanto uma pessoa voluntária lê trechos de um livro, sempre algo que traga uma mensagem especial.

Alguns olhos e ouvidos estão atentos às palavras; outros se perdem na paisagem verde e pacífica do lado de fora. Enquanto caminhamos ao redor do grupo com as câmeras fotográficas, Dona Fátima procura o batom em sua bolsinha e Dona Sandra penteia o cabelo. Mas as voluntárias não levam a desatenção a mal: o importante é a presença. Foto: Carol Gómez/MARUIM

Alguns olhos e ouvidos estão atentos às palavras; outros se perdem na paisagem verde e pacífica do lado de fora. Enquanto caminhamos ao redor do grupo com as câmeras fotográficas, Dona Fátima procura o batom em sua bolsinha e Dona Sandra penteia o cabelo. Mas as voluntárias não levam a desatenção a mal: o importante é a presença. Foto: Carol Gómez/MARUIM

Enquanto a voz tranquila da mulher passeia pelas palavras do livro, um coro se junta a ela, quase como se quisesse participar: são os cães, gansos e pássaros da casa – sons tão rotineiros que parecem música de fundo.

Também durante a leitura, uma enfermeira serve copos coloridos com gelatina, a segunda refeição das seis que os moradores do Cantinho fazem diariamente. A dieta é regulada e equilibrada pelas indicações de uma nutricionista, e Dona Marina, a responsável pelo funcionamento do espaço, tem orgulho de explicar detalhadamente como os mantém sempre bem alimentados: café da manhã, lanche das 10h, almoço, lanche das 15h, jantar e lanche das 20h.

“Margarina está em falta” comenta uma senhora à voluntária que lê a passagem daquela terça. “Então temos que trazer margarina”, responde a outra. Afinal, o momento de leitura também serve para conversar sobre o cotidiano dos idosos, que contam como estão as coisas no Cantinho, como se sentem e quais atividades realizam.

Faces e histórias do Cantinho

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Dona Nair, de 79 anos, cuidadosamente monta um tapete de retalhos para a amiga, Dona Erna, que não pode fazê-lo tão bem por causa de problemas na mão. Explica que as unhas antes estavam vermelhas, mas agora estão – cuidadosamente – pintadas de roxo. Foto: Carol Gómez/MARUIM

De nó em nó ela vai formando o tapete e narrando sua história. Mora no cantinho há 6 anos, e antes disso vivia com o filho e sua esposa, ajudando nas tarefas domésticas e no que mais fosse necessário. “Fui ficando cansada, me colocaram para ficar sentada em uma cadeira enquanto eles trabalhavam”, explicou. E depois comentou que logo após esse episódio foi morar na Instituição, onde teria amparo e cuidados necessários. Foto: Carol Gómez/MARUIM

De nó em nó ela vai formando o tapete e narrando sua história. Mora no cantinho há 6 anos, e antes disso vivia com o filho e sua esposa, ajudando nas tarefas domésticas e no que mais fosse necessário. “Fui ficando cansada, me colocaram para ficar sentada em uma cadeira enquanto eles trabalhavam”, explicou. E depois comentou que logo após esse episódio foi morar na Instituição, onde teria amparo e cuidados necessários. Foto: Carol Gómez/MARUIM

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Dona Sandra, 68 anos, é vaidosa e gosta de pentear o cabelo. Ela explica que, quando seco, o corte chanel fica bonito. Conta que estava a passeio em Florianópolis e visitava a Lagoa do Peri quando tropeçou e fraturou o fêmur. Foi levada ao Hospital Governador Celso Ramos, no Centro, onde ficou por três meses. Após sua recuperação, há mais ou menos um ano e meio, foi viver no Cantinho. A família segue em São Paulo, de onde dona Sandra veio. O acidente debilitou a saúde e a mobilidade de Dona Sandra, mas não sua curiosidade. “Agora quem vai entrevistar você sou eu. Desde quando você não corta esse cabelo bonito, menina?”, perguntou a uma das repórteres, e foi o suficiente para incluir grande parte da roda na conversa. Foto: Carol Gómez/MARUIM


Dona Cecília tem a fala direta e sincera. “A senhora gostaria de conversar conosco?”, perguntamos. “Não, acho que não”, mas logo emendou que sua história é muito parecida com a de outros e que não quer continuar morando lá. “É bom morar aqui, sou bem tratada, mas tenho saudades. Nada como o cantinho da gente”. Dos 73 anos, os dois últimos viveu na Instituição porque não tinha quem cuidasse dela em casa. Foto: Carol Gómez/MARUIM

