Florianópolis, 21 de novembro de 2017
Search

Comuna Amarildo de Souza: após três anos de resistência, comunidade se consolida em acampamento rural

Reportagem:

Reportagem, Fotos e Imagens de Carolina Maingué

Edição do vídeo de Carolina Maingué, Rodrigo Chagas e Vitor Shimomura 

Cerca de um quilômetro e meio após o último sinal de comércio no bairro Teresópolis, no município catarinense de Águas Mornas, uma ponte pênsil leva à entrada do acampamento Amarildo de Souza. Em 2014, quando os acampados começaram o processo de instalação, não foi sem resistência que a vizinhança encarou a chegada das famílias que foram trabalhar na roça. Na comunidade, o plantio brota de dejetos humanos, animais e vegetais através de um sistema de compostagem. Tudo é pensado organicamente: da morte se faz a vida, da vida se faz a luta por terra.

Em dezembro 2013, cerca de 300 famílias ocuparam um terreno improdutivo, de 900 hectares, às margens da Rodovia SC 401, no norte de Florianópolis. Segundo Daltro Silva Caxias de Sousa, coordenador político do acampamento Amarildo, o latifúndio havia sido grilado pelo empresário e ex-deputado daArena Artêmio Paludo.

Em março de 2014, em audiência pública realizada na Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc), a Secretaria de Patrimônio da União (SPU) declarou que os 900 hectares ocupados não pertenciam a Paludo, e sim ao Governo Federal. Entretanto, antes da declaração da SPU, havia sido feito um acordo a pedido do ex-deputado para que os ocupantes fossem expulsos em abril daquele ano. O juiz responsável, Rafael Sandi, negou-se a anular o acordo, mesmo após a audiência, e as famílias acabaram tendo que deixar o local.

Após tentativas de reconstruir a comunidade em terras do bairro Rio Vermelho e na Palhoça, em julho de 2014 o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) reconheceu um terreno de Águas Mornas, administrado pela SPU, como passível de ser habitado pelas famílias remanescentes. Algumas cravaram o pé como raiz, e hoje são sete núcleos familiares que ali habitam.

O terreno tem 138 hectares e é cercado por nascentes do rio Cubatão. Beterraba, alho-poró, alface, rúcula, cenoura, abóbora, cebolinha, árvores frutíferas e outras culturas são plantadas na terra que parece reter o frio da água cristalina que a percorre. Para esquentar o ambiente, fogão a lenha, aceso quase o dia todo. Dia 18 de novembro, os amarildos tiveram uma audiência no Ministério Público de Santa Catarina, em Florianópolis, para discutir, dentre outras coisas, a chegada de energia elétrica. A audiência rendeu outra reunião, sem data marcada, que está programada para acontecer com a cooperativa de eletrificação rural Cerej. Por enquanto, no inverno é geada e banho de água fervida.

O acampamento conta com barracos simples de madeira onde dormem os moradores, um galinheiro, uma cozinha comunitária e a roça, além de um rancho para a criação de cabras e a presença de cachorros e gatos de estimação. Na comunidade, o que um planta outro cozinha: todos comem, e o excedente é vendido principalmente para feiras orgânicas. Em julho desse ano, as famílias adquiriram o selo Ecovida de agroecologia, fornecido pelo Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo (Cepagro). O coordenador político Daltro de Sousa conta que um dos objetivos do acampamento é atingir a soberania alimentar, o que os difere do modelo proposto pelo Movimento os Trabalhadores Rurais sem Terra (MST).

Segundo Daltro, “chamamos os companheiros do MST de primos, para enfatizar que apoiamos a luta, mas temos algumas diferenças”. Uma delas é o fato de que os acampados em Águas Mornas não praticam a monocultura, sistema pelo qual se planta apenas uma espécie vegetal por um grande período de tempo. Segundo a agroecologia, essa técnica retira nutrientes do solo, demanda insumos artificiais e não supre as necessidades nutritivas dos moradores. A proposta dos amarildos é outra: pensar uma agricultura integrada ao meio ambiente, que primeiro garantirá que todos terão o que comer para depois complementar a renda da comunidade.

