Florianópolis, 21 de outubro de 2017
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Para as ondas do mar, teu mal será levado: a fé e a tradição das benzedeiras em Florianópolis

Reportagem:

Reportagem e fotos: Carol Gómez

É na Barra da Lagoa, em um quartinho de paredes claras com cortina na pequena janela, que Dona Sueli, de 66 anos, faz a sua benzedura. Na mesinha que fica em um dos cantos, estão dispostas imagens de santos que a benzedeira ganhou de pessoas que a visitaram. Quem olha a mesa também vê uma pequena cruz de madeira e uma foto em preto e branco de Tia Benta, antiga benzedeira da Barra da Lagoa. Além da mesinha, estão dispostas três cadeiras, uma foto de Chico Xavier e um retrato de Jesus Cristo.  

Uma das poucas benzedeiras que restam na Barra, Dona Sueli começou a benzer aos 15 anos. Espírita, mas de criação católica, desde cedo presenciou benzeduras e teve a fé muito presente em sua trajetória. Ao contar como começou, relembra com carinho de Tia Benta, antiga benzedeira que dizia a ela “você que vai ficar no meu lugar quando eu morrer”. Um tempo após o seu falecimento, mais ou menos na década de 1960, nasceu seu bisneto e Dona Sueli foi chamada para benzer a criança de arca caída*. “Eu benzi a benzedura dela, a que ela benzia. E daí eu fiquei, benzo até hoje”.

Foto: Carol Gómez/ MARUIM

Foto: Carol Gómez/ MARUIM

Cada benzedeira faz a sua reza e transmite sua fé de uma maneira única, de seu próprio jeito. “Eu benzo alto, três vezes. Essa é a minha benzedura”, explica Sueli. O conhecimento de afastar os males e aliviar as dores é repassado de maneira oral; é preciso escutar e ver para aprender. Mas para ela, querer não é o suficiente; é preciso ter um dom: “Esse dom, só Jesus te doa e não é qualquer pessoa que tem. E assim ó, é um dom que não pode ser cobrado. Tem que fazer isso aí de boa vontade. Pode chegar uma pessoa domingo e não atender? Não. Tem que atender. Isso que Deus me deu não é para mim, é para dividir com as pessoas que precisam”.

Há séculos essas mulheres benzedeiras (e às vezes homens) cuidam da saúde das pessoas.  O historiador Joi Cletison conta que a tradição chegou ao litoral catarinense por volta do século XVIII junto com os imigrantes açorianos e que aos poucos foi absorvendo conhecimentos de culturas indígenas da região. Em Florianópolis, a  Barra da Lagoa é uma das comunidades que mantém viva a figura das benzedeiras, juntamente com outros aspectos da cultura açoriana como a pesca artesanal da tainha, boi de mamão e renda de bilro.

Boas energias

Apesar dos tempos modernos, dos avanços na medicina científica e da correria do dia a dia, a tradição faz com que muita gente continue visitando as benzedeiras.“As pessoas vêm aqui pedindo para se benzer por um problema de saúde ou pedem oração para conseguir um emprego, então eu faço a minha oração. A pessoa vem pedir a mim e eu peço a Jesus. Se ela tiver o merecimento, recebe sim”, conta Dona Sueli, que já recebeu visitas de várias partes do Brasil, de diversas idades e diferentes religiões.  

Caroline Soares, 35, é uma dessas pessoas e conheceu a benzedeira através da indicação de uma amiga.  Doutoranda em Antropologia Social  e moradora de Florianópolis, desde pequena conhece muitas pessoas que buscam auxílio espiritual nas benzedeiras e há algum tempo decidiu experimentar. “Resolvi procurar uma benzedeira porque estava me sentindo muito angustiada e pensei que receber uma bênção faria bem. Quando uma benzedeira faz a reza, ela está enviando boas energias para você.” conta ela.

Quando foi levada pela mãe de uma amiga a uma benzedeira Raquel Schmidt, 31, era criança. Depois de mais de 20 anos, a designer e professora de piano decidiu procurar por iniciativa própria uma dessas mulheres. Em meio a um tratamento para depressão e ansiedade ela explica que,  por ser médium, está sofrendo algumas dificuldades espirituais. “Busco uma benzedeira para tentar encontrar um pouco de paz, de conforto para um momento tão difícil e confuso.” Para ela, as benzedeiras são tão tradicionais quanto a Igreja, pois estão presentes na vida das pessoas há muito tempo e  também transmitem conforto para quem está com alguma dificuldade na vida ou mesmo para quem busca uma energia melhor no seu dia a dia.

