Florianópolis, 28 de junho de 2017
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As videolocadoras estão acabando, mas como ficam antigos donos e clientes?

Por Carolina Maingué

O adeus às lojas físicas se tornou inevitável diante dos práticos e baratos catálogos de vídeo por demanda, que apesar do crescimento carecem de regulamentação

Na volta do trabalho, parar na locadora Star Filmes, em Santo Antônio de Lisboa, e escolher algum DVD para desfrutar do merecido descanso pós expediente. No dia seguinte, ou quando terminava o período de locação, devolver o filme, já de olho nos próximos a serem locados. Essa sequência se repetia cerca de 3 vezes por semana, às vezes até mais, na rotina de Silvia Wolf Lemos, moradora da região. Como ela, outros clientes dos bairros próximos, Sambaqui e Cacupé, realizavam o mesmo percurso.

A Star Filmes, que hoje não existe mais, rendeu a Thiago Jim Freitas, seu dono por quase 17 anos, o status de “o cara da locadora” em diversos momentos, inclusive durante os shows de rock dos quais participa como baixista, e que aumentaram de frequência a partir do fechamento da loja. A locadora deu lugar ao que hoje é o “Titu’s Place”, empreendimento com foco na culinária, embora algumas prateleiras de DVDs disponíveis para locação ainda remetam a um pouco do que foi a história do estabelecimento.

A loja de Thiago até que se sustentou comercialmente por bastante tempo se comparada à maior parte do cenário florianopolitano, e inclusive nacional, do aluguel de filmes. Dados divulgados pela União Brasileira de Vídeo (UBV) apontam que, entre 2003 e 2005, havia quase 14 mil locadoras no Brasil, e que esse número caiu para seis mil em 2009. O antigo dono da Star Filmes diz que, por cima, deve ter conhecido umas 100 locadoras que fecharam, nos últimos dez anos, na cidade. Há cerca de um mês, a última unidade da Videoteca, empresa que possuía franquias em quase todos os bairros de Florianópolis, parou de funcionar. A unidade era localizada no supermercado Angeloni do bairro Capoeiras.

É inegável o quanto esse processo foi influenciado por catálogos como a Netflix, que faz parte da nova era tecnológica dos serviços de vídeo por demanda (VOD, do inglês video on demand). A provedora, inclusive, ajudou a desbancar a maior rede de locadoras do mundo, a estadunidense Blockbuster. A empresa foi vendida em 2013, mas desde 2007 já havia extinguido todas as suas lojas no Brasil em função do avanço dos VOD.

A Netflix não carrega sozinha a culpa do fim, embora seja considerada o terror dos donos e donas de locadora pelo mundo afora. Segundo Thiago, muitos fatores contribuíram para o desgaste das locações cinematográficas. O primeiro susto que tomou foi com a Copa do Mundo de 2006. Na época, o filme A Era do Gelo 2 havia sido lançado, e a Star Filmes tinha adquirido 15 ou 16 cópias. Apesar disso, antes do jogo em que o Brasil perdeu para a França – e que Thiago confessa ter gerado uma pontinha de alegria, pelo bem dos seus negócios -, nenhum DVD tinha sido locado. Por isso, quando o Brasil foi anunciado como hospedeiro da Copa do Mundo de 2014, o dono já começou a prever o fim do estabelecimento.

Thiago Jim Freitas, ex dono da locadora Star Filmes, abateu parte da venda da loja para ficar com 1500 exemplares do antigo catálogo. Os filmes estão numa estante pessoal no seu apartamento

Thiago Jim Freitas, ex dono da locadora Star Filmes, abateu parte da venda da loja para ficar com 1500 exemplares do antigo catálogo. Os filmes estão numa estante pessoal no seu apartamento.

Palpite certo, em 2014 só a locação de filmes já não era suficiente para pagar as despesas, que consistiam no aluguel, conta de luz, um contador, uma funcionária e o acervo. A Star Filmes, então, virou Star Filmes Café e Creperia, por sugestão do cliente da locadora e dono da pizzaria Paparella, famosa casa de massas de Florianópolis. Em 2016, houve a última tentativa de reinvenção ainda sob o comando de Thiago, e a Star Filmes Café e Creperia se tornou Titu’s Place.