Após o almoço na cozinha comunitária, o suco de açaí colhido direto do pé pesou, o vento frio balançou alguns filtros dos sonhos espalhados pelo aposento e os três homens no acampamento num domingo, 13 de novembro, descansaram. Eram eles: Daltro, coordenador político, Valdemir dos Reis Fiuza, coordenador de produção, e Max Tchalles de Almeida, coordenador de segurança. Maria Erivânia dos Santos, coordenadora de finanças e esposa de Valdemir, é mãe de dois meninos pequenos e, a essa altura, tinha se retirado da área compartilhada. Os outros moradores não se faziam presentes, por motivo de doença, trabalho, militância ou outros encontros particulares. O descanso rendeu histórias.

“É a maior loucura viver de cara”

Uma delas foi a história de Max, 56 anos. Ele é nativo de Florianópolis e está há dois anos e três meses no acampamento. “Eu vim da rua”, respondeu, quando perguntei o que fazia antes de chegar em Águas Mornas. Ex-dependente químico, o coordenador de segurança conta que não costumava se alimentar direito e que, hoje em dia, planta e come alimentos orgânicos e respira ar puro. “Reconstruí minha casinha, que sou eu mesmo”, reflete.

“Esse lugar é mágico, tu não imaginas”, falou Max, que afirma ter descoberto uma nova maneira de viver quando encontrou a comunidade. Segundo o acampado, ele foi “resgatado pelos livros” que leu quando chegou lá e recebeu uma “injeção de princípios e valores”. Limpo há cerca de dois anos, o ex-dependente costuma dizer que a maior loucura que existe é encarar a vida completamente sóbrio.

Ex-presidiário

Max fala abertamente sobre como passou 11 anos e quatro meses na cadeia em função do tráfico de drogas, depois de morar, com seu pai, em quase todas as comunidades carentes da ilha. Para ele, o acampamento Amarildo de Souza foi crucial para que buscasse outras alternativas de sustento e um estilo de vida diferenciado. Por conta do envolvimento com o tráfico, o coordenador de segurança conta, com tristeza, que todos os seus amigos e familiares estão mortos. “Eu dou minha vida por todas essas pessoas daqui, pelo Daltro, pela Vânia, por aqueles meninos [filhos de Vânia]. Por isso me proponho a ir para a linha de frente caso aconteça algo ruim, porque eu não tenho ninguém, e eles têm suas famílias. Mas eles dizem ‘Max, tu tens a gente”, enfatiza.

O sonho de Max é encontrar uma namorada para “juntar as escovas de dente” e continuar morando na comunidade, de onde ele diz não sair nem morto. Imagino que a solidão deva falar mais alto naquele pedaço de terra localizado no fim da linha de ônibus Queçaba, que com horários escassos faz o trajeto Florianópolis-Águas Mornas e leva alguns visitantes, como eu, até a comunidade rural do Rio Miguel, onde se instalou o acampamento.

Val e Vânia

Maria Erivânia dos Santos, carinhosamente chamada de Vânia, é alagoana e tem 24 anos. Uma das poucas mulheres que permaneceram no acampamento, durante minha visita Vânia capinou, cozinhou e cuidou de seus dois filhos. O mais velho se chama Talyson e tem sete anos. Kaique, o mais novo, nasceu há cerca de dois anos na própria ocupação. Poucos dias depois das famílias se apropriarem de um terreno no Rio Vermelho, no norte da ilha, em uma das tentativas de reconstrução do movimento após terem sido expulsas da SC 401, a alagoana deu à luz o primeiro filho do acampamento Amarildo.

Vânia é integrante do movimento desde que a cerca do primeiro terreno ocupado foi rompida, e foi através da comunidade que ela conheceu Valdemir dos Reis Fiuza, seu companheiro. Val é o grande responsável por pensar a produção dos alimentos, o funcionamento dos banheiros secos e o cuidado com os animais. Hoje com 29 anos, saiu do interior da Bahia com destino a Florianópolis para trabalhar em obras. O baiano estava morando na Vila Aparecida, comunidade localizada no bairro de Coqueiros, em Florianópolis, quando um colega o convidou para conhecera ocupação. Aflito com as dificuldades para pagar aluguel, Val aceitou o convite. “Aqui eu realizei meu sonho”, conta.

