Florianópolis, 23 de novembro de 2017
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Em outubro, a sala Quilombo, utilizada por estudantes negros no Centro de Convivência para a realização de atividades étnico-culturais, apareceu pichada com ameaças racistas, homofóbicas e nazistas.

UFSC: casos de racismo têm ocorrido com frequência e universidade precisa repensar suas estratégias de combate

Reportagem:

Por Renato Botteon e Francielle Cecília

Reportagem publicada originalmente no Zero Jornal/UFSC

Quando Francielle Cecília prestou o vestibular da UFSC em 2015, ela imaginava que as situações de racismo e humilhação que vivenciou na universidade onde estudava no interior do estado diminuiriam de forma significativa. Acreditava que o ambiente de uma instituição pública seria muito mais acolhedor e que, por isso, os preconceitos que ela testemunhava e sentia não estariam mais presentes no seu dia a dia. Não foi o que aconteceu. Na fila para o restaurante universitário, ouviu “piadas” sobre seu cabelo crespo e “brincadeiras” vindas de um grupo de amigos do seu namorado. Um deles até perguntou se ela frequentava a roda de capoeira que ocorre no “varandão” do Centro de Comunicação e Expressão (CCE), sustentando o estereótipo de que todo mundo que é negro joga capoeira.

Francielle não fez denúncia na ouvidoria e talvez não tenha nem chamado a atenção do amigo do seu namorado. Ela também não deu risada das “piadas”. Sofreu calada. Assim como o relato dela, a maioria das ocorrências de racismo na universidade ainda são subnotificadas, seja por medo da exposição, de sofrer assédio ou represálias ou ainda por receio de gerar possíveis indisposições com algum colega.

Esse tipo de comportamento de hostilidade a outra pessoa é chamado de intolerância. A psicóloga Francine Beiro explica que a pessoa intolerante tenta impor seu pensamento através da utilização da agressividade e da raiva, humilhando e coagindo o outro.

A exposição a esse tipo de preconceito traz consequências psicológicas e emocionais para quem é vítima. Ao internalizar as ofensas e hostilidades, o alvo da agressão pode desenvolver sentimentos de auto-rejeição, insatisfação com o próprio corpo, baixa autoestima, inferioridade e insegurança, por exemplo. Esses sentimentos favorecem o comportamento de isolamento, além da ansiedade, depressão, o aparecimento de fobias e, em casos mais graves, podem até levar a estresse pós-traumático e ataques de pânico.

Papel da Instituição

Para tentar combater casos de intolerância dentro da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em maio de 2016, foi criada a Secretaria de Ações Afirmativas e Diversidades (SAAD), responsável por definir e executar políticas afirmativas focadas em questões étnico-raciais, gênero, orientação sexual e de acessibilidade e equidade.

“A questão é de responsabilidade da universidade como um todo e não de uma secretaria única, só porque ela recebeu o nome de diversidade”

Um dos objetivos é desenvolver ações para combater o racismo institucionalizado, conceito definido pela ONG Geledés como a incapacidade de uma instituição em prover um serviço adequado às pessoas em virtude de sua origem racial ou étnica, o que é resultado de uma combinação de ações que mesclam estereótipos racistas, falta de atenção ou até mesmo ignorância em lidar com determinados contextos. Trata-se de um problema nacional que não afeta só a universidade.

“A gente combate o racismo institucional na UFSC com políticas específicas, para minimizar ou punir o racismo. Estamos pensando em uma política de enfrentamento ao racismo, além de trabalhar com a educação e a conscientização”, explica a coordenadora da SAAD Francis Tourinho.

Apesar de ter sido criada para tratar especificamente das demandas dos movimentos negro, indígena e LGBT, a SAAD vem sofrendo diversas críticas sobre seu modo de atuação. Para Roberta Lira, ativista do coletivo Kurima — estudantes negros e negras da UFSC, a Secretaria acaba negligenciando a luta do movimento negro na medida em que não abre espaços para o diálogo e não leva em conta o que foi construído anteriormente pelos coletivos. “O mínimo que a secretaria deveria fazer é chamar os coletivos e movimentos negros para saber como nós queremos construir uma melhor estrutura para nós”, defende Roberta.

Guilherme dos Santos, integrante do coletivo 4P (Poder para o Povo Preto), acredita que a UFSC não tem sido cuidadosa com as questões raciais nos últimos anos, e que as coisas não mudarão com a criação de uma secretaria específica porque “ela atua de forma sobrecarregada”. Segundo ele, “a questão é de responsabilidade da universidade como um todo e não de uma secretaria única, só porque ela recebeu o nome de diversidade”. Guilherme completa que a universidade deveria se colocar enquanto protagonista das ações anti-intolerância, não enquanto mera espectadora que “só atende quando a gente berra”.

