Florianópolis, 12 de dezembro de 2017
Search
the-beguiled

Por que feminista?

Reportagem:

 Por Paloma Gomide

Como poderiam viver sob ameaças em sua própria casa?

Mas como poderiam, mulheres, viver seguras sem a presença de um homem?

Os tons pastéis, a decoração clássica da casa, a suavidade no ritmo fílmico, apresenta a feminilidade em O Estranho que Nós Amamos[1] súbito. O som que abre o longa é a voz de uma menina que canta ao passear pelo bosque. Grandes árvores deixam-se atravessar por feixes de luz que permitem descobrir a neblina ao redor.  A cantiga cantada me confunde como um aviso de perigo iminente. Mas o que é encontrado por ela é apenas um homem ferido.

O coração acelerado em algumas cenas, ou prenúncios do filme, podem ser explicados pela sensibilidade avivada, na aflição em virar o rosto diante de membros humanos dilacerados, pelas bombas que explodem ao redor das personagens lembrando que a guerra também acontece do lado de fora. Ou simplesmente pelo trailer assistido na noite anterior ter sugerido que o filme se tratava de um thriller. Psicológico, talvez?

Acho que sim. Ou será que digo isso porque sou mulher?

Na verdade, este filme já existia antes. Sophia Coppola refilmou O Estranho que nós Amamos[2], filme de 1971. Sophia também é uma mulher.

Salvo as diferenças entre um filme e outro como a supressão de uma escrava de papel importante na trama, que acabou sendo diluída em outras personagens, a história permaneceu a mesma.

Com a diferença na perspectiva de visão sobre alguns fatos, muitos chamaram a obra de feminista.

“Algumas pessoas me perguntam: ‘Por que usar a palavra feminista? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?’. Porque seria desonesto. O feminino faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral – mas escolher uma expressão vaga como “direitos humanos” é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para este problema esteja no reconhecimento deste fato.”[3]

 Vejo que as relações que acontecem e se abalam com a presença de um novo integrante existem no mundo, mas vejo também que a força feminina é possível em Amy que carrega um soldado ferido para seu lar, em Alicia que conhece sua capacidade de sedução, em Martha que se molda em uma personalidade dura para ser respeitada pelo exército e em Marie quando apenas lembra que o cabo John McBurney tem predileção por cogumelos.

 Apesar das ambiguidades inerentes à vida e à subjetividade que cabe apenas ao sujeito, as decisões de cada mulher não podem ser julgadas sempre como atitudes tomada por ou pelos homens. A amputação e a morte de John McBurney poderiam ter sido passionais. Porém, dado ao contexto, são também totalmente justificáveis. E afirmar que são, pode ser a parte feminista que me cabe.

[1] O Estranho que Nós Amamos (SOPHIA COPPOLA, 2017)

[2] O Estranho que Nós Amamos (DON SIEGEL, 1971)

[3]Sejamos Todos Feministas, Chimamanda Ngozi Adichie, Companhia das Letras, 2015