Florianópolis, 23 de agosto de 2017
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Thairaa - Laklãnõ Xokleng_1

Lápis e papel são as novas armas da luta indígena

Reportagem:

Reportagem de Andressa Santa Cruz, Clara Comandolli e Maria Teresa Mazetto, do Zero Jornal. Fotos: Maria Teresa Mazetto.

“Temos que ocupar esses espaços para entender e se proteger da sociedade não-indígena, mantendo na consciência quantos dos nossos ancestrais já morreram nessa lura” – Lauhã Kamayurá – estudante de Geografia/UFSC

“Eu mesmo já pensei em desistir, mas atrás de mim tem toda uma comunidade” – Simoniel Patté – estudante de Engenharia Civil/UFSC

Depois de se formar, Jafe Sateré quer voltar a morar nas margens do Rio Andirá, de águas ancestrais, profundas e escuras que há mais de cinco séculos banham a vida de seu povo, os Sateré Mawé. Nascido e criado em uma casa feita de barro e palha branca na aldeia de Ponta Alegre, perto da divisa do estado do Amazonas com o Pará, Jafe se mudou para Florianópolis ao ser aprovado no curso de direito. Quando lhe perguntam o porquê de estudar a 3.500 quilômetros de distância, já que gosta tanto de sua terra natal, ele responde: “É pela autonomia indígena. Escolhi a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) por ser uma das melhores do país no meu curso e pela quantidade de vagas para ações afirmativas”.

Jafe é filho de João Sateré, líder tradicional dos Sateré Mawé e um dos fundadores da Coordenação Indígena da Amazônia Brasileira (COIAB). “Meu pai sempre contou com o amparo de profissionais qualificados, mas nenhum deles era indígena. Quero dar sequência à minha hierarquia de liderança como advogado. Nos processos de demarcação de terra, por exemplo, meu diploma será muito útil”.

Jafe é filho de João Sateré, líder tradicional dos Sateré Mawé e um dos fundadores da Coordenação Indígena da Amazônia Brasileira (COIAB). “Meu pai sempre contou com o amparo de profissionais qualificados, mas nenhum deles era indígena. Quero dar sequência à minha hierarquia de liderança como advogado. Nos processos de demarcação de terra, por exemplo, meu diploma será muito útil”. Foto: Maria Teresa Mazetto

Mesmo não sendo de uma linhagem direta de caciques, Lauhã Kamayurá concorda com Jafe. Faz 15 anos que ele saiu do Parque Indígena do Xingu para morar na capital catarinense e hoje está no quarto semestre de Geografia da UFSC. “Volto uma vez por ano porque minha família ainda está lá. Meu pai, meus avós, meus primos. E eles precisam de ajuda”, conta Lauhã. O Xingu é conhecido por ser o primeiro território indígena homologado pela União, o que colaborou para a preservação da biodiversidade local. Porém, mesmo com os recursos naturais e com a tradição da pesca, caça e agricultura, os xinguanos dependem do apoio da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), ONGs e antropólogos para solucionar questões burocráticas, algo recorrente entre as comunidades indígenas.

LEGENDA AQUIII

Lauhã Kamayurá deixou o Xingu há 15 anos, mas volta uma vez por ano para visitar a família

deixou o Xingu há 15 anos, mas volta uma vez por ano para visitar a família

Para Lauhã, “é preciso ocupar esse espaço para entender e se proteger da sociedade não-indígena, mantendo na consciência quantos dos nossos ancestrais já morreram nessa luta”. Tanto Lauhã quanto Jafe acreditam, portanto, que estar na universidade é uma forma de dar continuidade à batalha em defesa da existência, da identidade e dos direitos de seus povos.

E eles não são os únicos que pensam assim. Há inclusive um discurso, ainda não tão popular, que define o lápis e o papel como os novos instrumentos de guerra do índio moderno. “Índio não, indígena!”, corrige Jafe. “Vocês, não-indígenas, podem nos chamar também de povos originários do Brasil ou simplesmente pelo nome de nossa etnia”. Faz sentido. Se recordarmos as aulas de história, os europeus chegaram ao Brasil por acidente, o destino final era a Índia. Já o termo indígena significa pessoa natural do lugar em que habita. “Fora o estigma que a palavra índio carrega, como se fossemos atrasados e preguiçosos”, alerta o estudante de Direito.

