Florianópolis, 23 de novembro de 2017
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Respeito, reparação e resistência na essência do Bongar, grupo nordestino de cultura popular

Reportagem:

Por Michele de Mello e Talita Barbulhan

Os primos Guitinho, Nino, João, Thúlio, Meme e Neta nasceram e foram criados no terreiro da Xambá, em Olinda-PE, onde impregnaram-se pelos valores da ancestralidade africana, presente no quarto álbum do grupo “Samba de Gira” – indicado ao Prêmio da Música Brasileira de 2017. O grupo Bongar subiu aos palcos em 2001 com a intenção de resgatar a tradição da família de tocar o Coco (ritmo musical de origem afro-indígena típico da região Nordeste do Brasil). Para eles(as), o mérito maior é perceber as melhorias que a visibilidade artística proporciona para os(as) moradores(as) do Quilombo Urbano do Portão do Gelo, comunidade em que vivem. Afinal, mais do que tocar Coco, o que o Bongar faz é resgatar referências de um povo que sistematicamente é oprimido em nossa sociedade.

Quem esteve em maio no show, em Florianópolis, brincou o Coco, entrou na ciranda e conferiu o potencial que juventude negra, periférica e de terreiro exala quando tem oportunidades para manifestar sua criatividade. Na ocasião, conversamos com Guitinho, vocalista e compositor, que contou sobre a trajetória deles(as) e teceu críticas à estrutura social do Brasil, e também com Marileide Alves, a produtora do Bongar.

Hoje, mantendo uma tradição de 52 anos, os(as) integrantes do grupo apresentam-se em casa, no terreiro da Xambá.  A festa “Coco de mãe Biu”, acontece todo 29 de junho para pagar uma promessa feita em prol da proteção da comunidade onde vivem. 

MARUIM: Quando conta a história do coco do Bongar você o define como brincadeira, resistência, religiosidade e memória. Explica para gente o por que dessas características? 

Guitinho: No início, na década de 30, nossos familiares utilizavam o Coco como uma manifestação recreativa e festiva, para ser realizada a qualquer tempo, qualquer dia da semana, em qualquer celebração. Devido à repressão policial aos locais de culto afro-brasileiro que houve no final dos anos 30, essa brincadeira passa a ser restrita e adquire a identidade de resistência, porque era utilizada para camuflar as tradições e ritos que ocorriam às escondidas na casa dos nossos familiares. Quando há a reabertura dos terreiros, em 1950, e a suposta liberdade ao culto de matriz africana, o Coco da nossa família retorna como algo recreativo, mas marcado pelo caráter de resistência, pois foi capaz de fazer com que os ritos da nossa comunidade sobrevivessem durante os tempos de repressão. A característica da religiosidade se insere, quando em 1964 ocorre um acidente na comunidade, e a nossa tia-avó, mãe Biu, faz uma promessa: se nada de mal acontecesse com a gente nos aniversários dela, haveria um coco em homenagem às entidades da Jurema (culto afro-indígena presente em terreiros no Nordeste) e aos mestres, como Pomba gira e Exu, que nós cultuamos na Xambá. Assim, a partir de 1965, o Coco começou a acontecer todo dia 29 de junho. Após o falecimento dela,  em 1993, a comunidade passa a ter a função de guardar essa memória. Assim se incorpora o elemento da memória de mãe Biu na festa. 

MARUIM: O álbum mais recente do grupo é “Ogum Iê” foi lançado em Olinda, no Centro Cultural Bongar. Explica para a gente essa história? Qual a importância deste centro-social e os desafios para mantê-lo? 

