Florianópolis, 12 de dezembro de 2017
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Parte 4: Quando o morro desceu e não era carnaval

Reportagem:

Por Talita Burbulhan

Aos 85 anos, seu Tito não quer mais saber de carnaval, mas houve um tempo em que foi voluntário na construção de carros alegóricos. Madeira, um chassi e muito papel era o que estava por trás dos prêmios recebidos pela Sociedade Cultural Carnavalesca Granadeiros da Ilha. A receita da cola utilizada para encapar a estrutura das alegorias é a mesma para colar cartazes lambe-lambe: “Polvilho azedo com água fervente para fazer o grude”, revela, encostado no portão de sua casa, na rua Cid Gonzaga, uma das poucas vias por onde passam carros na comunidade. Morar próximo ao barracão aliviava os quatro meses de trabalho contínuo e isolado da curiosidade alheia, em que ele e outros ficavam enfurnados para dar conta do prazo. Quando, em 1993, as atividades foram paralisadas, o local, na Rua Waldomiro Monguilhot, ficou abandonado e passou por um gradativo processo de precarização, até se tornar, nos anos 2000, um lixão e ponto de consumo de drogas, ao pé do morro.

Leia também as partes anteriores do especial A cidade aos nossos pés

Mesmo sabendo que o retorno do investimento seria a longo prazo, Marcelo Ferreira alugou o terreno abandonado do Granadeiros e o lote ao lado para fazer um lava a jato. “Tinha muita coisa espalhada, morria de medo quando achava uma seringa”, conta, ao relembrar o processo de transformação do local abandonado numa área comercial. “Eu derrubei tudo e tirei 12 caçambas de lixo”. À medida que os negócios prosperavam no pé do morro, a encosta emitia sinais de alerta: quando chovia, o lixo dos moradores descia até o escritório e, nas precipitações mais fortes, o calçamento da rua Valdomiro Monguilhot despencava, trancando a entrada do lugar. Marcelo percebeu que tudo o que acontecia lá em cima prejudicava o negócio ali embaixo e despertou para a necessidade de engajamento com o entorno. Ele, que nunca antes tinha se envolvido com a associação de moradores, nem com os mutirões na comunidade, passou a desenvolver trabalhos voluntários de limpeza e melhorias na rua. Depois de 16 anos como locatário, consolidado como empresário e com a estabilidade financeira garantida por três empresas, Marcelo aceitou o convite de concorrer às eleições do Centro Comunitário Cristo Redentor. Em novembro de 2011 teve início a sua gestão como representante dos moradores da Mariquinha.

Enquanto Marcelo comemorava a vitória, o final daquele ano trazia preocupações para a moradora Vera Lúcia Cardoso. Em um intervalo de poucos dias, dois dos três locatários debandaram. “Pô Deus, o que é que está acontecendo?”, quis entender Vera quando a segunda inquilina avisou que iria se mudar. Desde a morte do marido, ela complementava a renda de funcionária da Assembleia Legislativa com o aluguel das casas que ficavam nos fundos do seu terreno, na servidão Formiga. Apesar da comodidade em morar a 750 metros do trabalho, os colegas tinham suas dúvidas se ela vivia segura no Morro da Mariquinha — uma das comunidades de atuação do tráfico de drogas, cenário de duas chacinas e que em 2016 gerou notícias com o assassinato de um estudante de Direito durante uma briga entre vizinhos.

“Aqui os traficantes são pessoas comuns”, garante Vera, “não ficam exibindo arma, são sociáveis à comunidade”, avalia a mulher de 54 anos, nascida e criada nas ladeiras da Mariquinha. “Lugar perigoso é o meio da cidade, onde tem muito assalto. Se existe ladrão no morro, ele não vai agir dentro da comunidade, porque aqui é proibido”. 

Quando os negócios davam indícios de que não terminariam bem em 2011, duas pessoas apareceram, na manhã do dia 13 de dezembro, interessadas nas vagas desocupadas nos imóveis de Vera. A data, que marcava o aniversário de três anos de falecimento do marido parecia vir, dessa vez, trazendo bom presságio. Vera foi até o janelão da última casa, construída na beira do talude, onde a vista alcançava o Instituto Estadual de Educação, as pontes e a Florianópolis continental, e garantiu: “Aqui é seguro, não tem barulho da rua, nem bagunça da madrugada”. Convencidos, os dois decidiram ficar, um com a casa do meio e outro com a dos fundos. No entanto, a mudança marcada para o período da tarde nunca aconteceu. Horas depois, o lugar mais sossegado na opinião de Vera deslizava encosta abaixo, num evento até então sem precedentes na capital: em meio ao forte temporal, uma rocha de 200 toneladas desceu o morro levando lama, lixo e desgraça ao centro da cidade.