O ingresso na universidade

De 2010 a 2016, cresceu 255% o número de indígenas matriculadas/os no ensino superior brasileiro, conforme dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). É uma consequência da Lei de Cotas (lei 12.711), implantada em 2012, que obriga as universidades federais a reservarem vagas para pardos, negros e indígenas de escola pública  – 99% dos indígenas estudam em escolas públicas, segundo o Ministério da Educação (MEC).

Na UFSC, desde 2008 um programa de ações afirmativas prevê cotas raciais e, atualmente, entre os 40 mil estudantes da instituição, 68 pertencem a etnias nativas do país (57 na graduação e 11 na pós-graduação). Eles ingressaram majoritariamente através das 22 vagas reservadas pelo programa a estudantes indígenas. Por reconhecer as distinções do ensino nas aldeias e quilombos, a universidade passou a organizar um processo de seleção diferenciado que ainda está em fase de aprimoramento.

Em 2017, candidatos foram selecionadas/os por meio da análise do histórico escolar e o Conselho Universitário definiu que no próximo ano haverá uma prova específica. Desde 2011, a UFSC oferece mais 45 vagas para o curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, exclusivas para nativos das etnias Guarani (ES, RJ, SP, PR, SC, RS), Kaingáng (SP, PR, SC, RS) e Laklãnõ-Xokleng (SC). O intuito é que elas/es regressem às aldeias como professoras/es especialistas em educação indígena, cujo ensino diferenciado busca cultivar a tradição de cada povo.

A adaptação

Além da natureza amazônica, Jafe sente saudades de visitar as bibliotecas vivas de sua comunidade: os anciões. Na cultura indígena em geral, a oralidade é algo onipresente, afinal é por meio da fala que os mais velhos transmitem as histórias e os conhecimentos às novas gerações. “Quando estou lá, vou sempre a casa da minha avó e a encho de perguntas, e sei que meus filhos e netos farão o mesmo comigo”, conta Djeison Gakran, estudante de Odontologia que também saiu de sua aldeia para estudar na UFSC. Ele está no segundo semestre do curso e sente dificuldades com o vocabulário usado em sala de aula. “Aqui se usa muitos termos técnicos e às vezes me perco. Tenho que anotar tudo e pesquisar em casa”.

Djeison pertence ao povo Laklãnõ-Xokleng que, assim como outras 274 etnias indígenas no Brasil, tem sua própria língua, o que torna comum a dificuldade deles com a linguagem acadêmica ou até mesmo com o idioma português. Simoniel Patté também é Laklãnõ-Xokleng e sentia esse embate quando ainda morava na aldeia. “Alguns profissionais iam até a nossa comunidade e usavam muitas palavras técnicas que os nossos líderes não conseguiam assimilar. Aqui na universidade estou aprendendo esse conhecimento do não-indígena e vou poder ajudá-los ao voltar”. Simoniel está no quarto semestre de Engenharia Civil da UFSC.

Thairaa Antonia Pripra é caloura de Direito e chegou em Florianópolis no começo de 2017. “Senti falta de uma acolhida. Alguém que me explicasse a trajetória. Não só moradia, mas saber como chegar no meu curso, como ir a biblioteca, como entrar no restaurante universitário… Nisso quem me ajudou foram os meus parentes”, ela conta. Parentes é como os povos originários referem-se aos outros indígenas, independente da etnia.

Thairaa, Djeison e Simoniel cresceram em José Boiteaux, município catarinense do Vale do Itajaí que abriga os únicos Laklãnõ-Xokleng do mundo. Eles são pouco mais de 2 mil e vivem na região há mais de 300 anos, cercados pelas montanhas da Mata Atlântica e banhados pelo Rio Itajaí-Açu. Hoje, suas casas são de alvenaria, todas possuem fogão a lenha e ficam a cerca de 100 metros de distância uma da outra. Há uma única rua principal de chão batido e que conecta as nove aldeias da comunidade. Não tem semáforo, faixa de pedestre ou placas de trânsito. “A gente não tem data ou hora para fazer as coisas. Como hoje, combinamos um horário e eu vim para a entrevista. Se fosse lá, era só vocês aparecerem em casa para a gente conversar”, relata Simoniel.