Dona Cecília tem a fala direta e sincera. “A senhora gostaria de conversar conosco?”, perguntamos. “Não, acho que não”, mas logo emendou que sua história é muito parecida com a de outros e que não quer continuar morando lá. “É bom morar aqui, sou bem tratada, mas tenho saudades. Nada como o cantinho da gente”. Dos 73 anos, os dois últimos viveu na Instituição porque não tinha quem cuidasse dela em casa. Foto: Carol Gómez/MARUIM


Seu Ailton, 64 anos, vive há três no Cantinho. Como parte de sua rotina, ele ajuda a levar o café para os outros moradores e arruma a mesa. Com um sorriso sincero, conta que morava com a irmã, mas ficou doente. “Trabalhava com pintura e fui para o hospital. Tinha uma úlcera”, explicou. Ao sair do hospital, foi morar no Cantinho, onde sempre acompanha sua saúde. Foto: Carol Gómez/MARUIM

Seu Ailton, 64 anos, vive há três no Cantinho. Como parte de sua rotina, ele ajuda a levar o café para os outros moradores e arruma a mesa. Com um sorriso sincero, conta que morava com a irmã, mas ficou doente. “Trabalhava com pintura e fui para o hospital. Tinha uma úlcera”, explicou. Ao sair do hospital, foi morar no Cantinho, onde sempre acompanha sua saúde. Foto: Carol Gómez/MARUIM


Nos pés, sandálias; na cabeça, um chapéu elegante; e nas mãos, o verso: olha o Sol, a Lua e as estrelas estão brilhando porque você existe. Seu Ênio está sentado na praça interna do Cantinho: a São Francisco de Assis. Sentado à sombra das árvores, ele transcreve trechos de livros que leu. “Anoto as frases bonitas e dou de presente para as enfermeiras principalmente quando elas estão tristes”, explica. Quando fala de seu passado, recorda apenas os anos de trabalho, as oportunidades que teve na vida e os chefes injustos que desafiou. Diz pouco sobre a família e menos ainda sobre o período inicial de adaptação no Cantinho. Só o que admite é ter ganhado gosto pela leitura depois de um horas improdutivas assistindo à televisão, amargando o sentimento de estar desperdiçando o próprio tempo. Além de alegrar os dias das enfermeiras, Seu Ênio tem outra função no Cantinho, muito mais importante do que qualquer outra que teve na vida: acalmar os espíritos revoltados que por lá circulam, para que seus companheiros de casa tenham uma vida mais sossegada. Foto: Carol Gómez/MARUIM

Nos pés, sandálias; na cabeça, um chapéu elegante; e nas mãos, o verso: olha o Sol, a Lua e as estrelas estão brilhando porque você existe. Seu Ênio está sentado na praça interna do Cantinho: a São Francisco de Assis. Sentado à sombra das árvores, ele transcreve trechos de livros que leu. “Anoto as frases bonitas e dou de presente para as enfermeiras principalmente quando elas estão tristes”, explica. Quando fala de seu passado, recorda apenas os anos de trabalho, as oportunidades que teve na vida e os chefes injustos que desafiou. Diz pouco sobre a família e menos ainda sobre o período inicial de adaptação no Cantinho. Só o que admite é ter ganhado gosto pela leitura depois de um horas improdutivas assistindo à televisão, amargando o sentimento de estar desperdiçando o próprio tempo. Além de alegrar os dias das enfermeiras, Seu Ênio tem outra função no Cantinho, muito mais importante do que qualquer outra que teve na vida: acalmar os espíritos revoltados que por lá circulam, para que seus companheiros de casa tenham uma vida mais sossegada. Foto: Carol Gómez/MARUIM

Dona (Os)Marina

 

Osmarina Maria da Silva, que gosta de ser chamada de Marina, tem 62 anos e foi quem criou o Cantinho. Morou quase toda a vida no bairro João Paulo, também em Florianópolis. Antiga dona de quatro salões de beleza, diz que ganhou muito dinheiro antes do trabalho voluntário com os idosos, mas que nunca foi feliz.

Aos 51 anos, deixou a família para seguir um sonho que teve: Irmã Dulce e Irmã Tereza, duas freiras brasileiras que dedicaram suas vidas a ajudar os pobres e desamparados, apareciam e lhe pediam para dar continuidade a esse trabalho. Dona Marina foi exigente e pediu provas de que o pedido era verdade, e não apenas um sonho qualquer. Alguns meses depois, recebeu em casa, sem solicitar, uma revista que explicava todo o projeto dessas duas mulheres.