“Titu” é apelido de Thiago. Todavia, a clientela não inferiu essa ligação logo de cara, o que o ex-dono considera um dos principais motivos para o insucesso do negócio. Segundo ele, a partir da mudança, a locação caiu 90% de um número que já era baixo:

– Depois que virou Titu’s Place, acabou. Eu sempre imaginava que as pessoas ainda locavam filme pelo link pessoal, não que donos de locadora sejam pessoas de outro mundo, mas pelo nível de amizade, contato (…) As pessoas, antes, por mais que não fossem [à locadora], sabiam que eu estava ali. A partir do momento que mudou o nome, por mais que eu estivesse ali, o link das pessoas mudou.

Esse vínculo afetivo é uma das coisas de que Silvia, ex-cliente, relata sentir mais falta. Ela ressalta o papel social que a locadora cumpria no bairro, permitindo às pessoas se encontrarem e falarem sobre os filmes. Para quem frequentava a Star Filmes pelo menos três vezes por semana, fora sábado e domingo, hoje Silvia não tem mais nem aparelho de DVD em casa. Acabou se “rendendo à praticidade” das provedoras Netflix e Net Now, que também possuem a vantagem de saírem mais em conta. Entretanto, a ex-cliente confessa achar “uma pena” o fim das locadoras, especialmente pela qualidade inferior dos filmes disponibilizados nos catálogos por demanda.

Regulamentação dos Catálogos por Demanda

Embora a praticidade e o menor preço dos VOD tenham feito esses provedores avançarem significativamente no mercado, o sistema carece de regulamentação. Segundo a Agência Nacional de Cinema (Ancine), a participação dos catálogos por demanda na economia brasileira cresceu 66% entre 2007 e 2013. Dados do órgão também revelam que o número de pessoas que acessam esse serviço ao menos uma vez por dia foi de aproximadamente 30% para mais de 50%, de 2010 para 2015, entre usuários de banda larga. Diante desse cenário, estudiosos da área de comunicação têm discutido, juntamente com a Ancine, leis para estabelecer a justa concorrência do vídeo sob demanda em relação ao resto do setor audiovisual.

Em abril desse ano, a Ancine elaborou uma notícia regulatória em que destaca alguns pontos importantes para que os serviços audiovisuais possuam isonomia de mercado, isto é, não tenham vantagens nem desvantagens legais em relação a seus concorrentes. Um desses pontos é a cobrança de impostos. Atualmente, os VOD têm que pagar uma taxa referente a cada produto disponível no catálogo. O documento defende que a arrecadação ocorra em cima da receita total dos provedores, incluindo o ganho com publicidade, além de defender a publicização dessa receita. A desvantagem para os consumidores é que os serviços podem se tornar ligeiramente mais caros.

Outro aspecto central para a regulamentação seria a contribuição para as produções audiovisuais brasileiras e para as produções audiovisuais brasileiras independentes. Atualmente, todo o setor de áudio e vídeo, com exceção dos VOD, está sujeito à Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (CONDECINE), que de acordo com a notícia regulatória também deveria passar a incidir sobre os provedores por demanda. No documento, a Ancine ainda debate que esses provedores, muitos deles empreendimentos internacionais, devem reservar um espaço em seu catálogo para as obras nacionais e nacionais independentes, atribuindo-lhes certo destaque, o que é uma forma de fomentar o trabalho de cineastas, produtores e comunicadores brasileiros.

Difícil dizer se o desfecho das videolocadoras teria sido outro caso os catálogos de filme por demanda tivessem sido regulados desde que começaram a se tornar populares no país. Thiago, ex-dono da Star Filmes, acredita que a Copa do Mundo, a mudança de nome do estabelecimento, a pirataria e principalmente o WhatsApp foram outros motivos para que sua loja fechasse. Segundo ele, nada foi tão crucial quanto o aplicativo de mensagens.

– Quando os smartphones tiveram força e o WhatsApp começou a virar coisa do momento, desandou mesmo (…)  porque as pessoas começaram a perder muito tempo no celular, tempo que elas tinham pra ver filme. Se for colocar (alguém) de culpada, foi a internet, mas onde as pessoas mais perdiam tempo era no whatsApp. Aí, através do celular mesmo, elas começaram a baixar os filmes, e o negócio todo juntou e desandou.