Guitinho: Em 1951, a comunidade vai para a região que está até hoje. Nesse ambiente, criamos um espaço de conservação e de permanência da tradição afro-brasileira e mantivemos uma prática única dentro do universo do candomblé, conhecida como Xambá, tanto é, que somos tidos como o único reduto dessa tradição no país. Em 2006, o governo federal demarcou três hectares de nossas terras e nos tornamos, assim, um quilombo urbano, o terceiro do país a ter esse reconhecimento. Só que, passado algum tempo, a gestão municipal veio com ideia de construir um terminal urbano dentro do raio demarcado e exatamente no local onde existia a ruína de uma fábrica de gelo, que, aliás, deu origem ao nome da nossa comunidade: Quilombo Urbano do Portão do Gelo. Como a área é tombada, não poderia construir ali, porém a gente sabe que, infelizmente, nesse país se passa por cima de tudo do que é lei. Então, para amenizar os impactos que a comunidade iria sofrer, como a reconfiguração urbana do local e as poluições sonora e ambiental, a gente foi atrás das compensações.

Conseguimos inverter a posição do terminal, evitando que vias simbolicamente muito importantes para nós não fossem atingidas com fluxos de ônibus e de carros; reivindicamos que o novo equipamento tivesse o nome da comunidade, por isso ficou Terminal da Xambá, e exigimos um centro cultural exatamente onde eram as ruínas da fábrica. Foi o que a gente conseguiu. O Centro Cultural é financiado pelo Bongar, nós que administramos, através de contribuições mensais de familiares e amigos, além do dinheiro que arrecadamos com os shows. No espaço, realizamos diversas ações, como capoeira, percussão e dança afro, mas vamos além disso, porque compreendemos que são importantes e que fazem parte da nossa identidade, porém não queremos estigmatizar e ficar naquele tipo de situação que dá à entender que tudo o que é de negro só pode ser trabalhado nesse campo cultural. Então a gente realiza outras atividades também. Recebemos as vacinas, em época de campanha, e fazemos reuniões do batalhão da polícia com a comunidade. Não temos incentivo do governo, nem qualquer isenção de água, luz e IPTU. Recebemos esse equipamento em fevereiro do ano passado e até hoje governante algum veio nos visitar. Na última campanha eleitoral nenhum político apareceu no nosso centro cultural, porque a gente já manda um recado muito claro, de que pode aparecer, mas não levantamos a bandeira de ninguém.

Manter o centro tem sido bem difícil, porque o principal cliente nosso é o governo local, mas que nem sempre nos chama e quando contrata tem aquela história de pagar meses depois. Então a gente tem que tocar o Coco ralado mesmo pra poder manter essa história e estamos mantendo. 

MARUIM: Pai Ivo, atual babalorixá (título da liderança espiritual) da Xambá, diz que os terreiros foram oficinas-sociais que permitiram a ressocialização dos negros escravizados quando chegaram ao Brasil separados de seus familiares. Sistematicamente esses espaços são alvos de intolerância religiosa por parte da população e do Estado. Como avalia a atual conjuntura política para os praticantes das religiões de matriz africana? Você considera que houve algum governo que se sensibilizou contra isso?

Guitinho: De fato os terreiros foram espaços que guardaram as tradições afro-brasileiras e até de proteção para diversos personagens da nossa história. No período da ditadura militar muitos artistas tiveram a oportunidade de ficar dentro desses ambientes. Dos governos para cá, eu poderia dizer que os de Lula e Dilma, com prevalência o dele, foram os que mais reconheceram as tradições afro-brasileiras. Se o Bongar é um grupo conhecido no Brasil foi devido às políticas implementadas pelos primeiros anos do mandato petista, o que infelizmente é algo contraditório também. Afinal, o governo Lula foi o que mais deu concessão de TV pública aos evangélicos, uma ferramenta utilizada para a construção do preconceito e do racismo nesse país.

Hoje, vivemos nessa conjuntura política situações que aconteciam no período colonial e se achávamos que já tínhamos conquistado a tal democracia, agora a gente percebe que não. Por exemplo, o terminal de ônibus que foi instalado dentro da comunidade, recebeu o nome do nosso terreiro, mas quando o Estado faz minimamente uma reparação a uma população que sofreu perseguição, recebe uma crítica ferrenha de grupos evangélicos querendo que  não se coloque o nome do equipamento de uma comunidade tradicional e isso é muito louco. Nesse país, discutiu-se anistia às vítimas da ditadura militar e o reparo aos seus familiares, mas ninguém fala de indenização aos povos de terreiro, que foram perseguidos pelo Estado. De nós ninguém fala, mas da classe média da esquerda que sofreu na ditadura militar se discute.

