Florianópolis, 22 de novembro de 2017
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Após oito anos de trabalho, a Revolução dos Baldinhos enfrenta dificuldades

Reportagem:

Por Carol Gómez e Vitor Sabbi

Ana Karolina da Conceição, a Karol, e Leonir da Silva, o Nic, formam a equipe de agentes comunitários do projeto Revolução dos Baldinhos, na comunidade Chico Mendes, em Florianópolis. Karol tem 35 anos e está no projeto desde que ele teve início, em 2008, e Nic participa há cerca de nove meses. Eles são responsáveis pelo trabalho que faz a gestão comunitária de resíduos orgânicos junto com o incentivo à prática de Agricultura Urbana.

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Em seus oito anos de existência, o projeto já chegou a ter 200 famílias participantes e contou com oito agentes comunitários. Foto: Carol Gómez

Ainda não são nem 7h30 e Nic já está aguardando a chegada do grupo de trabalhadores/as da Companhia Melhoramentos da Capital (Comcap), que ajudará a recolher os resíduos orgânicos das famílias que participam do projeto. Cerca de uma hora e meia depois, terminada esta etapa, é a vez de levar o material recolhido para o pátio de compostagem da Comcap, onde será tratado em parceria com a Associação Orgânica, organização não-governamental que atua na prestação de serviços ambientais. É isso o que acontece desde o final do ano passado. Normalmente, os resíduos coletados seriam tratados nas leiras de compostagem que ficam no terreno da Escola Estadual América Dutra Machado, na própria comunidade. Porém, devido à falta de estrutura adequada e manutenção do terreno, houve uma infestação de ratos no local e o processo teve que ser paralisado.

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Foto: Carol Gómez

Desde que surgiu, o projeto cresceu em abrangência e com isso novas dificuldades surgiram. Hoje com cerca de 130 famílias incluídas, e tendo na comunidade 43 pontos de entrega voluntária (PEVs) e 70 bombonas de armazenamento, a quantidade de resíduos orgânicos recolhidos pode ser comparada a de uma grande empresa. “Era para ser uma escala pedagógica, mas hoje estamos com a escala de uma indústria”, conta Karol.

A falta de um terreno adequado para a compostagem faz com que o projeto precise impor um limite, não podendo agregar novas famílias que se interessam em participar. Todo esse resíduo é compostado parte no pátio da Escola Estadual America Dutra Machado e parte no Lar Fabiano de Cristo (projeto nacional que busca iniciar e preparar os jovens para o mercado de trabalho). Ambos espaços já estão sobrecarregados e não possuem infraestrutura, como sistemas de drenagem e cisternas para armazenamento da água da chuva.

Autossuficiência do projeto

A Revolução dos Baldinhos se mantém através de editais e concorrendo a prêmios. O salário dos atuais agentes comunitários, por exemplo, vem de um edital do Fundo Socioambiental CASA, que concede apoios de diferentes valores para ONGs e associações de base comunitária. Porém, segundo Oscar Rover, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e líder do Grupo de Pesquisa em Agroecologia e Circuitos de Comercialização de Alimentos, o projeto deve buscar autonomia, deve ser autossuficiente. Isso poderia ser alcançado de duas formas:

  1. obtenção renda através da prestação de serviços ambientais para a cidade (valor que é pago para empresas que fazem serviços de reciclagem, coleta, etc).

  2. através da comercialização do composto (adubo orgânico) gerado por meio da compostagem.

Atualmente o valor pago pela Prefeitura somente para que os resíduos sejam levados para o aterro sanitário de Biguaçu é de R$ 138,00 por tonelada. Se utilizasse sistemas de gestão comunitária como o da Revolução, o município não precisaria pagar esse valor a uma empresa, nem mover um esquema tão complexo de logística, uma vez que o lixo poderia ser destinado no próprio bairro onde foi gerado. “Nós temos essas duas possibilidades de remuneração, seja a pelo volume de composto produzido, seja a outra de remuneração por serviços ambientais/urbanos por retirar esse resíduo que iria para um aterro sanitário. Em ambos os casos, a gente precisaria que houvesse um poder público sensível e com disposição de auxiliar a comunidade nessa proposta”, explica Rover. 

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Foto: Carol Gómez

Em fevereiro de 2014, após sucessivas reivindicações do projeto, a Prefeitura de Florianópolis expediu o decreto 12.672, declarando necessária a desapropriação de uma área de terra de 5.052 m² que estava em posse de uma grande distribuidora. O objetivo era que esse terreno, localizado na Rua José Machado Simas, no bairro Monte Cristo, ficasse vinculado à Comcap e fosse utilizado para o desenvolvimento de projetos sociais relacionados à agricultura urbana, à educação ambiental e à geração de trabalho e renda na comunidade. A Revolução dos Baldinhos, com ajuda da ONG Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro), elaborou então o projeto de uma Eco Praça que funcionaria no local e o submeteu a um edital da Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado de Santa Catarina (Fapesc). Apesar de ter conseguido os recursos necessários para instalação da praça, a Revolução ainda não teve acesso ao terreno e, por conta disso, está buscando alternativas de dar continuidade às suas atividades. “Estamos há oito anos organizados, fazendo tratamento de resíduos e incentivando a agricultura urbana, mas o poder público fecha os olhos para nós”, conta Karol. 

