Florianópolis, 28 de junho de 2017
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O exemplo que FARC e governo colombiano podem dar ao mundo em resolução de conflitos

Por João Gabriel Almeida

Na noite do dia 28 de dezembro, em La Elvira, zona rural próxima à cidade Cali, Charrito Negro canta para um público emocionado com sua presença. Jovens, velhos, mulheres, crianças, na sua maioria camponesas, indígenas e negros, dançam e tentam tirar “selfies” com um dos artistas mais populares da Colômbia. Todos celebrando o fim do conflito armado colombiano, país de democracia mais antiga da América Latina, mas que já perdeu mais 260 mil vidas com a guerra, teve 7 milhões de cidadãos deslocados a força de suas casas e contabiliza quase 45 mil desaparecidos.

Grande parte dessas pessoas que se divertiam, descontraídas com o som de Charrito, na manhã do dia anterior, se despediam de seus fardamentos e fuzis, fazendo a última formação em armas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP), que firmou acordo de paz há seis meses, em 30 de novembro de 2016. O evento celebrava também o 53º aniversário da organização política colombiana, o último como guerrilha armada.

Transição para a vida civil e direitos sociais

Ainda que parte da opinião pública os encarem como narcotraficantes, para os 7 mil guerrilheiros em listas oficiais e incontáveis milicianos e apoiadores que se espalham por todo país, este partido significou sua razão de vida. Agora deixam as armas para cumprir o acordo de paz que levou quatro anos para ser construído entre FARC-EP e o governo colombiano. O chamado “Acordo de Havana”, mediado e sediado por Cuba, trata de temas como reforma agrária, garantia de participação política às FARC-EP como um partido legalmente constituído, medidas de substituição dos cultivos de drogas ilícitas no país e uma política para a transição da vida clandestina para a civil das/os guerrilheiras/os. 

Esta quinta-feira (1º), o 180º dia acordo, esgotava o prazo para o desarmamento, que foi estendido por mais 20 dias na última segunda-feira (29) por conta de entraves jurídicos. Para se ter noção do impacto internacional desse momento vivido pela Colômbia, basta dizer que o presidente Juan Manuel Santos recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 2016. Filho de família histórica na política colombiana, Santos foi o 4º presidente a iniciar negociações de paz.

A guerrilheira Tanja Nijmeijer

A Colômbia é um dos países mais desiguais do mundo. É também um país onde, segundo estudos da Organização das Nações Unidas (ONU), 52% das propriedades rurais está nas mãos de 1,15% da população. A vulnerabilidade socioeconômica e a violência no campo, no entanto, não são o único motivo de ingresso dos colombianos na vida armada. Tanja Nijmeijer (Alexandra Nariño, na clandestinidade) é uma holandesa que estudava filologia hispânica quando conheceu as FARC-EP e decidiu abandonar seu país para se somar a esta organização no ano de 2002. Em uma ação militar em 2007, o exército conseguiu seu diário pessoal. A exposição pública dos relatos de Tanja a transformaram em um personagem mundialmente conhecido como a única européia da guerrilha.

Em 2012, Tanja passa a integrar a comissão que negociaria os termos dos acordos de paz com o governo colombiano, tendo trabalho destacado na discussão de gênero e no relacionamento das FARC-EP com outros países. Terminadas as negociações em Havana, ela regressa a sua vida cotidiana para se somar a “Zona de Transição de La Elvira”, uma das principais zonas de concentração oficiais dos membros da guerrilha.  Os acordos de Paz preveem zonas de transição que são onde devem ficar as/os guerrilheiras/os até que todos os aspectos judiciais do reingresso à vida civil sejam resolvidos.  A partir de 1º de agosto, estas áreas devem se converter em “Espaços de Territoriais de Capacitação e Reincorporação”, e servirão para preparar os ex-guerrilheiros para voltar à vida civil, organizando projetos produtivos e formações técnicas para o futuro trabalho.

A história tão singular da holandesa fez com que o acordo que garante visto para todos os estrangeiros das FARC-EP tenham sido nomeado como “Decreto Tanja”. Tivemos a oportunidade de entrevistá-la para conhecer um pouco mais dessa história e saber suas perspectivas sobre os acordos de paz na Colômbia.

MARUIM: Como você se sente no 53º aniversário das FARC-EP neste momento de mudanças políticas e sociais que a guerrilha vem passando com o processo de paz?

Tanja Nijmeijer: Este aniversário é muito importante para todos nós, guerrilheiros e guerrilheiras, comandantes e combatentes das FARC, porque como sabemos que é o último aniversário das FARC em armas. Vivemos em um contexto político de processo de paz, de entrega de armas.

Mas também temos de ser muito críticos com o que está acontecendo agora com a implementação dos acordos, problemas legislativos e também aqui nos territórios, na prática. Nesse sentido, o último aniversário das FARC em armas… Eu acho que, se fosse seis meses atrás, teria sido motivo de uma grande alegria, uma grande abertura para um novo futuro para todos e todas nós. Digamos que se via muitas perspectivas de poder estudar, ter uma família, seguir lutando para alcançar as metas que sempre tivemos, que não mudam, nós seguimos lutando.

