Florianópolis, 23 de agosto de 2017
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Foto: Duda Assunção

Luz, música e ação no combate ao racismo

Reportagem:

Por Talita Burbulhan.

“Treze de maio não é dia de negro”, anuncia Quilombo Axé, uma canção do grupo Afoxé Oyá Alaxé de Pernambuco, para na estrofe seguinte pedir: “irmãos e irmãs, assumam a sua raça, assumam a sua cor”. Apesar de antigo, o apelo ressoa no aqui e no agora, evocando a valorização de um povo que após, exatos, 129 anos de abolição da escravidão ainda enfrenta os grilhões da opressão social sobre a sua pele preta. Afinal, aos/às que não tem tez branca como a da “benevolente” Princesa Isabel, a igualdade de condições e o respeito são uma conquista diária no Brasil de 2017. Hoje, a celebração é em prol dos movimentos negros que pela luta ressignificaram a história fazendo desta data o dia nacional de combate ao racismo.

A música é aliada nesta luta. As que evocam a negritude são resistência e refúgio, em um país, onde a cultura é hegemonicamente branca. Uma das artistas expoentes do empoderamento negro atualmente no país é a cantora soteropolitana Larissa Luz. Desde junho de 2012, quando trocou o posto de vocalista da banda de axé Ara Ketu pela carreira solo independente, a baiana passou por transformações de estilo musical, estética e atitude. Seu álbum mais recente é uma profunda imersão nas questões raciais brasileiras, fazendo jus ao dever do artista de refletir sobre seu tempo e suas situações, definido pela cantora Nina Simone, uma de suas referências. No momento, Larissa segue em turnê do disco Território Conquistado, tem ouvindo Betty Davis, Alo Wala, Buraka, Tyler The Creator e IFÁ e sentindo saudades da comida, das lambretas e do mar da Bahia.

Em sua segunda apresentação em Florianópolis, no mês passado, Larissa Luz contou com a participação especial do também cantor e conterrâneo Russo Passapusso, vocalista da banda Baiana System. O show foi extasiante e literalmente deu um banho no público, quem conseguiu entrar na lotada Casa de Noca se molhou de suor, enquanto os que aguardavam na fila de espera encharcaram-se com a chuva. Do palco emanavam mensagens de identificação para uns e de reflexão para outros. Uma delas anunciava: “A carne mais barata do mercado era a carne negra, agora não é mais!”. Confira a seguir a entrevista com a cantora

MARUIM: Gostaria de saber se é normal a gente chegar no seu show ajeitada, com o cabelo arrumado e a roupa cheirosa, mas voltar pra casa toda bagunçada de tanto pular, pingando de suor e de alma lavada, como foi o meu caso. Pode isso?

Deve (risos)! A proposta é essa mesma! Suar, colocar os “bichos” pra fora, as vontades. Explodir, transbordar, se descolonizar, se movimentar, sentir uma onda de poder quente e cheia de vigor fluindo no corpo! Se foi isso que se passou, é sinal que deu tudo certo!

MARUIM: Suas músicas denunciam o racismo no nosso país. Em um âmbito mais pessoal, poderia dizer desde quando percebeu que ser negra e mulher no Brasil seria uma batalha cotidiana pela garantia de direitos e por respeito?

É difícil pontuar especificamente o momento exato desta tomada de consciência. É um processo. Fui percebendo através de experiências e transformações internas a dura realidade que me cercava. Agucei minha percepção com leitura e referências empoderadoras, para constatar que eu era uma mulher negra e precisava arregaçar as mangas e ir à luta, em busca de respeito, direitos e espaços.

MARUIM: Este ano você completa 5 anos de carreira solo, de lá pra cá dois álbuns foram lançados, MunDança, em 2013 e Território Conquistado, em 2016, que inclusive recebeu a indicação ao Grammy Latino pelo Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. Fazendo uma avaliação sobre esses últimos anos, que territórios você galgou e quais ainda precisam ser conquistados?

Lançar um disco e vê-lo chegar em pessoas de diversos lugares é bom demais. Me faz acreditar no poder de alcance da minha voz. Ir para outros estados e ver as pessoas cantarem as letras, entendendo e apostando no que está sendo dito ali é bem representativo pra mim. Estar ao lado de artistas que respeito e admiro também tem sido uma linda conquista. Guardo cada palavra e cada energia dos encontros que a arte me proporciona. O Grammy foi bem significativo. Quero cantar em terras internacionais e visitar os estados que ainda não fui. Quero gravar outros clipes, escrever um livro, voar e me perder nesse mundão cheio de possibilidades.

3MARUIM: O álbum Território Conquistado possui uma mensagem bem delineada: o empoderamento feminino negro. Tanto é que contou com a colaboração da antropóloga Goli Guerreiro para elaboração do conceito do disco. Diante disso, qual é a tua sensação quando em uma apresentação o público é majoritariamente branco, como foi o caso do seu show na Casa de Noca?

 O disco fala sobre empoderamento feminino negro. Sobre nós mulheres, nossas queixas e constatações, mas falo pra todo mundo. A mensagem é para o algoz, para nós mesmas, para quem se interessa em saber mais de nós de forma franca e respeitosa. Falo pra quem quer participar, se transformar, se perceber dentro do processo todo. Então, sinto contribuir para a transformação social que almejamos, quando vejo um público majoritariamente branco no meu show, prestando atenção e se propondo a entender o que estou dizendo ali. 

MARUIM: Você começou a cantar profissionalmente aos 15 anos, mas para quem acompanha a sua trajetória desde o início, percebe um rompimento nítido. Afinal o estilo musical, a estética e o seu posicionamento são outros hoje em dia. Mas diante de tantas transformações o que não mudou na Larissa Luz?   

Sempre fui inquieta, com coragem de resistência. Desde o inicio, tive a arte como propósito e prioridade. Criar é a minha grande paixão. Comecei a escrever ainda criança, a produzir, a investigar programas de áudio, a dançar, a montar show. Sou tudo isso e fico feliz de poder ser até hoje.

MARUIM: Desde quando você conhece Russo Passapusso e como está se dando essa parceria entre vocês?

Conheço Russo há uns anos! Sempre fui admiradora do trabalho dele. Quando fui fazer carreira solo, o procurei pra gente juntar forças e ele foi super aberto, me deu gás para seguir na batalha arriscando e tentando romper as barreiras impostas pelo sistema. Fizemos um carnaval há 4 anos, ele participou de um dos meus primeiros shows do disco MunDança, no Pelourinho, em Salvador-BA, e desde então vem sempre somando de alguma forma com meus processos. É um amigo verdadeiro que a música me deu! 

MARUIM: Hoje você se considera uma artista do ROCK? Poderia falar o que esse estilo representa para você?

Sempre fui Rock. O Rock me fez ser o que sou. O impulso revolucionário que está por trás do movimento fez aflorar em mim, ainda na adolescência, a atitude e a vontade de nadar contra corrente, de ir além, de transgredir. O rock é peso, é visceral, intensidade. O rock é negro!4