Florianópolis, 22 de setembro de 2017
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Ato unificado por eleições diretas é marcado por violência policial e divergências

Reportagem:

Reportagem: Anderson Dias Silveira 

Fotos: Luara Wandelli Loth e Marcelo de Franceschi

“Não renunciarei, sei do que fiz e sei da correção dos meus atos”, disse o presidente Michel Temer (PMDB) em pronunciamento por volta das 16h de ontem, 18/05, em Brasília. As palavras não foram suficientes para conter os protestos. Por volta das 17h a concentração de uma das principais manifestações de Santa Catarina ocorreu nas imediações do Terminal de Integração do Centro (TICEN) de Florianópolis. Isso em menos de 24 horas após a notícia que fragilizou o governo e foi o estopim para atos por “diretas já” e pelo “fora Temer” em todo o país.

Os organizadores afirmam que cerca de 10 mil pessoas participaram do ato em Florianópolis, segundo informações da Polícia Militar (PM) foram quatro mil. Divergências sobre os rumos do protesto e de concepções políticas vieram à tona em alguns momentos do protesto, além de ações violentas da PM que também marcaram o evento.

Logo no início da marcha os manifestantes se dividiram, a maior parte seguiu no sentido da Avenida Paulo Fontes e um grupo menor mudou o rumo e se dirigiu às pontes. Instantes depois da divisão o grupo dissidente foi disperso pela PM, muitas pessoas fugiam das bombas e da cavalaria, outras buscavam abrigo. Nesse momento o professor de história, Vinicius Possebon Anaissi, foi preso. “Eu estava acompanhando o avanço da galera quando notei que a polícia estava dispersando o pessoal. Vi umas meninas apanhando nas costas enquanto saiam, parei e tentei ajudar elas (…) eu acabei ficando mais para traz e o oficial já apontou pra mim e falou: ‘pega esse ai’”, conta Vinicius. A repórter do Maruim, Karina Ferreira, foi agredida no instante em que tentava filmar a prisão. Levou um tapa no rosto e perdeu os óculos com o impacto do golpe.

Da prisão à assinatura do termo circunstanciado. “Fui detido de forma arbitrária, sob uma acusação falsa, com o trato truculento, mas sem nenhuma violência física relevante”, escreveu em uma rede social o professor de história. Vinicius disse que não foi revistado e que foi escolhido aleatoriamente no meio da multidão. “Foi daquelas famosas detenções pra ‘mostrar serviço’, policial me elegeu no meio da galera pra afirmar que eu estava ‘atirando pedras na tropa’ e a única coisa que ele precisa fazer é dizer ‘eu vi’ e mandar prender”.

A acusação é de que Vinicius atirou uma pedra no tenente-coronel Marcelo Pontes. Pontes é o comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar em Florianópolis, que abrange a área Central, Leste e Sul da Ilha. O comandante, que acompanhou o protesto de perto, não apresentava nenhum sinal de lesão ou ferimento durante a marcha.

Na delegacia um agente ameaçou agredir Vinicius, porém, segundo informações, os outros policiais de plantão se negaram a identificar quem fez a ameaça. A advogada Lorena Duarte, que acompanhou Vinicius, recolheu os nomes dos policiais para eventuais medidas. Vinicius Possebon Anaissi assinou um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) – espécie de registro para um fato tipificado como infração de menor grau ofensivo – e foi liberado. Até o momento a PM não deu sua versão dos acontecimentos.
A marcha seguiu e parte dos dissidentes voltou a integrar o grande grupo. Aqueles que antes decidiram por outro caminho chamavam de pelegos as pessoas – sindicalistas e membros de partidos e movimentos sociais – que auxiliados por um carro de som tentavam coordenar o protesto. Durante o trajeto alguns manifestantes incendiaram pequenos montes lixo pelas ruas, outros tentavam impedir e apagar o fogo. As disputas entre os que tentavam atear fogo e aqueles que queriam inibir a ação eram exaltadas. “Isso me parece sabotagem, esse não é o momento para esse tipo de ação. Vai jogar o protesto contra a opinião pública”, falou Adelar Bazzanela, 65 anos, que depois de alguns constrangimentos e ameaças desistiu de impedir os pequenos incêndios. Os outros envolvidos não quiseram se identificar.

Foto: Luara Wandelli Loth/ MARUIM

Foto: Luara Wandelli Loth/ MARUIM

Quando a passeata seguia pela Avenida Mauro Ramos, em frente à Igreja Universal do Reino de Deus, ocorreu um segundo incidente. As informações são desencontradas sobre a causa do conflito, mas alguns dizem que uma pessoa atirou uma pedra no templo. A polícia respondeu com bombas de gás lacrimogêneo, atingindo manifestantes que passavam pelo local sem oferecer risco. A marcha ficou dividida e muitos correram em direções opostas, levou alguns minutos para o ato continuar. Parte dos manifestantes encerrou o protesto na Avenida Beira Mar e muitos seguiram de volta ao TICEN.

O drible da marcha

A PM acompanhou praticamente todo o trajeto da marcha com viaturas, motocicletas, policias a pé e cavalaria. Sempre tomando à dianteira e controlando as ruas laterais. No momento em que o ato seguia pela Avenida Beira Mar os manifestantes driblaram a polícia e seguiram pela Avenida Othon Gama D’eça, para o delírio de muitos que gritavam: “olé”. Apesar de ter policiais próximos aos manifestantes passando informações por rádio, registrando com fotos e vídeos através de smatphones, as pessoas que estavam na frente do ato surpreenderam a Polícia Militar que precisou corrigir a rota às pressas.