Florianópolis, 22 de novembro de 2017
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Contra a violência de gênero e a reforma da previdência, milhares de mulheres aderem à greve internacional em Florianópolis

Reportagem:

Texto: Júlia Rohden e Joana Zanotto

Fotos: Pedro Stropasolas

Ao som dos tambores do bloco de samba-reggae Cores de Aidê, milhares de mulheres iniciaram a marcha pelo centro de Florianópolis, aderindo ao movimento mundial que organizou a paralisação das mulheres em pelo menos 50 países. O movimento ficou conhecido como 8M e promoveu a greve geral das mulheres, divulgando diversas formas de participar, inclusive para aquelas que não teriam condição de aderir à parada. “Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós” é o mote principal do movimento que protestou contra as desigualdades e as violências que as mulheres sofrem de forma sistemática simplesmente por serem mulheres.

No Brasil, o 8M também teve como um dos principais temas a luta contra a reforma da previdência proposta pelo governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB). Além de aumentar o tempo de contribuição de 15 para 25 anos, a reforma desconsidera a dupla, por vezes tripla, jornada de trabalho e as desigualdades de gênero quando propõe igualar a idade de aposentadoria de homens e mulheres – na regra atual, as mulheres podem se aposentar cinco anos antes dos homens, justamente porque a lei brasileira leva em consideração o trabalho doméstico não-remunerado realizado pelas mulheres. Hoje, a brasileira trabalha 7,5 horas a mais por semana do que o brasileiro.

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Na capital catarinense, a programação do 8M iniciou pela manhã e as atividades envolveram mulheres indígenas, camponesas, mães, negras, trans, lésbicas, idosas, de rua, trabalhadoras, jovens, artistas. A mulherada, junto às crianças e homens, se reuniu em uma tenda no Largo da Alfândega com apitaço, mamaço, debates e performances artísticas.

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A coordenadora do Curso de Licenciatura dos Povos Indígenas do Sul da Mata Atlântica na Universidade Federal de Santa Catarina fez um pedido em sua manifestação: “Precisamos que se solidarizem com a mãe do Vitor, pequeno índio de dois anos assassinado em Rio do Sul em 2015, com as mulheres que lutam pela terra, pelas mulheres que lutam pela sua língua…” Para Josi, o machismo que as índias lutam contra vem do mundo “dos brancos”. “Queremos que todas as mulheres estejam bem.”IMG_5170

 

IMG_5449Houve o lançamento da programação do 13º Mundos de Mulheres & Fazendo Gênero 11, também do  MÃEnifesto e a aprovação do manifesto 8M Santa Catarina. Quando começava a escurecer, o grupo Trama chegou com rimas pesadas. “Não é só porque sou preta que vão me prender”, versaram as mulheres do RAP. E às 19h os tambores começaram a ecoar, marcando o início da marcha na qual milhares gritavam juntas pelo direito de existir enquanto mulher. O protesto foi barrado pela Polícia Militar ao chegar na altura da entrada para as pontes que conectam a ilha ao continente. Depois de muita resistência, a marcha retornou ao terminal central, sendo finalizada com um catracaço.

Perfis: conheça a mulherada que aderiu à greve internacional em Florianópolis

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 Ondina vai completar um ano de vida nesta semana. A mãe Júlia a carrega amarrada no pano junto ao seu ventre mesmo enquanto toca o atabaque. “Eu luto pelo direito de cuidar da/do filha/filho enquanto ainda é bebê. Eu tenho a sorte de poder fazer isso com ela e ter o direito de amamentar.” Júlia participou do mamaço e do Grupo de Capoeira n’Zambi.IMG_5175
Doris era uma entre as doze Madalenas no cortejo. Elas marcharam pelo centro evocando nomes de mulheres assassinadas pelo mundo. De Santa Catarina, rememoram as três irmãs mortas a facadas durante o carnaval no interior do estado. No final da performance do Teatro do Oprimido, Doris se deitou no chão. As demais atuadoras pintaram o contorno do seu corpo no pavimento. Cada uma falou sobre algum direito negado às mulheres. Juntas reergueram Doris para dar as mãos e cantar em ciranda.IMG_5317

A pequena Maía recita o canto que repete nas manifestações “Roda baiana, fala mais alto! Desce do morro e ocupa o asfalto”, ela é a mais nova das três gerações de mulheres na família que pararam juntas no 8 de março. A matriarca Maria do Carmo teve uma realidade contrastante com a da maioria das negras no país. “Eu tenho que lutar pelas mulheres que não tiveram acesso à universidade e a um bom emprego como eu”. Maria está aposentada pelo Banco do Brasil. Ela auxilia a sua filha Dandara, que recém terminou o curso de Engenharia Sanitária, a tomar conta da filha. Unidas elas combatem o racismo e as injustiças sociais. “Eu participo das questões raciais através da literatura e poesia, atinge mais as pessoas”, Maria do Carmo, além de tudo, é escritora.

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Aline está à procura de sua mãe, perderam o contato quando ela foi morar nas ruas há quinze anos envolvida pelo uso de drogas. No começo a mãe levava comida e roupas para Aline onde ela estivesse dormindo, porém o pai a proibiu de visitar sua filha, criando uma estrada de distância em suas vidas. Na sua vez de ser mãe, Aline teve que deixar o filho no hospital ao dar a luz. “Carreguei por 9 meses para levarem de mim.” As mulheres em situação de rua perdem a guarda da criança se o estado entende que a mãe não tem condições para cuidar. Com 28 anos, hoje divide uma casa com o companheiro do Movimento População de Rua e luta por políticas públicas para as pessoas que estão na situação que ela encerrou faz pouco tempo. “Na rua você tem que ter um companheiro, se não tem, te forçam a fazer o que você não quer ou então você apanha”.IMG_5361

 

 Trama Feminina impacta com as minas deslizando nas rimas fortes que escancaram o racismo e o machismo na sociedade. Quem vê chegar e cogita fazer graça com elas nas batalhas dá uns passos para trás ao perceberem o poder. “A gente chega nas batalhas em várias minas participando juntas. Descobrimos que o melhor é ocupar os espaços”, falou Clandestina, uma das rimadoras do movimento. Ela e outras mulheres passaram a se reunir numa batalha apenas de minas porque a maioria não conseguia pegar o microfone nas gerais.IMG_5416

 

 

Rari foi direta em sua fala: “Além dos motivos gerais, o que mais nos afeta a todas mulheres é que o nosso juízo não é considerado no cenário brasileiro nem no internacional. A concepção de mundo das mulheres é silenciada.”