A casa da ponta deslizou pela encosta e a do meio ficou pendurada, sendo dias depois demolida pela Defesa Civil junto com outras quatro. Até hoje, os donos aguardam por uma indenização que nunca chegou.

“Para mim, foi só prejuízo, nem o benefício social eu recebi porque o meu salário era maior que o dos outros”, lamenta Vera que ainda por cima ficou cheia de dívidas, pois usava o dinheiro dos aluguéis para pagar empréstimos que contraía. Apesar da proximidade com a crista de rompimento, a casa dela não sofreu danos, mas foi interditada pela Defesa Civil por estar suscetível às instabilidades da encosta fragilizada. Dois dias depois, Vera alugou um imóvel no centro, reconhecendo para si, que apesar das perdas materiais e dos transtornos da mudança inesperada, eram seus vizinhos que penavam. “Eles, além de não terem para onde ir, não tinham dinheiro para alugar um lugar para viver”.

Na ocasião, mais de 100 profissionais foram acionados, entre bombeiros, guardas municipais, agentes da defesa civil e policiais militares. No dia 16 de dezembro de 2011, o prefeito Dário Berger decretou situação de emergência na comunidade da Mariquinha. Foi a última vez que isso aconteceu no município. Quando o bloco rochoso escorregou, arrasou tudo que estava abaixo. Ao todo três casas ruíram, um lava a jato, cinco carros e uma moto foram destruídos e uma pessoa morreu.

Na ocasião, mais de 100 profissionais foram acionados, entre bombeiros, guardas municipais, agentes da defesa civil e policiais militares. No dia 16 de dezembro de 2011, o prefeito Dário Berger decretou situação de emergência na comunidade da Mariquinha. Foi a última vez que isso aconteceu no município. Quando o bloco rochoso escorregou, arrasou tudo que estava abaixo. Ao todo três casas ruíram, um lava a jato, cinco carros e uma moto foram destruídos e uma pessoa morreu.

Um dia algo iria cair. Marcelo, o dono do lava a jato, previa isso quando se instalou no pé do morro. Próximo ao terreno havia uma área com histórico de instabilidade. Ele limpou o local, onde imaginava que a prefeitura poderia construir um muro de contenção e esperou vir abaixo. Mas se surpreendeu. A parte que cedeu foi outra e, em questão de segundos, acabou com os seus empreendimentos e o colocou num luto prematuro. “Eu perdi tudo do dia pra noite, fiquei sem meu emprego e sem minha mãe”, relembra Marcelo. Ele tinha experimentado o potencial destrutivo da encosta anos antes, quando, em 2008, as chuvas ruíram seu escritório duas vezes, mas nada tão grave como em 2011. Naquele ano, o imóvel havia se transformado na casa da mãe, Claudete Andrade Ferreira, quando o filho sugeriu que ela ficasse um tempo ali para fugir do aluguel. Na hora do temporal, ela estava no celular com a filha. Instantes depois, a ligação ficou muda.

De acordo com os critérios do Sistema Nacional da Defesa Civil, o acontecimento de 2011 na comunidade não foi considerado como desastre, porque os danos materiais e ambientais não foram suficientes e nem expressivo o número de mortos, feridos e edificações danificadas.

A definição técnica para evento seria “acontecimento de grande vulto”. Até então, Santa Catarina contava com 24 registros oficiais de casos semelhantes ao da Mariquinha, denominados de movimentação de massa, somando, de 1991 a 2010, 113.697 pessoas afetadas.

“Um paralelepípedo escora o caminhão parado em uma ladeira, se alguém der um chute no calço, dá para imaginar o que vai acontecer”, exemplifica Rodrigo Sato sobre o acidente na Mariquinha. Na analogia do geólogo, responsável pelo Laudo Técnico de Urgência do evento, o caminhão era a rocha, a pessoa, a chuva, e a situação de fragilidade pela infiltração de água nas entranhas do morro. A rocha da encosta é o Granito Ilha, que por sua composição é propício às instabilidades, pois se caracteriza pela presença de falhas e de material propenso a movimentações. O estudo geológico, contratado pela prefeitura após o deslizamento, comprovou a existência de outras fraturas na região, como a que se rompeu no dia do acidente, por onde a água subterrânea continua se infiltrando até hoje.