O turismo e a “mercantilização da cidade”

Como a especulação imobiliária interfere nos conflitos por moradia

Desde a ocupação na SC 401 até a chegada dos amarildos em Águas Mornas, não faltaram comentários nas redes sociais e nem conversas de ônibus entre os moradores das redondezas exprimindo sua insatisfação com a instalação das famílias. Sendo muitos desses moradores trabalhadores que vivem de aluguel ou dizem ter conseguido, após muito custo, adquirir uma casa própria, grande parte criticou as ocupações que ocorreram no norte da ilha e na comunidade do Rio Miguel.

Vitor Hugo Tonin é economista com mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Segundo o especialista, que realizou sua dissertação de mestrado sobre exclusão habitacional em Florianópolis, o que tem propiciado um número crescente de ocupações urbanas e rurais nos últimos anos é um panorama nacional intensificado pela especulação imobiliária altíssima presente na ilha.

Para ele, o plano de governo que foi traçado para Florianópolis a partir da segunda metade do século XX foi um plano de mercantilização da cidade, que tem o turismo como principal atividade econômica. Empresários do setor turístico investem em uma grande propaganda, por todo o país, sobre a beleza e a qualidade de vida na ilha, e a partir daí se criou uma “segregação espacial por um motivo estético”.

Tonin aponta que “a elite local aprendeu a segregar melhor”, por exemplo, ao pressionar o poder público para que políticas habitacionais sejam realizadas “onde não afetarão a especulação imobiliária”, ou seja, nas periferias e região continental. Dessa forma, os terrenos ociosos localizados em áreas consideradas “nobres” permanecerão inabitados, agregando valor aos imóveis dessas áreas.

O especialista em urbanismo também afirma que, nos últimos anos no Brasil, os “conflitos sociais se aguçaram” e cita como exemplo os impactos do programa do Governo Federal Minha Casa, Minha vida. Através desse programa, o Estado oferece condições para que famílias de baixa renda financiem suas casas próprias por meio de parcerias com empresas, bancos, municípios, etc. Entretanto, para Tonin, esse tipo de política habitacional “não enfrenta, de fato, a questão fundiária urbana”.

Com as possibilidades de financiamento, mais pessoas passaram a comprar imóveis. Devido à lógica de mercado, isso fez com que o setor da construção civil elevasse o preço das casas. Segundo o economista, “quem tinha poder sobre as terras passou a cobrar mais sobre elas”, de forma que, se antes um imóvel valia 50 mil reais, com a maior demanda ele passou a valer 90 mil.

O aumento no preço das moradias foi, de acordo com Tonin, superiorao aumento do poder aquisitivo proporcionado por outros programas federais, como o Bolsa Família. Além disso, de acordo com ele, a valorização dos imóveis dificultou o orçamento de famílias que costumavam pagar aluguel e não foram contempladas pelo Minha Casa, Minha Vida para financiarem sua casa própria.

Tonin afirma que esse contexto é agravado por características locais de Florianópolis, como a forte presença, já citada, do setor turístico e de construção. Ambos possuem uma grande demanda por mão de obra não especializada que atrai moradores de outras regiões do país. Isso culmina no “aumento de pessoas trabalhando na cidade”, sendo muitas dessas pessoas migrantes que acabam se fixando na região continental e sofrendo com os altos alugueis.

O economista acredita que a tendência é os conflitos por moradia se radicalizarem, nos próximos anos, devido à perspectiva de queda das políticas habitacionais, que bem ou mal eram um paliativo, e devido à queda do poder de compra dos salários. Ao mesmo tempo, por Florianópolis ser uma cidade habitada por uma elite, talvez a demanda por serviço não caia. Isso significa que os trabalhadores, a mão de obra, continuarão vindo, todavia terão cada vez mais dificuldades para se manterem na cidade.