O projeto

A Revolução dos Baldinhos surgiu da união dos moradores da Chico Mendes, bairro Monte Cristo, quando em 2008, o descarte de lixo nas ruas da comunidade gerou uma infestação de ratos, desencadeando doenças que chegaram a matar crianças do bairro. Buscando solução para o problema, moradoras/es formaram uma rede incluindo também o centro de saúde, creches e escolas. Para evitar que os resíduos fossem jogados nas ruas, Renato Figueiredo, médico do SUS na comunidade, sugeriu que as famílias recebessem baldinhos, onde separariam o lixo orgânico. Mas a distribuição de baldinhos não seria suficiente. Era preciso realizar um trabalho de conscientização com os moradores e foi o que duas moradoras fizeram por três meses. Não foi simples no começo, já que muitas pessoas não acreditavam que a comunidade poderia se transformar apenas separando lixo.

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Foto: Carol Gómez

Os pátios de compostagem foram inicialmente montados na escola America Dutra Machado, porém depois de três anos de uso o espaço estava saturado. As leiras foram então deslocadas para um terreno baldio, da Companhia de Habitação do Estado de Santa Catarina (Cohab) e começou-se a produzir em maior escala. Em 2012, por ordem da Prefeitura, o terreno passou por uma limpeza e todo material orgânico (cerca de 60 toneladas) foi retirado e nunca foi devolvido ao projeto. Hoje as leiras de compostagem encontram-se em dois pátios: Escola Estadual America Dutra Machado e Lar Fabiano de Cristo. 

Desde o início, a Universidade Federal de Santa Catarina esteve presente junto a Revolução através do envolvimento da ONG Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (CEPAGRO) e também no método de compostagem utilizado, que foi desenvolvido pela universidade. A ONG é responsável por ajudar no planejamento semanal e também na capacitação técnica, principalmente na área da gestão dos resíduos para que exista uma qualificação do grupo.

Em seus oito anos de existência, o projeto já chegou a ter 200 famílias participantes e contou com oito agentes comunitários. Hoje participam dois agentes comunitários e uma técnica do Cepagro, Paula Tonon, engenheira sanitarista, responsável por acompanhar de perto o projeto.

Benefícios

“Há oito anos, se vocês viessem aqui não tinha nenhuma árvore plantada dentro da comunidade”, lembra Karol. Mas, hoje o cenário é bem diferente e os frutos dessa articulação podem ser vistos no verde espalhado pelo bairro. Ao longo desses anos de existência do Projeto, além da limpeza das ruas, que era o objetivo inicial, muitos outros foram os benefícios na Chico Mendes. O principal foi a inserção da agricultura urbana e da consciência ambiental no cotidiano dos moradores. Agricultura urbana entendida como pequenas plantações, para o consumo próprio, no quintal de casa ou em terrenos baldios.

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Foto: Carol Gómez

Para Marcos José de Abreu, engenheiro-agrônomo, a agricultura urbana é peça fundamental nesse modelo de gestão comunitária de resíduos, porque sensibiliza o morador de verdade. “O morador vê que o resíduo dele sai de casa, vai para o baldinho, vai para o PEV (Ponto de Entrega Voluntária), vira composto e volta para a casa. Isso é uma ferramenta poderosíssima de educação ambiental”, explica. 

Depois que o composto volta para os moradores, cabe a cada família fazer a sua utilização em hortas. Para isso, os agentes da Revolução dos Baldinhos também ensinam a “mexer na terra”. Eles/as auxiliam na construção de hortas e na distribuição e plantação de sementes. “A nossa grande gratificação é essa troca com os moradores”, comenta Karol.

Por conta deste trabalho, moradores têm oportunidade de colocar em suas mesas frutas, legumes e vegetais orgânicos sem custo nenhum. “Os industrializados têm um preço muito baixo e as frutas e legumes acabam esquecidas do cardápio. Além disso, a ideia da Revolução dos Baldinhos de retornar este composto vem da promoção da agricultura urbana”, afirma Aline de Assis, estagiária do Cepagro que atua no Projeto.

Integração

Além do benefício ambiental, a Revolução dos Baldinhos também promove outro de cunho social. Os moradores da comunidade estão mais integrados em torno de suas reivindicações e os resultados são ainda mais perceptíveis para aqueles que se envolvem diretamente. Para a agente Ana Karolina, por exemplo, trabalhar na Revolução dos Baldinhos elevou sua autoestima. “Antes eu era só uma moradora que ficava escondida dentro de casa, e hoje eu tenho a oportunidade de contar um pouquinho do que eu faço aqui e ensinar para outras pessoas fazerem em suas casas ou trabalho”, comenta.

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Foto: Carol Gómez

Os agentes do projeto também promovem educação ambiental nas creches do bairro. Constroem hortas no pátio das escolas, plantam sementes e as cuidam até o momento de colher, para então ensinarem às crianças sobre a importância de plantar e preservar a natureza. É um trabalho conjunto com as/os professoras/es das creches.      

Apesar disso, os benefícios poderiam ser ainda maiores se as reivindicações do Projeto fossem atendidas. De acordo com o engenheiro agrônomo Marcos José de Abreu, a iniciativa poderia ser aplicada por toda cidade se o poder público municipal visse a Revolução dos Baldinhos de outra maneira. “Eu acho que se fosse criado o mecanismo de pagamento pelo serviço ambiental, de em vez pagar para o aterro, pagar para organizações comunitárias fazerem compostagem e a prefeitura destinar áreas adequadas, eu tenho certeza que isso bomba, porque é muito mais viável, muito mais saudável, e gera renda localmente”, afirma.