Alguns moradores lembram da fenda que existia no local antes do acidente, que, com o passar dos anos, foi acumulando lixo e água descartada pela pia e privada das casas do entorno. Outros não se esquecem das detonações a 80 metros de distância do local do acidente, no ano anterior. “Do ponto de vista geológico, existem 90% de chances de o deslizamento ter sido por causa da água”, avalia Rodrigo Sato, e conclui: “Os 10% restantes são para outros fatores, como a trepidação dos carros e caminhões que passam pela Rua Waldomiro Monguilhot e a vibração dos estrondos”. Ele ainda alega ser impossível comprovar que as dinamites tenham causado o acidente, porque não houve monitoramento prévio das explosões. O líder comunitário na época, Marcelo Ferreira, resolveu não insistir mais no assunto. As denúncias que fazia na mídia mostrando a relação das obras do PAC com o evento não estavam sendo bem vistas na prefeitura. “Eu tive que mudar o meu discurso para ver se a gente conseguia uma indenização para os atingidos”, lembra Marcelo.

“Eu perdi tudo do dia pra noite, mas eu vi que tinham pessoas na comunidade que estavam numa situação pior ainda, porque tinham perdido a casa”.

Quando os rojões estouram no céu avisando que a polícia está na comunidade, as crianças respondem com gritos, alvoroçando a brincadeira no parquinho da creche Cristo Redentor, a única instituição pública dentro da comunidade. Ali, as preocupações da vida adulta não interrompem a diversão da garotada, nem mesmo quando o estrondo supera qualquer foguete. “O barulho de uma pedra batendo na outra foi muito forte”, relembra Ramilda Vita Iadroxitz, que, ao ver da janela a vegetação deslizar, manteve a calma e continuou a roda de cantiga, sem que os alunos percebessem o que tinha acontecido. “Eu sabia que estaríamos mais seguros ali dentro, do que na rua”. Naquele dia, choveu o que se esperava para a metade do mês de dezembro, foram cerca de 58 mm em 1 hora. De acordo com o agente da defesa civil Luiz Eduardo Machado, responsável por coordenar as ações de resposta ao deslizamento da Mariquinha, eventos dessa singularidade são extremamente destrutivos onde quer que aconteçam. De dentro da creche, Ramilda via moradores desnorteados caminhando na chuva. “Um pegou um microondas, outro, um aparelho de som, que botou embaixo do braço e andava para baixo e para cima, sem saber o que fazer”, recorda, acentuando o completo despreparo da comunidade frente ao acidente.

“Temos uma cultura ainda muito incipiente no que diz respeito à prevenção”, avalia o geógrafo José Luiz de Abreu, acrescentando que “a sensibilização muitas vezes se dá quando existe um fato, como foi o caso da Mariquinha”.

Ele realizou oficinas de gestão de riscos e desastres no Núcleo Comunitário de Defesa Civil Claudete Andrade Ferreira (NUDEC), criado em 2013, na comunidade. Uma iniciativa inédita em Florianópolis para desenvolver a percepção das pessoas com relação aos perigos a que estão expostas e capacitá-las a responderem rapidamente em caso de eventos climáticos adversos. “Os moradores verificaram que estava avançando a movimentação de um muro antigo de uma residência, eles mesmos foram na Secretaria de Obras e conseguiram um novo”, relembra José sobre os resultados positivos dos trabalhos. Os aprendizados, também, foram postos em prática durante o exercício elaborado pela Defesa Civil no final de 2014. O grupo que contava com a participação voluntária de aproximadamente 18 moradores e de técnicos da prefeitura, hoje, não realiza mais as reuniões mensais. O NUDEC ainda é mantido à distância pelas mensagens trocadas entre os integrantes via celular. “Acredito que faltam repasse de verba por parte das três esferas de poder e investimento da própria comunidade nela mesma, com sua força de trabalho e acúmulo de experiência para levar o conhecimento adquirido aos demais”, opina José, sobre os entraves que impedem a consolidação de medidas não estruturantes de mudanças, como os NUDECs.