A coordenadora da SAAD e professora do departamento de enfermagem Francis Tourinho diz que, sempre que procurada, recebe as demandas de coletivos internos e externos à universidade e de pessoas da comunidade acadêmica que não estão organizados em grupos. Quanto à crítica em relação à sobrecarga, justifica: “estamos criando a SAAD, instituindo normas, treinando pessoal, aprendendo as situações em que a SAAD tem que trabalhar e ainda recebendo casos de denúncia e trabalhando nos que precisam”. Francis ressalta ainda que “existe uma demanda reprimida dentro da universidade. As pessoas não sentiam que poderiam denunciar e pedir ajuda”.

José Ribeiro, presidente do Conselho Estadual das Populações Afrodescendentes (CEPA) em Santa Catarina, acredita que a Reitoria deveria agir de outra forma para combater o racismo dentro da universidade. “O racismo deve estar pautado dia-a-dia”. Para ele, “todo o corpo técnico deveria estar sensibilizado, passar periodicamente por formação nas discussões das leis que envolvem crimes de racismo e estudo da cultura indígena e afro-brasileira’’. Roberta Lira, do coletivo Kurima, concorda, e aponta que um dos caminhos é a construção coletiva de políticas afirmativas entre universidade e estudantes, pois eles “têm um manancial de informações para acrescentar”.

Longo percurso

Em 2016, três casos de racismo ocorridos na UFSC ganharam repercussão nas redes sociais. Em outubro, a sala Quilombo, utilizada por estudantes negros no Centro de Convivência para a realização de atividades étnico-culturais, apareceu pichada com ameaças racistas, homofóbicas e nazistas. A universidade encaminhou informações à Polícia Federal, que investigou o caso, mas até a publicação desta reportagem não havia responsabilizado ninguém pelo ato.

Uma nova ocorrência aconteceu em novembro, mês em que se celebra o Dia da Consciência Negra. Como forma de protesto, um grupo de estudantes negros organizou uma manifestação batizada de virada anti-racista, evento que traria oficinas, mesas de debate e aula pública para a comunidade acadêmica. Começou com uma intervenção no Restaurante Universitário (RU) e, durante o ato, houve desentendimento entre duas manifestantes e um rapaz acusado de agressão física. A confusão só foi terminar na delegacia, após gritaria, ameaças, empurra-empurra e agressão. Os três envolvidos foram levados pelo Deseg para a Polícia Civil, onde registraram Boletim de Ocorrência. Lá, as estudantes foram dissuadidas pela polícia a não prestarem queixa de racismo.

Um outro caso aconteceu em janeiro. Ao questionar, em um grupo do Facebook, a existência de um curso de licenciatura indígena, um estudante deu início a uma enxurrada de comentários racistas. Os acadêmicos indígenas denunciaram o caso em março e, meses depois, perceberam que o processo não estava no sistema e fizeram uma nova denúncia na ouvidoria, após a posse de Luis Carlos Cancellier como novo reitor da UFSC. Foi aberto um procedimento administrativo e, em pouco mais de um mês, o processo chegou nas mãos das coordenadorias dos cursos nos quais os alunos denunciados estão matriculados. Dos sete identificados e denunciados, apenas um foi punido.

De acordo com as normas da UFSC, é o Colegiado do curso o responsável por decidir se abre um processo disciplinar contra o estudante ou não. “Ouvido os alunos, o Colegiado do curso entendeu que não havia nenhuma materialidade para que implicasse em ofensa grave e devolveu o processo pra mim, o outro, colegiado entendeu que o comentário que a aluna fez foi genérico, e o outro resolveu que o aluno será suspenso por 30 dias pelos comentários de cunho racista e agressivos”, explica o chefe de gabinete da Reitoria, Aureo Moraes.

“É uma questão da universidade de se colocar enquanto protagonista dessas ações e não uma mera espectadora que só atende quando a gente berra”

Francis Tourinho, responsável pela coordenação da SAAD, quer que sejam criadas políticas específicas na universidade para que assuntos de interesse do departamento possam ser tratados e resolvidos dentro da própria secretaria. Segundo ela, a resolução que regulamenta as penas disciplinares ao estudante não trata de situações que envolvam crimes cometidos dentro da universidade, como o racismo e a discriminação, por exemplo.