Florianópolis, 22 de setembro de 2017
Search
IMG_7777

Sobre as gentes do Amazonas e um barco mensageiro de nome Maria Fernanda

Reportagem:

Texto: Pedro Stropasolas

Fotografias: Jéssica Antunes e Pedro Stropasolas

A chuva desmaiava esguia sobre os charcos d’água e a noite começava a recair sobre os ombros pesados dos peruanos que trabalhavam incessantemente no Porto de Iquitos, alta amazônia peruana. Encostada à beira-rio, a embarcação Maria Fernanda balançava de acordo com o rumo do vento e, de tempo em tempo, desferia um prolongado ecoar de metal, que rangia os ouvidos dos passageiros que nela subiam. Do lado de fora, à frente da balsa cinza de embarque, a corrente de serviço braçal abastecia o barco com mercadorias diversas: banana, refrigerante, galinhas, tábuas, tubulações.

A espera do translado de cerca de 500 quilômetros até Santa Rosa – já na tríplice fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil -, previsto para três ou quatro dias, é de fácil absorção para quem conhece o caminho das águas turvas do Amazonas. Era 21h. Os passageiros já estavam a bordo. Haviam chegado, quase todos eles, em veículos de moto-taxi – principal meio de locomoção da cidade, que abriga cerca de 400 mil habitantes. No aconchego de suas redes, que balançavam entre bagagens e goteiras, os viajantes esperavam pela partida, observando os últimos passos equilibrados de marinheiros sobre a extensa tábua de madeira que ligava chão e barco.

Os trabalhadores usavam camisetas das equipes do futebol europeu, outros regatas de corte básico, ambas encardidas pelo efeito de perambular por entre as poças largas e fundas de um chão barrento e movediço. Aquela cena contrastava com o colorido dos caminhões e motos-taxi – alguns veículos eram pintados de azul, outros vermelho e verde, com labaredas de fogo saindo das rodas; haviam também aqueles que posavam com fotografias de jogadores e escudos de times internacionais. Os mais promissores dos marinheiros eram pré-adolescentes. A inexperiência quase que confundida na postura de homem valente não escondia a desenvoltura em crescimento: eram magros, miúdos e risonhos. Aglomeravam-se junto a seus mestres com vestimentas idênticas. Pediam carregamento, serviço, utilidade. E aprendiam. Experimentavam o efeito precoce das costas castigadas: a necessidade de ferir os músculos imaturos no carregamento de caixas e mais caixas.IMG_7766

IMG_7721

IMG_7720

IMG_7827

IMG_7831

O dono do barco não passava despercebido. O próprio nome não permitia tal interpretação: Vitorioso. Era comum vê-lo sentado em um banquinho em frente aos camarotes, observando diligentemente seus trabalhadores. E era posseiro de um olhar infindo. A vestimenta branca se confundia com a barba da mesma cor, esparramada por toda a área facial. Notava-se em Vitorioso um ar obscuro, um poder fora do comum, e não era por menos: detinha o espírito profético que dava suporte às relações sociais daquele ambiente flutuante. A vida no Peru pulsava, e assim como a chuva, a cidade de Iquitos não descansava. Cessou apenas quando Maria Fernanda deu a partida.

A embarcação partiu avisando a floresta sobre seu aproximar. As redes se entrelaçavam mas mantinham a ordem, permitindo que o sono namorasse o rio. Os traços indígenas, peruanos, surgiam entre os pequenos vazios do tear de corda e pano. E apareciam da escuridão sorrindo de partes desconhecidas do barco, fixando brevemente o olhar, com a ausência de qualquer necessidade de diálogo. Em meio a este enfrentamento visual, homens e mulheres desgastados, atentos a tarefa de abdicar do cansaço para manter o pensamento no caminho dos encontros. 

Para os marinheiros, a vida no barco é tímida, dura e necessária. Eles sorriam somente entre eles, em momentos e espaços específicos: na parte frontal da embarcação, nas pausas da mesa reunida em feijão e galinha, ou pelos cantos sombrios e pouco iluminados, onde gostavam de soltar poucas palavras e delas rirem em segredo. Pois a concepção mais clara de que eram realmente humanos era quando estavam nos momentos de riso. Fora isso eram máquinas de força bruta, costas largas e olhares tão pesados que espantava curiosos. Aqueles indivíduos de aptidão física surpreendente eram os primeiros a ver o sol nascer, sempre posicionados com o horizonte à frente da mirada, atentos à costura do Maria Fernanda sobre o rio ausente e conselheiro, onde o sol morre e ressurge todos os dias.