Em seu povoado, Lauhã sente o tempo passar de maneira mais tranquila. Para ele, um dia na aldeia rende mais que dois dias “aqui fora” e ainda sobra tempo para dormir à tarde e jogar futebol. “As obrigações lá são genuínas, sem pressa. A gente trabalha para comer, para sobreviver”, explica. A rotina singela pode até ser uma semelhança entre os Laklãnõ-Xokleng e os Kamayurá. De resto, os 305 povos originários do Brasil têm costumes e hábitos distintos que foram se moldando conforme as transformações sociais dos últimos séculos, assim como em qualquer outra cultura ao redor do globo. Por isso, há a preocupação em resgatar e conservar as singularidades de cada etnia. “E a gente tem que usar a tecnologia ao nosso favor”, aponta o estudante de Geografia.

A identidade indígena

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Ítalo Mongconãnn é estudante de Cinema e não pretende retornar a aldeia após se formar.

Há três anos, Ítalo Mongconãnn, Laklãnõ-Xokleng, ingressou na UFSC para cursar cinema e já chegou a receber comentários questionando sua identidade indígena por gostar de usar roupas de marca e ter celular. Recorda-se de uma antropóloga o definiu como um “índio confuso” graça ao seu estilo de vida considerado urbano. Ele não pensa em voltar para aldeia depois de formado, mas quer continuar defendendo a história de seu povo por meio de suas produções audiovisuais.

Lauhã acredita que privar os indígenas da tecnologia fere a individualidade de cada ser humano, além de ser uma visão atrasada, de 500 anos atrás e que ainda hoje é disseminada. Um exemplo é a comemoração do Dia do Índio nas escolas, quando as crianças fazem cocar de folha sulfite e pintam o rosto.

Para celebrar essa data de outra forma, Brasília sedia há 14 anos no mês de abril a maior mobilização indígena do país, o Acampamento Terra Livre (ATL), onde representantes de várias etnias promovem atividades para discutir as atuais demandas dos povos nativos. A edição de 2017 bateu o recorde de participação, com 4 mil indígenas, e o ápice do evento foi no dia 25 de abril, quando tentaram levar mais de 100 caixões até a Esplanada dos Ministérios em protesto às mortes de suas/seus parentes, mas foram impedidos violentamente pela polícia.

O estudante Simoniel estava lá. “Mesmo com as balas de borracha, spray de pimenta e gás lacrimogêneo, ficamos juntos e não corremos”, contou. O protesto foi transmitido ao vivo pelo Facebook e, no total, a cobertura online do ATL alcançou 8,5 milhões de pessoas de vários países. “Hoje, o mundo conhece mais da luta dos povos indígenas no Brasil”, concluiu a organização em uma publicação no site do evento.

Permanência: “você entra se quiser, e se você tiver condições de se manter aqui”

Simoniel acredita que a persistência que eles mantiveram no ato, mesmo com a repressão policial, deve ser mantida dentro da universidade. “São formas de luta diferentes, mas precisamos dessa garra para nos formar”, conta. No primeiro semestre de 2016, ele e outros alunos indígenas se instalaram em um prédio, perto do Restaurante Universitário, que foi apelidado carinhosamente de maloca. A princípio, ficou acordado com a universidade que eles ficariam lá por dois meses. Porém, em maio do mesmo ano, a gestão da reitoria mudou e, na primeira semana de seu mandato, o novo reitor, Luiz Carlos Cancellier, recebeu os indígenas em seu gabinete e anulou a carta de despejo. Atualmente, o alojamento improvisado abriga 12 alunos e serve de ponto de encontro entre os indígenas. No entanto, eles querem ser transferidos para um local com mais estrutura e que suporte mais gente. “A universidade abre as portas, né? Você entra se quiser, e se você tiver condições de se manter aqui, você fica”, provoca Djeison.

