Florianópolis, 23 de agosto de 2017
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Especial Travessia | Espiritualidade migrante: evangélicos, católicos e o vodu

Reportagem:

Reportagem: Aline Takashima
Edição: Camila Rodrigues da Silva

A igreja espelhada da Assembleia de Deus, de Itoupauva Central, contrasta com as casas coloniais germânicas distribuídas na rua recém-asfaltada. Em frente ao edifício, um morro é coberto por árvores altas e um manto verde. Na manhã de domingo, o silêncio e o canto dos pássaros só são quebrados quando um carro em alta velocidade corta a pista. Já na porta da igreja escuta-se o coro dos fieis embalados por uma bateria e um teclado. Cerca de 70 pessoas balançam o corpo e cantam enquanto acompanham a mulher com voz aguda no microfone. Alguns seguram bíblias, outros levantam o braço e uns poucos tiram fotos e filmam com celulares e tablets. O culto é em crioulo, os presentes são haitianos e a cidade é Blumenau.

Vivian Kreutzfeld Bertoldi, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação de Tecelagem de Blumenau (Sintrafite), visita toda as semanas as fábricas e conversa com os imigrantes. Aproximadamente 90% dos caribenhos que conheceu são evangélicos.

– Quase não se encontra haitianos em bailes e festas na cidade. O principal lazer dos haitianos é ir à igreja – constata.

Desde 2013, a igreja abre as portas para os imigrantes realizarem celebrações em sua língua materna. Antes das 8h30, as primeiras bicicletas encostam na garagem improvisada ao lado do imóvel. Os homens vestem camisa e calça jeans, com exceção de três líderes que usam terno e gravata. As mulheres estão de saia com tecido colorido e camisa social. Há dois bebês de poucos meses e uma criança de seis anos que anda para lá e para cá.

O levantamento da Pew Research Center de 2010 revela que 56,8% dos haitianos são católicos e 29,6% são protestantes. O último censo das Organizações das Nações Unidas (ONU) publicado em 2006 indica que 15,4% dos evangélicos são batistas e 7,9% pentecostais, grupo no qual se enquadra a Assembleia de Deus.

– A bíblia diz: somos luz na treva. A luz tem que andar como luz e a treva como treva. Jesus nos chamou para fazer diferença, enfatiza Frederick Aly, que segura um radinho de pilha sintonizado nas pregações do pastor e deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP).

Assim que chegou a Blumenau, em 2013, o evangélico de 27 anos procurou uma igreja. Reprovou a primeira que visitou, no centro da cidade. Até que conheceu a de Itoupava Central, onde se identificou.

Em uma só voz, os fiéis cantam de olhos fechados, batem palmas e repetem palavras ora com a cabeça baixa, ora olhando para o teto. Do lado esquerdo do altar, três mulheres dançam e pulam. Na fileira da frente, um homem rodopia com os braços estendidos. O ritmo da música fica cada vez mais rápido, e a voz da cantora com boina quadriculada, mais estridente.

Cada membro da igreja tem um “dom”, descreve Aly. Tem os que têm o dom da profecia, aqueles que falam a língua dos anjos e outros que têm a “missão” de evangelizar.

– Nós temos uma chamada para buscar e trazer pessoas para a igreja. Marcos fala: vá a todos os mundos para mostrar o novo evangelho – ressalta Aly citando o livro  de Marcos, capítulo 16, versículo 15, em que adverte: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”.

Quando Aly começou a participar das atividades da congregação, apenas sete haitianos dividiam com ele as cadeiras do templo. Hoje, mais de 60 frequentam o espaço pelo menos uma vez por semana.

O culto é dividido em momentos de pregação, oração e louvor. Às 11h, um homem de terno cinza, prendedor de gravata dourado e sapato de verniz abre a Bíblia e lê uma passagem para logo depois discursar. Ele mexe os braços enquanto fala e muda o tom de voz constantemente, dando ênfase a certas palavras. Ele fecha os olhos e começa uma oração de cinco minutos.

Em seguida, é o momento para apresentação de fiéis que exibem algum talento artístico ou compartilham alguma história. Um CD roda no aparelho de som e uma canção caribenha invade o salão no último volume. Um homem anda pelo corredor em direção ao altar. Segura o microfone, olha para a plateia e começa a dançar e cantar seguido de aplausos, risos e filmagens.

Até as 12h30, os haitianos partilham a manhã de domingo com os seus. O momento final é de cumprimentos, abraços e conversas. Alguns permanecem na igreja, outros esperam o ônibus ao lado do edifício, mas a maioria busca a bicicleta na garagem improvisada e pedala em direção a sua casa.

Essa é uma das três Assembleias de Deus em Blumenau que realizam atividades em crioulo. As outras se encontram nos bairros Itoupava Norte e Salto Norte. Jean Rosier Doralus frequenta esta última e é um dos alunos da Escola Teológica de Blumenau (ETEBLU). O haitiano de 32 anos está há seis meses no curso, que tem duração de dois anos.

