Florianópolis, 28 de junho de 2017
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A familia (1) crédito Aline Takashima2

Especial Travessia | Os trabalhos que o Brasil oferece aos haitianos

Reportagem: Aline Takashima
Edição: Camila Rodrigues da Silva

O terreno número 430 da rua Porto Rico, em Joinville, fica em um morro íngreme de asfalto. Na casa verde de madeira, vivem oito haitianos: seis homens e duas mulheres. No puxadinho dos fundos mora Jeff Edouard, de 29 anos, Nerlie Michaud, de 28 e a filha de 1 ano e sete meses do casal, Maria Mônica.

O chão de barro se mistura com tufos de grama, e pedaços de madeiras estão espalhados no entorno. Agachado em frente a sua casa, Jeff encarava o espelho enquanto fazia a barba, raspava o cabelo e escovava os dentes naquela manhã de domingo. Dentro do puxadinho, sentada na cama, Nerlie ninava a pequena Maria Mônica.

Em 2012, a haitiana pagou uma taxa de US$ 1.300 na embaixada brasileira para conseguir o visto e embarcou de avião rumo à São Paulo. Nos três primeiros meses, trabalhou como faxineira na capital paulista, onde ganhava R$ 70 por serviço. Achou a cidade muito grande e violenta. Resolveu se mudar para o município de Pato Branco, no Paraná.

– Lá é muito bonitinho, mas não tem trabalho.

Assim que Nerlie decidiu morar em Joinville, em 2014, Jeff trancou o curso de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Haiti, abandonou o trabalho como professor de matemática e veio ao encontro da namorada. Está no Brasil desde 2014.

No Haiti, Jeff morava com sua família: os pais, uma irmã e três irmãos. Era professor de matemática das 7h às 12h e aluno do primeiro ano de Ciências Econômicas à tarde. Com as aulas de reforço, ganhava US$ 5 por mês.

No Brasil, Jeff agora mora com a família que formou: a mulher e a filha. E segue estudando, mas aqui faz um curso técnico em Eletromecânica, no Centro de Educação Profissional Dario Geraldo (CEDUP).

– Sempre estudei muito. Minha vocação é ser engenheiro eletromecânico.

Trabalha com transporte de carga na empresa Ciser Parafusos e Porcas, de segunda a sexta-feira das 16h45 até as 2h, e ganha R$ 1.050 por mês.

Os três se espremem em um cômodo com uma cama de casal, máquina de lavar, mesa, fogão e pia. Jeff compara o Brasil com uma prisão:

– Eles te dão comida, lugar para dormir e trabalhar durante o dia inteiro. Dormir e trabalhar, dormir e trabalhar, dormir e trabalhar.

Em seu terceiro emprego em um ano, o imigrante já ouviu comentários como: “Ô haitiano, arruma isso como branco, não como preto”; ou: “Quer falar comigo aprende português.”

Seu sonho de recomeçar a vida no Brasil não existe mais:

– Queria comprar um terreno para a minha filha, mas agora vou para o meu país e fazer meu nome lá.

Para Lizandra Carpes, assessora de comunicação do Centro dos Direitos Humanos Maria da Graça Bráz, em Joinville, há um racismo velado na cidade:

– A gente dá um tapinha nas costas, sorri e manda o negro jovem para o subemprego – revela, lembrando que a maioria dos haitianos com quem conversou possui graduação. – Quem contrata não está preocupado com o nível de educação deles.

A esposa de Jeff, Nerlie, era poetisa em Porto Príncipe. Em Joinville, trabalha como auxiliar de cozinheira na rede de supermercados Hippo. A haitiana trabalha de segunda a sábado por 8h e ganha R$ 800.

Sua vontade é morar em um país de língua francesa.

–  No Brasil, só se fala português, mas eu adoro escrever e ler em francês – conta, relatando que seeus primeiros versos surgiram na escola.

–  Eu não sei cantar, então eu faço poesia.

Logo após o terremoto em 2010, ela se juntou com mais quatro amigos e fundou o grupo Leader Poetique. As poesias são declamadas em ritmo de rap. Suas letras em francês e crioulo falam sobre racismo, cultura negra, mulher e a pobreza.

– Vou seguir o meu sonho, ir para outro país, porque lá as pessoas vão me compreender.

De fala mansa, mas firme, Nerlie aumenta o tom da voz para falar sobre o racismo:

– Aqui dizem que todo mundo é igual. É mentira. No Brasil, tem racismo, sim.

Certa vez, enquanto levava os pratos e talheres para as mesas do restaurante, um homem começou a gritar em sua direção:

– Ô negra, ô negra! Vem cá, negra!

Respondeu ao chamado, engoliu o orgulho e foi chorar baixinho assim que chegou em casa.