IMG_7977

IMG_8086

IMG_7945

IMG_7919

A galinha das refeições vinha com o rio, de um pequeno bote que desprendia-se do corpo lateral da embarcação e rumava em direção a algum povoado costeiro. De lá voltava com as aves esqueléticas, amarradas pelos tornozelos. E morriam nos fundos. Os encarregados pelos serviços da cozinha, marinheiros vestidos com roupas justas e maquiagem nos olhos, eram responsáveis pelos ofício de depená-las. Na parte traseira da embarcação, ficava uma parede de metal enferrujado – que acolhia três torneiras de água e um espelho rachado na extremidade inferior esquerda. Aqui a janela refletida é lembrada pelo fato de permitir a visão do horizonte oposto: a mata e o rio marrom, espécie de súplica vinda das águas para que os homens não lhe virassem as costas. Ao lado da última das torneiras, um banco precário feito de madeira. Ali sentava o justiceiro e seu balde, para que as galinhas encontrassem a morte. Cabia ao rio o recebimento dos órgãos, das penas, do sangue ainda quente. A distribuição para os tripulantes era feita pelos próprios marinheiros. Junto a galinha ensopada, feijão de poucos grãos, arroz e batata.

A cerimônia tradicional do atraque

A travessia era indissociável do imaginário das comunidades ribeirinhas. As pessoas que apareciam na borda do rio tinham alguma impressão de que aquele barco, na sua própria natureza itinerante, trazia alguns lapsos de sociedade ainda não descobertos. Assim o Maria Fernanda se fazia valer da condição de mensageiro e olhava para as pessoas que o esperavam. E elas aguardavam o refrigerante com ansiedade semelhante a que teriam por um parente distante, pois o comércio antes de comércio era encontro.

Nestas paradas eram notadas as crianças, sempre em bando, ativas, serelepes, subindo ao barco ou apenas assistindo ao movimento repetitivo dos trabalhadores, mão a mão, encomenda a encomenda, passando os produtos que abasteceria as quitandas, kioskos e pequenos comércios.

O barco, por vezes, mentia. Era visto com pouca mercadoria. Abaixo, no porão, ignorado pelos passageiros, um aglomerado de produtos que brotavam da necessidade. Estes produtos saíam do porão quase sem serem vistos. O serviço do Maria Fernanda, por vezes, soava de forma misteriosa, por isso a necessidade do olhar desconfiado, da postura séria, poucos eram os que sorriam ao buscar seu produto.

IMG_7838

IMG_8052

IMG_7909

IMG_8016

Quando estacionado, era tempo e subir os ambulantes, espécies de seres que viviam para o prazer da troca de olhares, da venda de frutas influenciadas pelo afeto ingênuo. Grande parte, mulheres, com baldes cheios de marmitas e frutas, como a manga – a fruta que mais aparecia. Há de se falar que também subiam muitas crianças, imperceptíveis, quase que pequenas máquinas de correr entre redes. Tinham o dom de vender bolachas doces, estilo waffer, talvez pela simpatia que tinham com o próprio alimento que ofereciam.

De quando em vez era visto algumas mulheres aconchegando sua fé nos olhares para a multidão. Eram santas de cabelos tapados, pouca fala, e surgiam para preencher o vazio do rio infindo. Pregadas ao segundo andar da embarcação, atentas ao ofício, quase que transportavam os pacotes junto com seus companheiros. Também gostavam de enxergar a vida das vilazinhas por onde o barco atracava. E o povo as via como mulheres abençoadas, que confortavam aquela estadia dura e cansativa. Havia gente com túnicas e rezas por todos os corredores. Vitorioso gostava assim: ver as gentes determinadas na religião. Na parede metálica de entrada, um cartaz pregado com o nome de um novo messias, este peruano, residente de uma das localidades longínquas da região de Loreto, alarmava para todos os passantes sobre a presença divina que protegia a todos.

IMG_8057

O percurso abraçava a fé rio adentro. No caminho cruzavam outras embarcações, algumas prenchidas com troncos de árvores que eram prédios de madeira crua, recém assassinada na Amazônia. A mata que acompanhava o trajeto de Maria Fernanda por vezes se afastava de tal maneira, que o barco se sentia isolado. O Amazonas tem dessas coisas. Margens tão separadas uma das outras que faz com que as pessoas criem involuntariamente a sensação de estarem ilhadas, sem rumo.

A chegada em Santa Rosa surpreendeu a madrugada. O anúncio foi feito por telefones sem fio e pela própria buzina do capitão que soava ininterruptamente. Na parte de fora, sobre as águas prateadas, um conjunto de pequenas canoas de homens trabalhadores ecoavam um coro desafinado. Entendia-se que queriam serviço. Os barqueiros levavam a tripulação para a Letícia, na Colômbia, ou para Tabatinga, no Brasil. A proximidade entre as duas cidades confundia os desentendidos: o próprio rio e seus braços imensos não permitiam a localização exata. A questão de mais clara percepção é que aquela embarcação seguiria rapidamente para o caminho de volta a Iquitos e o desembarque ligeiro não abria espaço para nenhum tipo de nostalgia. E assim como quem deixava a última pegada sobre o chão metálico do Maria Fernanda II, a lua seguia caminho e desbravava mais uma jornada em direção ao horizonte do Rio Negro.

IMG_8178

IMG_8154