Para Além do Dinheiro

O lamento do ex-dono pelo fim da Star Filmes não se limita a uma questão comercial. Thiago é músico, integrante da banda Ton Rock – cujo gênero musical tocado é informado já no nome do grupo. Como artista, depositava nos filmes que disponibilizava para locação todo o amor que nutre pela arte e pela cultura. Não à toa, quando o estabelecimento, já com o nome de Titu’s Place, foi vendido, o comerciante abateu parte do valor em troca de poder ficar com 1500 filmes existentes no acervo.

Os filmes que manteve são quase todos clássicos do cinema, os mesmos que, durante os anos em que a locadora ficou aberta, foram um diferencial para muita gente escolher frequentar a Star Filmes. Para além dos super lançamentos e produções comerciais, o lugar tinha um grande número de obras “cult” e alternativas. A sessão “cult” da loja, que possuía títulos, em sua maioria, não disponibilizados pelos catálogos de vídeo por demanda, é considerada pelo ex-dono uma das causas para que o estabelecimento se mantivesse aberto por tanto tempo, ao passo que muitas outras videolocadoras já estavam em processo de despedida.

– A gente tinha um canto de pornô, e eu não achava legal, não achava que me trazia o que eu queria na minha loja. Aí, um dia, eu tirei e pensei: “ah, oq vou colocar lá dentro?” (…) Aí eu tava atendendo uma pessoa aquele dia e ela me pediu Blade Runner, e eu disse: “a gente não tem filme antigo porque não tem procura”. Aí eu notei que já tinha respondido aquilo 200 vezes, então eu pensei “Não, não tenho filme antigo porque não tenho!”.

A partir daí, surgiu a determinação para comprar os filmes clássicos. Determinação que, aliás, era aplicada em outros aspectos da locadora, como na arrumação do acervo. Não só todas as plaquinhas de “locado” tinham que estar na mesma altura para fora do plástico dos DVDs, como a disposição das obras seguia uma progressão que ia do terror ao romance, passando pelos gêneros suspense, policial, ação, aventura, faroeste, comédia, comédia romântica e drama. A ordem era exatamente esta, na tentativa de que os clientes possuíssem um “caminhar pela loja” que fizesse sentido. Assim, de Jogos Mortais, não se passava imediatamente para PS Eu te Amo. Thiago também organizava os títulos de acordo com os atores principais, e não esquece de como Onze Homens e um Segredo sempre dava problema em função dos onze protagonistas.

Essas “manias”, que alguns dos funcionários viam como obsessão, foram herdadas do gosto pela matemática, uma vez que Thiago sempre teve simpatia pelos números. Mas o cinéfilo confessa que já chegou a duvidar de sua sanidade mental, até que assistiu a um filme que o fez se sentir identificado. O filme é um dos 1500 abatidos da venda da loja. Trata-se do único da estante pessoal que não é um clássico do cinema: Bob Esponja Calça Quadrada. O carinho pela animação é tanto que Thiago não conseguiu vender os exemplares da coleção nem a uma mãe que implorou para poder dá-los de presente ao filho. O apego ao desenho, cujos personagens principais vivem se metendo em confusões decorrentes de sua inocência, veio justamente porque o músico confessa estar sempre pensando “abobrinha de criança”.  

 – Toda vez que eu pensava que eu não pensava, eu pensava que já tinha pensado naquele pensamento e não conseguia chegar mais depressa que o final da história. Aí uma vez eu tentei pensar antes do pensamento vir e falei “meu, eu vou ficar doente”. E tem um episódio do Bob Esponja em que ele fica tentando pensar que não está pensando, aí veio a ideia de “meu, eu me identifico com essa parada!” 

Apesar da dificuldade financeira pela qual Thiago passou com a locadora nos últimos anos, sua expertise e habilidade com números o ajudaram na recuperação. Embora fechar as portas do estabelecimento tenha causado tristeza inevitável, o fim da Star Filmes não trouxe ao ex dono o desespero de não conseguir encontrar outro caminho profissional, pelo fato de enxergar na música a possibilidade de continuar contribuindo para a disseminação da arte. A saudade é constante, em função de toda a dedicação empregada no negócio e do “apelo vintage” que as tecnologias possuem quando se deixam serem passadas para trás pelo tempo. Entretanto, Thiago é otimista. Sobre seus 17 anos como dono de uma videolocadora, conclui: “Eu fiquei com a parte boa. Fiquei com os filmes que me representam.”




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