Florianópolis, 21 de outubro de 2017
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Gugie: A mulher por trás do spray

Reportagem:

Reportagem: Ilana Cardial

Mãe, grafiteira e empreendedora, Monique encontra inspiração na arte e em sua filha.

Tinta spray em uma mão e a pequena filha Lia ao lado. Conhecida como Gugie em sua arte, Monique Cavalcanti faz parte do cenário de grafite em Florianópolis desde os 18 anos. Agora, após nove meses de trabalho, artista, grafiteira e professora, Monique encontrou a oportunidade para criar em Florianópolis um empreendimento que promova e incentive a cultura das ruas. Com sua amiga Sara Duarte, ela concretiza a criação da Agenda, um centro de artes urbanas que tem como objetivo ser um ponto de encontro e referência para quem tem afinidade ou interesse na área.

A Agenda – Centro de Artes Urbanas. Foto: Arquivo pessoal.

Nesse centro, estão sendo oferecidos cursos de grafite e danças, venda de materiais para grafites e pinturas, em um ambiente descontraído que conta também com uma coffee shop e cerveja artesanal. “Espero que seja um espaço que fomente e possibilite o acontecimento pra arte”, conta Monique. Desde sua inauguração, no início de julho, a Agenda tem a proposta de valorizar a arte de rua da capital catarinense.

Grande parte dessa influência veio de seu pai, Celso Piarelli. Artista plástico, ele ensinou muito do que pensa para sua filha. A filosofia e criticidade foi incentivada desde a infância. Eduardo Cavalcanti, irmão do meio de Monique, enxerga em comum a dedicação e satisfação em trabalhar com o que gosta. Ela se encontrou na arte, ele, no fotojornalismo. Dudu morava em Florianópolis com o irmão mais velho, Alex, enquanto sua irmã vivia em Garopaba. Em uma das visitas, Eduardo viu um quadro da roqueira Janis Joplin e ficou maravilhado. Sabia que os traços não eram de seu pai, e não conseguiu identificar o/a artista por trás da pintura. Quando soube que sua irmã caçula era a responsável pela tela, ficou impressionado com o talento da jovem Gugie, que na época tinha 16 anos. A partir desse momento, o fotojornalista incentivou Monique a transformar sua arte em um ato político, utilizando o grafite como um instrumentos para colocar suas expressões na rua.

Publicidade afetiva

Seguindo o conselho do irmão, a grafiteira começou o que chama de publicidade afetiva: cansada de pintar qualquer pessoa e depois não saber quem era, Monique começou a fazer o registro de amigos, familiares e pessoas importantes em sua vida nos muros e painéis. Essa escolha garantiu boas histórias. Uma delas foi quando Gugie resolveu que queria grafitar pessoas na água. Para isso, emprestou uma caixa d’água da UFSC, encheu com água e polvilho – “para ficar esbranquiçada”, como ela explica – e pediu para que seus convidados entrassem. Com amigos fiéis, ela pode fazer as fotos e, depois, adaptar para sua arte. Aderir à fotografia foi a forma encontrada para ter registros mais próximos à realidade.

Com a tinta, foi possível externalizar suas ideias e lembrar a existência da periferia. Para Gugie, apresentar-se nas ruas é uma forma de ganhar o respeito das pessoas. Ser mulher negra em um contexto dominado por homens serviu como impulso, nunca como um obstáculo, para ela e sua arte. O incentivo e carinho que recebe de seus amigos da área estabelece um afeto como em uma relação de irmãos.

Ainda assim, Monique não escapa do machismo. Em seus grafites, ela assina como ‘Gugie’ – apelido que surgiu pela brincadeira de um amigo e não remete diretamente a nenhum gênero. Porém, é comum que perguntem ‘quem foi o cara que fez isso?’, e surpreendam-se ao saber que é uma mulher. Quando estava com seu ex-namorado, não foram poucas as vezes que, sem questionar, deduziram ser ele o responsável pelas artes e ela, a companhia.

Dedicando sua vida ao grafite, foi convidada a participar este ano do International Meeting of Styles, um evento na Alemanha todo voltado para grafiteiros/as. Porém, uma surpresa a impediu de comparecer: o nascimento de Lia. Além do cabelo crespo e a pele escura, a bebê de sete meses puxou o sorriso da mãe. De diferente, a menina não tem furos nas orelhas como é costume em recém-nascidas, enquanto Monique carrega brincos pendurados. A pequena participou ativamente de toda a conversa; as respostas de Monique vieram em dois tons: para os adultos e para a filha, com voz de criança e brincadeiras.

Monique e sua pequena companheira, Lia. Foto: Arquivo pessoal.

Ser mãe

Ser mãe solo é desumano, sente ela. O sistema não dá condições adequadas para que mãe e filha tenham tempo juntas, e Monique ainda possa trabalhar e garantir uma boa educação para a neném. Ela pensa que, se culturalmente a paternidade fosse repensada e a ela fossem atribuídas responsabilidades além da financeira, talvez as mulheres tivessem uma alternativa.

“Quando se é mãe, o cérebro fica uma loucura”, aponta ela enquanto faz mil coisas ao mesmo tempo. Além de pintar o quadro de serviços, em uma hora, ela amamentou, deu fruta e brincou com a filha. Tudo isso enquanto conversava. Mesmo com muitos afazeres e responsabilidades, para Monique, não poderia haver alegria maior. Hoje, tudo é pela Lia. Foi seu nascimento, inclusive, que impulsionou e apressou Gugie a montar seu centro de artes urbanas que, até então, só ficava no papel.