– Minha esposa não estudou tanto quanto eu. É ingênua, sensível. Mas eu digo para ela: “a gente tem que ser forte” – argumenta Jeff, olhando esperançosamente para a bebê Maria Mônica.

O “pai” brasileiro

Os haitianos Germain Jelisme, Wilby e Jesse Blanc sobem a rua Fraiburgo, em Blumenau, em direção à casa de dois pavimentos e tijolo à vista. Enquanto Wilby abre a geladeira e pega a margarina, o queijo e o presunto para preparar um sanduíche, Jesse e Germain vão até a sala e se sentam no sofá.

– Pai, vem assistir o jogo com a gente – grita Jesse.

Luiz Montagne sai do seu quarto e senta-se com os dois. Wilby, Jesse e Germain são ‘filhos’ do brasileiro de 69 anos. Com a fala pausada e gestos lentos, o homem de cabelos pretos ralos e óculos de aro grosso tem uma família numerosa. É considerado o ‘pai’ de mais de 40 haitianos – a maioria mora em Blumenau, mas alguns são de outras cidades do Brasil e até vivem em diferentes países, como a Guiana Francesa.

Familia do Luiz o presidente 2crédito Paloma Gomide

Em um dia de abril de 2014, Luiz foi surpreendido com a apresentação de três funcionários recém-contratados pela indústria têxtil Cremer, onde trabalha há 20 anos.

– Eles são estrangeiros e vão trabalhar com vocês – informou o supervisor.

Luiz ficou encarregado de ensinar o ofício ao haitiano Marcelo Dort. “Agora você aperta neste botão”. “Muita calma nessa parte”. “Não esquece de conferir isso”. Mesmo explicando a mesma tarefa três, quatro vezes, o imigrante não aprendia.

Certo dia, o novo funcionário pediu um papel e uma caneta. Luiz esperava uma carta de demissão, mas o que viu foram desenhos das máquinas da sala, setas e pontos de interrogação. Através de símbolos, o recém-contratado aprendeu a manejar os equipamentos – dominou tão bem a sua função que logo começou a mexer em aparelhos que o brasileiro não conhece.

Nos finais de semana, a esposa de Luiz, Teresa Montagne, prepara um almoço caprichado para o marido, o filho e cinco vizinhos haitianos. Já sentaram 15 imigrantes ao redor da mesa para provar o famoso arroz e feijão de Teresa.

Ao final da refeição, ela ainda preparou marmitas em potes de sorvete, e todos levaram comida para casa.

Em média, os imigrantes que trabalham na Cremer recebem o mesmo que Luiz, um salário de R$ 1.200. Trabalham oito horas e meia, de segunda a sexta, e dois sábados por mês.

– Mas a vida é mais difícil para os estrangeiros do que para nós. Porque os brasileiros têm uma casa, e eles não têm nada – afirma Luiz.

Ele conta que não é o único funcionário da empresa que ajuda os imigrantes. Em um almoço, cada trabalhador entregou um presente e apadrinhou um haitiano, sorteado na hora. Uma das funcionárias brincou com Jesse Blanc:

–  Quero adotar esse menino!

O rapaz de 22 anos se levantou e abraçou Luiz:

–  Eu não quero, já tenho pai.

Jesse é alto, magro, sem pelos no rosto e com as pernas magrelas à espera da puberdade. Em janeiro deste ano, machucou o joelho em uma partida de futebol. Fez uma cirurgia e recebeu os cuidados de Luiz e Teresa, que o hospedaram em sua casa por quatro meses até a completa recuperação.

Desde novembro de 2014, ele trabalha na Cremer, mas o que realmente quer é estudar. No Haiti, estava cursando Engenharia Civil há dois anos na universidade GOC (Groupe Olivier Colaborateur) quando terremoto destruiu a loja de roupas da família. Com um estrépito ensurdecedor, as telhas se desprenderam e caíram em cima dos tecidos, vestidos e calças. Tudo virou pó esmagado em um monte de entulhos. Foi então que decidiu morar no Brasil, já que a família não iria conseguir pagar a faculdade.

Jesse é músico e era professor de saxofone soprano, na igreja evangélica Corps de Christ. Despediu-se dos alunos de 15 anos, deu um último abraço nos pais e viajou ao encontro do irmão, Wilby, que vive em Blumenau desde abril de 2014.

Há um ano no país, ainda não realizou o seu sonho.

– Quero estudar Engenharia Civil, mas a mensalidade é mais cara do que o meu salário.

Wilby e Jesse moram com Germain Jelisme, em uma casa próxima do ‘pai’. Todos trabalham na empresa Cremer. Wilby envia todos os meses R$ 400 para os pais.

– A minha família está no Haiti. Mas aqui, eles são a nossa família – revela Wilby apontando para Luiz e Teresa.

Germain completa:

– Não tenho palavras para explicar como Seu Luiz é importante para nós. O presidente dos haitianos!




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