Mas agora a situação se transformou um pouco, depois de todos os descumprimentos do governo. Isso não quer dizer que perdemos o ânimo, o moral. Seguimos lutando, brigando. Nunca ninguém disse que ia ser fácil.

Neste aniversário o que queremos é mostrar que estamos imersos nas massas, com a população, em todas as ‘Zonas de Transição’, que são 26 no país. Vão acontecer grandes atos, com música, danças, teatro. E vai vir muita gente. Algumas pessoas que sempre nos apoiaram. Outras que são novas nesta história e vêm pela primeira vez conhecer a guerrilha. Isso é importante para mostrar para a Colômbia e o mundo que o conto de que ninguém gosta da guerrilha vai se desfazendo por si só. Isso é bonito, muito importante neste aniversário.

MARUIM: Fora da Colômbia há muita campanha de difamação. Como você acha que se pode ligar com isso internacionalmente?

Tanja Nijmeijer: Eu sigo principalmente a imprensa europeia e penso que a imprensa estrangeira, em grande medida, tem feito eco ao que diz a imprensa colombiana. Foram muito poucos jornalistas que realmente vieram aqui e nos procuraram.

Agora sinto que cada vez mais vêm jornalistas estrangeiros para ver o que acontece. É importante, para que deixem de ser uma caixa de ressonância dos meios colombianos. Se anteriormente tinham a desculpa de não vir procurar a guerrilha porque era perigoso, porque estávamos em guerra e poderia cair uma bomba em cima, já não existe essa desculpa.

As ‘Zonas de Transição’ estão abertas para todos os jornalistas e eles podem vir aqui conhecer a realidade. Só precisa que os meios tenham vontade de refletir a realidade que vivemos, que não continuem presos a mentiras inventadas muitos anos atrás.  Isso acontece em todos os conflitos do mundo. Nota-se também no conflito entre Israel e Palestina, por exemplo, a desumanização do inimigo. É necessário para levar a guerra e vencê-la, e convencer a população de um país que o inimigo são uns animais, sem alma, que só fazem coisas ruins para poder justificar a guerra. Mas não tem mais essa necessidade. Os meios agora podem cumprir outro papel.

MARUIM: Aproveitando, então, pra você, que são as FARC?

Tanja Nijmeijer: Bom, somos um movimento que sempre foi político-militar e agora estamos fazendo uma transição em direção a um movimento político. Uma guerrilha que se levantou em armas como um meio de defesa. Uma guerrilha autenticamente camponesa. Apesar de termos alguns universitários, a grande maioria aqui são camponesas e camponeses. E tem sido um movimento de autodefesa desde o princípio. Foi assim que surgiu em 1964.

Depois esteve imersa em uma guerra bastante cruel ao longo dos anos, em que muitos fatores foram degenerando o conflito. Em primeiro lugar está o fator do paramilitarismo, que foi o gatilho para desumanizar o conflito. Também o narcotráfico que degenerou bastante.

Mas o que eu digo é que durante todos esses anos, desde 1964 até hoje, as pessoas que falaram que as FARC perderam o horizonte político é porque não nos conhecem realmente. Porque aqui, apesar dos erros cometidos, apesar das coisas que acontecem na guerra, sempre tivemos claro por que e por quem lutamos. Para melhorar as condições em Colômbia, para as pessoas. Isso é para mim as FARC. Um exército que nasceu como autodefesa contra um regime criminoso e que atualmente está com toda vontade de seguir essa luta por meios pacíficos.

MARUIM: A conjuntura internacional e, particularmente, regional mudou muito desde o inícios dos diálogos de paz. Como é a perspectiva das FARC, agora na vida civil, para chegar ao poder nesse novo cenário?

Tanja Nijmeijer: É uma conjuntura internacional de cada vez mais conflito e guerra. A resposta à violência é cada vez mais a violência, e não uma violência nascida ‘desde baixo’, mas ‘por cima’, que impõe essa violência para apaziguar os protestos. É o que está acontecendo a nível mundial.

As FARC e o governo colombiano – não podemos excluí-lo – somos um exemplo. (Risos). É um pouco falta de modéstia dizer isso, mas sim, podemos ser um exemplo ao mundo para dizer: ‘veja outra forma de solucionar um conflito que durou muitíssimos anos, que produziu muito sofrimento na população colombiana, olhem como nós solucionamos!”. É importante que isso dê certo para dizer ao mundo que há outras formas também.

Por isso é tão importante que a comunidade internacional apoie esse processo com mais determinação. Vemos certas manifestações de apoio mas poderíamos esperar mais de um mundo em que muitas vezes o conflito parece ser a única solução. e queremos outra coisa, se a ONU, a União Europeia, os países do mundo, querem outra forma de solucionar conflitos – e tem o exemplo – por que não se empenham mais em acompanhar a implementação dos acordos por aqui? Por que tem tão pouquinho dinheiro disponível para implementar os acordos? A gente se pergunta…




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