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“Tu deixas a família, tu deixas todo o conforto, e vai dormir no chão. Com morcego, com barata, com rato. Isso tudo tinha aqui. E eu transformei isso tudo em um jardim. Isso aqui era muito sujo, filha. Era pântano.” Uma mistura de lembranças sofridas e orgulho tingem a voz da senhora. Foto: Carol Gómez/MARUIM

No início, não foi fácil. Saiu de casa, deixou marido e filhos para começar o Cantinho, foi julgada e questionada por todos que amava. Mas não se arrepende em nenhum momento. “Meu mundo é esse aqui. Sou feliz assim e não estou aqui para ganhar dinheiro”.

Ela conta que iniciou seu trabalho acolhendo seis idosas, clientes suas dos salões, embora tivesse poucas condições financeiras para manter o espaço e contasse com o auxílio de uma enfermeira durante o dia e de um técnico em enfermagem à noite. “Comia só verde” para poder dar comida a quem protegia, o que fez com que passasse dos 64 aos 48 kg em poucos meses.

O terreno onde funciona o local ainda é alugado. Mas onde há 11 anos havia apenas uma casinha de madeira e seis idosas, hoje existe, além de um espaço de amparo, um tesouro de histórias e experiências. “Tinha que ser aqui. Eu tinha no meu coração e na minha mente que tinha que ser no Ratones. Era uma casa velha, toda feia, e hoje está essa coisa linda, maravilhosa”.

Durante as horas que passamos visitando o Cantinho, não foram muitos os momentos em que pudemos dizer que a atenção dela foi exclusivamente nossa. Uma idosa precisava que ela descesse um pouco a cama motorizada. A cozinheira a procurava para saber do macarrão. Uma voluntária queria saber onde colocar as fraldas geriátricas. Um visitante parava para conversar. Todo mundo queria um pouquinho dela, todo mundo queria absorver um pouco da luz que ela, espírita de corpo e alma, dizia irradiar e receber.

Dona Marina acolhe a todos, até os animais aventureiros ou os abandonados, que fazem do Cantinho seu lar e dos idosos seus companheiros de morada. Aos oito anos de idade, já era vista como símbolo de cuidado. Os velhinhos lhe chamavam quando tinham bicho-de-pé e feridas – mesmo sabendo que ela, em sua inocência de criança, usava métodos pouco ortodoxos, mas que considerava serem os mais eficientes: muitas tiras de pano, Merthiolate ardido nos machucados e querosene nos bichinhos indesejados.

Tímida, ela não quer aparecer nas fotos. Anda sempre com florzinhas minúsculas no cabelo, que caem das árvores que ela mesma plantou, roupas brancas e às vezes rasgadas – não por desleixo, e sim por falta de vaidade. Mas mostra orgulhosa a casinha que construiu para estar sempre perto dos idosos. “Eu troquei tudo pela paz. Deixei todo o meu patrimônio pra morar nesse ranchinho.”

Explica que os idosos não gostam que saia do Cantinho, mas que ela mesma não se sente bem fora, nem nos aniversários dos netos. “Já vivi em sociedade, não era o que eu queria. Entre a vida material e espiritual, eu preferi a espiritual. É uma coisa que me dá satisfação, alegria, prazer. Eu vim ser feliz aqui.” Foto: Carol Gómez/MARUIM

Explica que os idosos não gostam que saia do Cantinho, mas que ela mesma não se sente bem fora, nem nos aniversários dos netos. “Já vivi em sociedade, não era o que eu queria. Entre a vida material e espiritual, eu preferi a espiritual. É uma coisa que me dá satisfação, alegria, prazer. Eu vim ser feliz aqui.” Foto: Carol Gómez/MARUIM

Ao falar do que está por vir é que Dona Marina se emociona. Explica que pensa todos os dias no futuro do lugar. Sua preocupação é pensar em quem vai tomar seu lugar quando não tiver mais condições físicas de ajudar os idosos ou então quando se for. Apesar de não terem aceitado a decisão da mãe no início, os filhos de Dona Marina hoje participam da vida e do cuidado dos idosos com amor e dedicação, e ela acredita que um deles será o escolhido para dar continuidade ao seu trabalho.

E falando sobre o mundo e sobre todos os desafios pelos quais passou, Dona Marina explica a razão de tudo dar certo no final: “É no bem que a gente vence as nossas batalhas.”