Essa iniciativa agrega-se aos centros culturais que têm surgido em Florianópolis nos últimos anos, como o Espaço Cultural Armazém, do Coletivo Elza, e a Casa Vermelha. Além disso, a arte urbana tem um papel importante em Floripa, que conta com galerias a céu aberto em diversos pontos – como na Lagoa da Conceição e no Carianos. A Agenda surge como uma necessidade que Monique e Sara enxergaram de concentrar o conhecimento do grafite e outras artes de rua presentes espalhadas pela cidade.

Ao invés de parar sua arte, a maternidade trouxe uma companhia além das latas de spray. Diferentemente do que esperavam, continuou grafitando. Grafitar é sua vida. O número de painéis pintados por ano é menor, mas Monique dissemina a cultura hip hop de outras maneiras. Assim, concilia os seus dois grandes amores: a arte e Lia.

Trajetória

O primeiro contato com a cultura hip hop veio aos 12, quando, por um acaso, ela acompanhou uma amiga à escola de dança. Encontrando inspiração com seu professor e colegas, apaixonou-se pela arte das ruas e dela nunca mais se desvinculou. “Viver o grafite é o que me move”, destaca ela.  Como tudo em sua vida, anos depois Monique foi parar na Argentina de um jeito “meio aleatório”. Em Buenos Aires, um dos maiores centros de arte do mundo, sua estadia foi na casa de um casal de grafiteiros. Entre os diversos aprendizados dessa viagem, uma frase a impactou e transformou sua arte: “Los pies calzados no sienten la Tierra” (Os pés calçados não sentem a terra). A artista interpretou que na vida é preciso arriscar e sentir o que está fazendo e, a partir desse sentimento, surgiu sua primeira proposta autoral: o realismo.

Retrato de Duda, aluna de Gugie, na avenida Ivo Silveira. Foto: Arquivo pessoal.

Durante os cinco anos que o grafite faz parte de sua vida, a mãe de Lia percebe a transformação acontecida. Com o tempo, foi aprendendo a “não precisar provar nada para ninguém” e a ter seu próprio ritmo. Ainda assim, ressalta como o amadurecimento faz parte do processo de construção de uma artista. Inclusive os perrengues pelos quais já passou, como “carregar escadas morro acima e pintar debaixo de chuva”.

No entanto, sua trajetória garantiu momentos ímpares de orgulho. Um deles foi a ação que desenvolveu no Morro do Horácio com seus alunos do Núcleo Arte Educação (NAE) da Irmandade Divina do Espírito Santo (IDES). Depois de um ano aprendendo sobre o grafite, as crianças e jovens puderam usar o spray. Como arte-educadora, Monique acredita que essa produção tem uma grande influência na auto-estima dos estudantes, que está diretamente ligada à educação. Externalizar seus pensamentos e sentimentos é parte importante de sua formação.

Entre uma e outra história, nenhuma trouxe um sorriso tão grande ao rosto de Gugie quanto ao falar sobre seu grafite do Yoda, personagem de Star Wars, para uma de suas disciplinas na Artes Visuais da UDESC. Rindo, ela conta que é quase um “primeiro filho”. Foram cinco dias de trabalho que resultaram em uma grande arte. Tudo feito à mão livre, sem o uso de grid – estrutura em forma de grade utilizada para a construção de peças artísticas. Pintar foi como cozinhar sem receita: a intuição aponta para o que falta e o que poderia melhorar.

“Me disseram pra eu retratar o Jabba. Ele tem luzes e texturas, mas é fácil de fazer. E eu só perguntei: alguém vai fazer o Yoda? Não? Então eu faço!”.

Orgulhosa, ela chama atenção para a lata de tinta de spray – que substitui o sabre de luz – e a Terra ao lado do Mestre Jedi. A voz de Monique é carregada de modéstia, mas com o sorriso largo ela entrega a satisfação por realizar um trabalho de grande dificuldade.

 

Yoda, o grande orgulho de Monique. Foto: Arquivo pessoal.

Outras obras de Gugie

A arte de Gugie baseia-se em retratos de pessoas nos mais diversos estilos. Uma marca característica é o uso de traços fortes e marcantes – como olhos grandes e cores vivas, por exemplo. Seu primeiro conceito foi o Sorrisão, que são pinturas em que o sorriso é destacado e colocado em primeiro plano. Parte importante do reconhecimento do trabalho de Monique veio por conta desse estilo. Em seguida veio a Fechadura, objeto que era pintado no centro da testa das releituras que faz de fotografias, com o intuito de ser uma provocação e reflexão sobre o que é “abrir a mente”. Nesse tempo, a artista ainda produziu As Bonecas de Porcelana que criticam os estereótipos de gênero. “Pra mim, é o exemplo dos padrões”, diz ela, relacionando com os estereótipos de mulheres brancas e frágeis.

A ideia central é que as bonecas eram construídas e desconstruídas, de forma que mostrasse uma “alma” por dentro delas. Por último, mostrando que entende um pouco sobre tudo, a artista ainda produziu se inspirando na teoria fractal – que afirma que um objeto pode ser dividido em várias partes, sendo cada uma delas semelhante ao corpo original. Para representar esse conceito matemático, ela usa a técnica de desenhar pequenas meninas encaixadas nos rostos de homens e mulheres. A escolha por uma garota, e não por um garoto, aparece como símbolo do cromossomo X que todos carregam. “Somos todos parte de um único todo”, reflete Monique. É também com essa ideia que surge o centro de artes urbanas Agenda. Com a proposta de ser um ambiente agradável que una crianças e adultos, profissionais e curiosos interessados em arte de rua – e em encontrar pessoas com esse gosto em comum. Com exposições, cursos, debates e diversas outras maneiras de transmitir conhecimento, a Agenda promete ser um lugar para se mergulhar de cabeça nessa cultura.