Vivemos num ambiente em que uma criança não pode sair na sexta-feira de branco (tradição entre os(as) adeptos(as) das religiões de matriz africana)  porque vai ser apedrejada, nem se pode estar tranquilo com as guias (colares religiosos que pela cor identificam a qual entidade a pessoa é devota) amostra porque será recriminado. Então, todo esse processo é inverso ao momento que a gente vive de tanta tecnologia, de tanta abertura.

A política que tem que ser construída é a de garantir que o outro  seja diferente. Posso não concordar com o que você diz, mas eu morrerei lutando pelo direito de você expressar aquilo que acredita, desde que isso não me fira, não passe por mim, não me destrua. A sua diferença legitima a minha existência, então vou lutar pelo direito de você ser diferente para eu poder existir.

bongar montagem

MARUIM: Em agosto de 2017, quando o grupo completar 16 anos de atividade vocês contabilizarão seis álbuns. Um feito extraordinário para um grupo de cultura popular. Ao que vocês associam esse ritmo intenso de produção? 

Guitinho: A grande capacidade demonstrada pelo Bongar é a criatividade da juventude negra de terreiro. A gente aproveitou o mínimo que foi dado, quando houve uma potencialização do Estado, participamos de editais públicos e fomos contemplados. Acreditamos que pelo fato de a nossa música ser um elemento único dentro desse universo afro-brasileiro, isso desperta interesse de diversas áreas, tanto que nos editais as pessoas que fazem a curadoria se encantam. Acho também que há um link que nós conseguimos fazer de manter a tradição de nossa família e acreditar que cantando a nossa história a gente se torna universal. Foi isso que fizemos, toda a nossa poética musical conta a nossa trajetória e isso faz com que as pessoas entendam que é fundamental você se reconhecer naquilo que nasceu culturalmente. O Bongar conseguiu estar dentro de um espaço fonográfico, sem, no entanto, perder o pé do terreiro. Isso é maravilhoso para a gente. 

MARUIM: O Bongar acumula conquistas consideráveis. Só para citar algumas: o trabalho com produtores musicais como Beto Villares e Alê Siqueira,  a parceria com outros músicos como o maestro Latieres Leite, Jussara Marçal, Siba, Chico Cesar, entre outros; a indicação do álbum Samba de Gira para o Prêmio da Música Brasileira deste ano. No entanto, vocês acumulam uma série de características que são estigmatizas em nosso país. São negros, periféricos, quilombolas, adeptos das religiões de matriz africana e nordestinos. Por que você acha que o Bongar deu certo no Brasil?

Guitinho: O primeiro ponto é que a gente resolveu cantar a nossa história, ser aquilo que a gente é. Acho que nisso que está o grande lance. Todo esse estigma poderia ser empecilho para a nossa trajetória, no entanto a gente pega ele e potencializa. Temos bastante orgulho de ser de terreiro. Estamos produzindo na periferia um trabalho com êxito que faz com que se construam pontes com grandes artistas, com grandes produtores que reconhecem essa pujança nossa.

Eu acho que demos certo porque somos uma juventude que logrou, diferente dos nossos pais, acessar ambientes como as universidades. Hoje a gente tem uma formação e oportunidade de estudar para estabelecer essa ponte sem perder a nossa tradição e nossa ancestralidade, imprimindo isso na música que fazemos cotidianamente.

MARUIM: Você considera que o machismo é um dos desafios que precisa ser transposto no seu dia a dia e no dos demais homens do grupo?

Guitinho: A Xambá sempre foi e é hoje ainda construída por concepções femininas. Você vai ver na nossa trajetória, mulheres como Maria Oya, mãe Biu, minha vó Luisa, minhas tias Tila, Laura e Betinha, todas elas deram o direcionamento para o terreiro chegar até aqui. O pensamento delas é encontrado em toda a estrutura física, religiosa, ideológica dentro da comunidade. Embora atualmente tenha meu tio Ivo na liderança, junto com minha tia-avó Lourdes, nas respectivas funções de babalorixa e ialorixá, a gente percebe o quanto a estrutura feminina ainda é presente.

