Florianópolis, 21 de novembro de 2017
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Batalha das Mina completa um ano de resistência

Reportagem:

Por Camila Rodrigues Yano

Um anos depois. Liga a caixa. Liga o mic. Tem geladinho com cachaça, quer? Salve manas. Fala memo, fala memo. DJ Brum tá com virose. Cadê os beats? DJ Brum tá com virose e com os beats. Não dá nada, a Vê tem no celular. Cuidado, um cara acabou de derrubar os lixos com uma peixeira. Qual é a entrada? Cadê o adaptador? A polícia chegou. Acabamos de comprar a caixa e não tá funcionando? Ufa, o cara foi embora. Alguém tem cartão SD? Um ano, nem dá pra acreditar. Já podem vazar, coxas. Solta o beat aí. Putz, o adaptador tá com mau contato, chama Babi, Sher, Luz e quem mais quiser no beat box. Tem cachaça, duas por cinco. Pegou o nome das manas? Vamo encostar aqui perto, galera, a batalha vai começar.

Mulher na cena do rap. Quantas você conhece e ouve? Eu, particularmente, poderia contar nos dedos as que eu ouço e conheço o trampo. E se me perguntassem a mesma coisa há um ano, levaria mais tempo e menos dedos para responder. Elas estão aí, mas cadê? A visibilidade da mulher na sociedade já é diminuída, fato, e no rap não é diferente. Batalha de MCs? Homem contra homem, 99% das vezes. Se chega uma mulher e mete a cara, chove machismo, 99% das vezes. Indo contra os mimimis de sempre e buscando mais representatividade na cena, algumas manas de Florianópolis resolveram começar uma versão feminina do duelo, dando origem à Batalha das Mina, que completou um ano no último sábado, 4.

“É uma oportunidade de a gente se conhecer também. As gurias são sempre colocadas umas contra as outras, e aqui, ao invés de competirem, elas aprendem a compartilhar ideias, a somar. A gente sente isso aqui, esse sentimento de cooperatividade. E é foda isso, você vê o avanço, depois de um anos das gurias que estão rimando, como empoderou e também como elas aprenderam, trocaram ideia e se fortaleceram com esse movimento que está aí até hoje”, fala a MC Sher. No evento, que acontece todo sábado, 18h30, sem falta, no Terminal Cidade de Florianópolis (Terminal Velho), também rolam outras interações, como oficinas de bambolê, break, fotografia, vídeo, lambe-lambe, stêncil, pixo, além de rodas de conversa. “Foi uma força muito grande, por isso eu acho que continuou, tá ligada? Agora tem mais de 10 minas rimando, eu acho que esse um ano só mostrou o que a gente estava precisando ver. As minas são fortes sim, a união faz a força”, completou MC Babi.

Questões de cunho social e críticas às culturas enraizadas na sociedade, como o machismo, homo, lesbo e transfobia, ódio às mulheres e estupro são constantemente debatidas nas rimas, mas elas também abordam outros cânceres do dia-a-dia, como bitucas no chão, moradores de rua e imposição de padrões de beleza. “O rap, acima de tudo, principalmente o freestyle, é a tua vivência, o que tu vive. E aí se tu conta sua experiência de mina em uma batalha mista, você não se sente à vontade de falar de coisas que às vezes você não fala nem para suas amigas, entendeu? Temas pra gente como estupro e violência doméstica, isso é pesado, isso fala com a gente, é a nossa experiência. Então existe o silêncio, aquela nossa voz que é reprimida em casa, é reprimida em todos os ambientes. A gente poder estar entre minas, falar da nossa convivência cotidiana, a gente está falando com quem vive aquilo, e é o fortalecimento, porque a gente vê que não está sozinha”, afirma Izabel, a MC Koisa.

Recentemente, duas manas, como são apelidadas as MCs que estão duelando, ganharam a Batalha da Alfândega, mista porém predominantemente representada por homens, que rola toda quinta-feira e é dividida entre batalha de conhecimento e de sangue. Manas Gabe e Babi levaram as duas, respectivamente. É senso comum que, durante este um ano de existência, a presença feminina nas ruas da cidade aumentou. Independente, sendo um rolê que começou do zero e que tem cada vez mais mulheres rimando, assistindo e se identificando, dá orgulho de ver.

“Todas as minas sabem rimar, não sou só eu. Eu ganhei essa edição, mas foda-se. Desculpa a palavra, mas não é isso que mais importa, tá ligada? O meu sentimento é de vencedora mesmo, mas meu sentimento é de vencedora por todas as mulheres que a gente tá representando aqui”. Recém mãe de gêmeos e amamentando um deles, literalmente, durante a final contra a MC Berra, Ka Alves, que foi primeira mulher a participar da Batalha da Alfândega,  ganhou esta edição de aniversário. “A batalha começou pra uma irmã ajudar a outra, tá ligada, pra a gente dar espaço pras irmãs começarem, pras meninas entrarem, terem coragem de começar, estar ali no meio de mais mulheres que vão aceitar, que não vão ter preconceitos, não vai ter tiração, a gente aceita todo mundo”, afirmou. Além dos duelos, o evento de comemoração também contou com apresentações da Trama Feminina, Palavra Feminina, Maga, Philliaz e intervenção do Coletivo Nega.

“Queremos cada vez mais a presença das mulheres, as bichas, sapa, as trans, as preta e os preto, e todo ser em vida que necessita de sua voz e existência ativa e respeitada. Pregamos a união entre nós, irmãs, porque sabemos que a sociedade patriarcal quer que a gente viva em competição e desarmonia, pregamos a união entre o movimento Hip Hop porque sozinhas ou em minorias não somos nada, não conhecemos nada. E se algum dia uma de nós falhar ainda existe o perdão e o recomeçar e é muito bom compreender isto.”, afirmaram através da página da Batalha no Facebook, agradecendo a presença da galera que colou.

“Batalha das mina, o que significa? Representatividade feminina!”

Serviço: Batalha das Mina

Data: Todo sábado, faça sol, chuva ou vento sul

Local: Terminal Cidade de Florianópolis (Terminal Velho)

Horário: 18h30

Confira no vídeo acima entrevista com algumas manas pensantes que representam o rolê, além da final MC Berra X MC Ka Alves.

Obs.: Por falta de equipamento no dia do evento, o vídeo foi gravado todo com celular, o que ocasionou distorção entre o áudio e a imagem em alguns momentos.