Z, que pediu para não se identificar, é natural de Minas Gerais e foi lá seu primeiro contato com a prática das benzeduras. Desde criança era benzida por uma amiga de sua vó e hoje segue a tradição. A cientista social conta que a sua procura pelas benzedeiras está relacionada à conexão que essas mulheres têm com o divino e à crença de que essa relação ajuda quem as visita tanto energeticamente quanto espiritualmente. “O maior benefício para mim é energético e espiritual, seja para limpeza de energias negativas, cura e proteção espiritual. Acho que conforta, protege-nos e nos dá força para seguir a vida com todas as dificuldades, percalços e desafios que encontramos em nossa caminhada.”

*Arca caída: mal causado pelo deslocamento do osso do meio tórax.

Quebranto: mau olhado, inveja. Identificado geralmente por sintomas como bocejar contínuo, tristeza e olhos lacrimejantes.

Cobreiro: mal que atinge a pele e causa inflação por bolhas. Diz-se que é causado por insetos, cobras e aranhas.

Zipra: infecções de pele, cortes e outros ferimentos contaminados que causam febre alta e calafrios.

Criança embruxada: vive com as perninhas e bracinhos cruzados. Mal causado por bruxa.

Criança empresada: não come, chora o tempo todo. Mal causado por bruxa.

Cultura popular

As benzedeiras fazem parte da cultura popular e da história de Florianópolis, porém é difícil estimar quantas dessas mulheres ainda existem na cidade. No começo dos anos 2000, um estudo do Núcleo de Estudos Açorianos (NEA), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), encontrou 40 benzedeiras na capital e 80 somando o litoral de Santa Catarina. “A tradição é uma resistência cultural, tem grande importância para as pessoas. Muita gente já recorreu a essas benzedeiras e a existência delas é a preservação de um hábito cultural” explica o historiador Joi Cletison.

Dona Sueli é uma dessas mulheres de fé que fazem parte dessa resistência e dedicam sua vida a atender quem precisa de ajuda. “Para mim é importante porque eu estou fazendo a caridade, trazendo benefício. A pessoa para mim é o instrumento, estou favorecendo ela. Se ela recebe um bom benefício, está bom para mim”.

É possível procurar uma benzedeira para curar doenças como arca caída, zipra, cobreiro, para espantar mau olhado, para pedir bênçãos e proteção e até para salvar crianças embruxadas e empresadas. As benzeduras são baseadas na crença do poder das orações como solução para males físicos e espirituais.

  • Oração realizada por Dona Sueli – Março/2017:

Pai, filho e Espírito Santo. Deus meu Jesus pai infinito misericordioso e a vós eu peço neste momento seja decido e recaído sobre o corpo desta tua filha. Acha-se necessitada para receber a graça, para ser curada pelo amor de vós. Eu lhe benzo com as três pessoas da santíssima trindade: é o pai, é o filho, é o Espírito Santo acompanhando  as cinco chagas de nosso senhor Jesus Cristo. Teus quebrante pegasse, no teu comer, no teu beber, no teu dormir. Na tua casa, no teu dormido, no teu estudo, no teu trabalho ou nos passos de tua vida. Doença tu és na pele, um sangue na carne, no nervo, nos ossos, é cortado, levado e jogado nas ondas do mar sagrado. Se não comes, comerás. Se não dormes, dormirás. O anjo de tua guarda será o teu bom guia e o teu advogado. Advogar teu lado direito, tuas costas e a frente e os passos de tua vida. Para as ondas do mar, teu mal será levado em nome de Jesus. És forte como foi o Jesus no ventre da Virgem Maria os nove meses sem comer e sem beber. Ele foi alimentado, ele foi abençoado. Peço misericórdia de Deus e do Divino Espírito Santo derramando sobre o teu corpo sagrado. Com essas palavras teu corpo a de ser curado e fortificado. O alecrim virgem e abençoado não foi plantado nem semeado, nessa água de cristo ele foi gerado. Teu corpo a de ser livrado e curado de todo o mal. É a virgem eterna, é a vó, é a bradama, é a chave do sacrário. Sendo servida, fechar o teu corpo em nome de Jesus. Ave Maria de graça O Senhor é convosco, bendita sois Vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém Jesus. Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Vosso nome. Venha a nós o Vosso Reino. Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoa senhor as nossas dívidas assim como nós perdoamos nosso devedores. Não deixeis cair em tentação, livra essa tua filha, Jesus, de todo o mal que assim seja. Essas preces eu ofereço e entrego a Deus, a Jesus e a Mãe Maria Santíssima. O anjo de guarda, divino Espírito Santo, que lhe cubra com o teu sagrado manto em nome de Jesus. Que assim seja. Pai, filho e espírito Santo. Jesus te abençoe.”