Primeiro ponto é trabalhar essa ideia que existe no Brasil de que quem trabalha com cultura, de quem é esquerdista não é machista, não é racista, isso é um engano. Hoje, a gente no Bongar e na Xambá está começando a fazer essa reflexão, porque somos levados a viver num ambiente, em que, embora a mulher tenha o seu protagonismo, muitas vezes – eu vou usar esse termo, que talvez não seja legal – o protagonismo dela é impulsionado pelo machismo. Ela tem que levar posturas, às vezes até machistas para ser reconhecidas e isso é muito louco.

A religião de matriz africana é tida como religião matriarcal. No entanto, quando a gente vai para as práticas sociais, do dia a dia, ela se restringe muito ao campo litúrgico. Com o protagonismo dessas mulheres você percebe uma coisa: os maridos se afastam, porque não admitem. Por exemplo, com mãe Biu, é muito claro isso. Quando ela assume o terreiro  e se torna a líder comunitária, em seguida seu esposo vai embora de casa.  Ela era a voz mais ativa, o que levou ele, de certa forma, a ir embora. Eu percebo a entrada de Neta no Bongar – minha irmã já participou também – como um ganho muito importante. Por que existe dentro dos cultos afro-brasileiros um mito de que mulheres não podem ser percussionistas, nem ogãs. Já na Xambá, mulheres podem tocar. Mas a construção social do machismo, fez com as participação delas nesses ambientes fosse reduzida. Temos muito que lutar contra o machismo dentro dos terreiros, dos maracatus, dos afoxés, dos caboclinhos, do samba. Afinal, ele impera e é um grande estruturador dessa mazela social que a gente vive.  

MARUIM: Quais os desafios de se trabalhar com cultura popular?

Marileide: Com cultura popular tudo é mais difícil, porque ela não é valorizada pelo poder público, nem pela própria mídia. A gente precisa trabalhar para colocar o nosso produto em evidência porque ninguém vem atrás da gente. Por isso, passamos a produzir os nossos próprios shows, eventos e atividades. 

Em Pernambuco conseguimos um pouco mais de espaço, porque tem aquele rótulo do estado multicultural. A cultura popular está mais em evidência, mas é claro que a gente continua recebendo o pior cachê, tocando no pior palco, com o pior som e recebendo bem depois que todo mundo. Apesar dos avanços, as dificuldades existem principalmente porque é um grupo de jovens da periferia, negros(as) e de uma religião que já sofre preconceito, o candomblé. Imagine, você passar por tudo isso e ainda buscar se inserir em um segmento que é preconceituoso, como o mercado fonográfico brasileiro. Se é difícil pra quem é branco, pra preto é pior ainda. 

MARUIM: Há 13 anos como produtora do Bongar, o que você identifica como legado do grupo?

Marileide: O Bongar foi um grupo que revolucionou a sua comunidade. O legado dele não vai ser só a música, mas também o exemplo que eles construíram lá. Só para ilustrar o que estou dizendo: quando eu cheguei na comunidade nem crianças, nem os adultos andavam vestidos com os axós de seus orixás. Saiam de casa com eles dentro da bolsa e quando chegavam no terreiro é que se vestiam. O Bongar realizou um trabalho de autoestima, de valorização da negritude, mostrou a importância que teve o povo negro na formação da identidade cultural do Brasil e estimulou as pessoas a não terem vergonha de assumir as características do seu biotipo. As composições do Guitinho são fantásticas, elas contam o cotidiano da comunidade e isso vai ficar. Quando eu e ele estamos conversando a gente diz assim ó: “se o Bongar terminar hoje, ele já fez história”. E já fez realmente, porque um grupo de cultura popular da periferia, negros, de candomblé com 25.500 seguidores no Facebook e cinco discos lançados em 13 anos é muita coisa. Isso é resultado de um trabalho de perseverança, de persistência e de acreditar.