– No meu coração eu sinto que tenho uma chamada de Deus para o Ministério. Eu quero ser pastor – revela o fiel que conta com a ajuda de um pastor para pagar integralmente a mensalidade de R$ 200.

O que mais gosta de estudar no curso de Teologia são as histórias da Bíblia. Até agora já leu o Pentateuco, cinco primeiros livros do antigo testamento.

Se nos cultos das igrejas da Assembleia de Deus em Blumenau ocorrem uma verdadeira catarse, no Haiti as celebrações evangélicas são ainda mais intensas, explica Jean. “No Haiti é diferente. As pessoas dançam mais e são mais alegres”.

Antes de se converter à religião e almejar ser pastor, Jean queria ser político.

– Gostaria de contribuir com a cidade quando tem algum problema com água ou buraco na rua, ter essa responsabilidade social.

Também já pensou em ser apresentador de televisão. Mas, por enquanto, pretende seguir no “Ministério de Deus”, como ele mesmo descreve. Jean estende os braços e se despede, caminha em direção à porta, para por alguns segundos, vira o rosto e pergunta:

– Um cristão pode trabalhar no política?

Antes de receber uma resposta, emenda:

– Depois da Teologia, eu vou estudar política.

Vodu: uma tradição discriminada

Elementos do vudu haitiano/Foto: reprodução

Elementos do vudu haitiano/Foto: reprodução

A Constituição do Haiti reconhece a prática de todas as religiões e credos e garante o direito à liberdade religiosa; assim, ninguém pode ser obrigado a pertencer a uma organização religiosa contrária às suas convicções. Apesar do vodu ser uma crença trazida pelos africanos e praticada pelos descendentes de pessoas escravizadas desde o século 18, só foi considerada religião em 2003, no governo de Jean-Bertrand Aristide.

No livro “Vingadores do Novo Mundo: A história da revolução haitiana” (em tradução livre), o autor Laurent Dubois afirma que o vodu era um espaço de liberdade no sistema escravagista. Para o professor da Duke University, a religião ajudou a lançar as bases da revolta dos escravos no Haiti.

Antes da insurreição de agosto de 1791, há o registro de duas cerimônias importantes. Na primeira, uma vaca foi sacrificada para a divindade Ogun. Na segunda, em Bois-Caiman, um porco foi morto. Os rituais se tornaram símbolos importantes na revolução do país.

A Pew Research Center estima que 2,2% da população é voduísta, porém, de acordo com a ONU, 50% da população pratica vodu combinado com outra religião, na maior parte com o catolicismo.

Padre haitiano ordenado no Brasil

Saint-Luc_Jéssica Michels

Padre Saint-Luc/ Foto: Jéssica Michels

No dia da sua eucaristia, Saint-Luc Fenélus olhava para o sapato desconfortável que machucava os pés, as mangas de sua camisa branca e o sentido de todo aquele ritual.

– Padre, por que estou aqui? Não entendo.

O sacerdote olhou para a criança e respondeu:

– Continue na igreja e em oração e um dia você vai entender.

O haitiano seguiu o conselho. Completou o curso de licenciatura em Filosofia no Haiti e foi para a República Dominicana estudar Teologia no Convento dos Dominicanos, por três anos. Continuou os estudos no Equador, na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Após quatro anos no país e um diploma nas mãos, decidiu ir para o Brasil fazer mestrado. Seu sonho é ser professor universitário de Filosofia e Direito. Em Joinville, atendeu a outro chamado: ser padre e ajudar os haitianos da cidade.

Embora a Igreja Católica não seja mais a religião oficial do Haiti desde a Constituição de 1987, ela exerce forte influência no país. Certas comemorações oficiais são realizadas nas catedrais católicas, como missas “Te Deum”, para o Dia da Independência, Dia da Bandeira e o Dia dos Fundadores.

Saint-Luc chegou a São Paulo com o propósito de seguir a vida acadêmica, em fevereiro de 2014, mas se deparou com a dificuldade de encontrar emprego na capital. A inscrição na faculdade só abriria em julho daquele ano. Sem perspectiva de trabalho, viajou para o Rio de Janeiro. Lá, enfrentou a mesma situação. A matrícula da PUC começaria no início do segundo semestre e não havia oportunidades de emprego. Um amigo falou sobre Joinville. Mesmo sem conhecer, decidiu ir para a maior cidade de Santa Catarina. Trabalhou no almoxarifado da Biblioteca da Diocese. Recebia os livros novos, os distribuía e guardava.

O sacerdote divide seu tempo entre a igreja e a educação.

– Na minha terra, um dos valores é o estudo. Meus pais queriam que eu estudasse em outro país. Muitos brasileiros falam mal dos haitianos, mas alguns têm até três faculdades.

Quando o bispo diocesano dom Irineu Roque Scherer descobriu que Saint-Luc era formado em Teologia, decidiu ordená-lo padre, em agosto de 2014.

Em 2015, ele foi selecionado no curso de Direito Canônico, na Universidade de Estrasburgo, na França, mas a igreja decidiu que Saint-Luc deveria permanecer em Joinville e trabalhar com os haitianos.