Todo indígena aldeado – criado na aldeia – que ingressa no ensino superior federal tem direito ao Programa de Bolsa Permanência (PBP) oferecido pelo governo. O portal online do MEC divulga que “para os estudantes indígenas e quilombolas, será garantido um valor diferenciado igual a pelo menos o dobro da bolsa paga aos demais estudantes, em razão de suas especificidades com relação à organização social de suas comunidades, condição geográfica, costumes, línguas, crenças e tradições, amparadas pela Constituição Federal”.

Para se inscrever, o candidato precisa de três declarações: uma onde ele se declara indígena, outra que deve estar assinada pelas lideranças tradicionais de sua comunidade afirmando seu pertencimento étnico e a última deve ser concedida pela FUNAI, confirmando sua residência na aldeia. Porém, o cartão benefício pode levar até 90 dias para chegar. Por conta dessa demora, Jafe conta que ficou dois meses sem receber o auxílio de R$900, “Se a gente não retira o dinheiro mensalmente, ele expira. E como eu ainda não tinha o cartão, não consegui sacar”.

A UFSC também oferece assistência alimentícia e financeira aos indígenas. No ato da matrícula, eles ganham isenção no Restaurante Universitário e auxílio moradia no valor de R$ 250. Entretanto, Simoniel Patté lembra, “se manter aqui é um gasto, mas não é tudo. Não adianta só pagar moradia e bolsa. Eles não aguentam. A maioria nunca nem viu cidade grande”.

Ofensas e preconceito

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Por duas vezes, os estudantes indígenas da UFSC sofreram dezenas de ofensas racistas de outros alunos da instituição nas redes sociais. As denúncias foram encaminhadas para o Ministério Público Federal, porém esses comportamentos não ficam só na internet e os acompanham no cotidiano universitário. “Tem umas piadinhas que não incomodam tanto, são pessoas com falta de informação. Elas perguntam o que a gente come. Comida, ué”, brinca Jafe.

A Universidade Estadual de Londrina (UEL) oferece um curso preparatório de um ano para os alunos indígenas, assim eles têm mais tempo para se adaptar ao ambiente universitário enquanto aprimoram sua base escolar antes de começar o ensino superior. Já na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), há uma recepção de boas-vindas no dia da matrícula, onde são explicadas as estruturas acadêmicas e os benefícios aos quais eles têm direito. Um desses benefícios é o amparo de um bolsista que vai ajudar e acompanhar o indígena no seu dia a dia acadêmico. Porém, todo tipo de assistência deve ser pensadas em conjunto, entre a UFSC e os estudantes indígenas, como defende Lauhã: “Precisamos do debate. A universidade tem que ouvir a gente para criar de fato”.

Com a posse do reitor Cancelier, também foi criada a Secretária de Ações Afirmativas da Universidade Federal de Santa Catarina (SAAD), departamento responsável pelo acesso e permanência dos indígenas na instituição. “Há oito anos inserimos as vagas suplementares no vestibular da UFSC, mas só ano passado foi criada uma secretaria exclusiva para isso. Já estamos em contato com outras universidades que possuem políticas de inclusão específicas para alunos indígenas e vamos nos basear nelas para implantar melhorias aqui, mas é um processo que demanda tempo. É um trabalho de formiguinha”, explica Marcelo Tragtenberg, diretor administrativo da SAAD.

“Nós estamos lutando não por nós, mas pelos outros que ainda vão vir. Eu mesmo já pensei em desistir, mas atrás de mim tem todo um povo”, conta Simoniel. Ele e os outros alunos indígenas sentem falta de suporte e receptividade por parte da comunidade universitária. Lauhã compara a situação com a vinda de intercambistas de outros países. “Quando o estudante estrangeiro chega na universidade, existe uma preocupação geral em integrá-lo, o que não acontece com a gente que também chega aqui com uma bagagem cultural diferente”. Em resposta, os próprios alunos indígenas estão organizando palestras, exposições de filme e rodas de conversa na UFSC para convidar os professores, servidores e demais estudantes a se aproximarem da realidade dos povos nativos do nosso país.

A palavra universidade vêm de universalidade e significa aquilo que abrange todos os conhecimentos. Se fossemos interpretá-la literalmente, seria um espaço de acolhimento e interação entre todos tipos de saberes. O indígena não deve vir só para aprender, mas também para ter suas vivências e tradições ouvidas e consideradas pelos que lhe são diferentes.

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