Florianópolis, 23 de agosto de 2017
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Diferentes e iguais contra a PEC 55 em Brasília

Reportagem:

Reportagem: Jéssica Antunes, Anderson Dias Silveira, Daniela Müller e Marcelo De Franceschi

Um mosaico de cores e vontades tomou a Esplanada dos Ministérios na terça-feira, 29 de novembro. As caravanas se aproximavam da capital da república para serem notadas por todo o país, ainda que houvesse indiferença por parte da população que vive o cotidiano de Brasília. O assunto em nosso ônibus era a possibilidade de adiamento da votação, causada pela comoção da tragédia com o time da Chapecoense. Um velho sindicalista dizia: “agora é que eles vão votar, vão aproveitar que ninguém tá olhando”.

Desde as primeiras horas da manhã, pessoas se reuniram nas ruas centrais, mas a concentração aumentou nas imediações da Biblioteca Nacional por volta das 14h. Coletivos e movimentos estudantis cantavam palavras de ordem em paródias de músicas conhecidas acompanhados de suas baterias. Pareciam blocos de carnaval com conteúdo político. Algumas mulheres traziam, em seus corpos parcialmente nus, críticas aos machismos da sociedade.

Uma breve chuva levou alguns a procurarem locais cobertos, mas a grande maioria não se importava. Sem nenhum aviso, a marcha partiu rumo ao Senado. Um grupo buscava distância dos demais,  levavam poucas bandeiras pretas e vermelhas. Não precisavam de carros de som, gritavam com força:

“Autonomia, autogestão! É nós por nós defendendo a educação!”.

Foto: Anderson Dias Silveira/ MARUIM

Foto: Anderson Dias Silveira/ MARUIM

Logo atrás vinha uma grande multidão. Muitas faixas exibiam mensagens contra a PEC 55 e contra a Medida Provisória de reforma do ensino médio, algumas pessoas levavam bandeiras de partidos de esquerda e sindicatos. Eram muitas cores, cantos e sentimentos. Uma mulher falava no megafone “Volta Dilma, anula STF”, dificilmente seguia as palavras de ordem da massa.

Ao se aproximarem do gramado em frente ao Congresso Nacional, muitas pessoas corriam eufóricas e algumas delas caiam na descida inclinada. Os grandes blocos chegavam e o clima parecia de uma grande festa. A voz do carro de som tentava dar o tom a multidão sem sucesso. Jovens entraram no espelho d’água cantando e dançando.

Foto: Anderson Dias Silveira/ MARUIM

Foto: Anderson Dias Silveira/ MARUIM

Em uma das laterais, pessoas conversavam sobre o número de manifestantes. O cinegrafista de uma emissora de TV falava, com um ar de experiência, em algo em torno de 40 mil, outra contrariava dizendo que eram muito mais de 60 mil. Segundo informações da Polícia Legislativa, 12 mil pessoas.

 

Pouco depois das 17h, o pânico tomou conta da Esplanada. Não se sabe ao certo o estopim para agressividade das polícias militar e legislativa, mas é consenso entre os manifestantes a desproporção da repressão. Uns dizem que o começo foi após um grupo tombar o carro da TV Record, outros defendem que o início do tumulto foi a agressão de uma mulher pela PM. Em pouco tempo, os policiais atacaram a multidão com bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e spray de pimenta, além de golpes de cassetetes. Helicópteros sobrevoavam a Esplanada dos Ministérios, dando cobertura às ações da polícia.

Ato Ocupa Brasília 29/11/2016 Crédito: Anderson Dias Silveira/ MARUIM

Ato Ocupa Brasília 29/11/2016 Crédito: Anderson Dias Silveira/ MARUIM

Os ambulantes que não foram atingidos pelas bombas seguiram vendendo água, picolé, salgados e cerveja. A dupla que comercializava tequila tinha clientela garantida. Mas nem todos os ambulantes puderam comemorar: na confusão, alguns perderam suas carrocinhas e outros foram agredidos. O apoio aos manifestantes não era unanimidade entre os vendedores, havia quem criticasse o protesto e quem dizia ter vontade de fazer parte.

Em resistência ao avanço policial, foram erguidas barricadas com placas, banheiros químicos e outros objetos achados pelo caminho, além disso pelo menos um automóvel foi incendiado. A polícia prosseguia lentamente e os que se opunham ao seu avanço repetiam as barricadas na medida em que encontravam mais objetos.

A maioria dos manifestantes corria para fugir das bombas e dos tiros de bala de borracha. Pessoas desmaiadas eram carregadas, enfermeiros voluntários atendiam os feridos que se encontravam longe das ambulâncias. Parte das pessoas machucadas recebeu socorro do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). Grupos de amigos entraram a noite gritando os nomes de suas cidades ou outras palavras que pudessem ser referência para encontrar os companheiros perdidos. Por volta das 22h, quando a reportagem do Maruim deixou o local, muitos manifestantes ainda estavam dispersos, resistindo e fugindo da violência.

Foto: Anderson Dias Silveira/ MARUIM

Foto: Anderson Dias Silveira/ MARUIM

Impressões do Ato

A principal motivação que uniu tanta gente em um mesmo lugar foi a rejeição à Proposta de Emenda à Constituição que, em síntese, limita os investimentos públicos primários por 20 anos apenas corrigidos pela inflação, a PEC 55. São jovens ocupantes de escolas e universidades, militantes independentes, membros de coletivos e partidos,  trabalhadoras(res) de diversas idades, sindicalistas, indígenas, entre outros grupos que viveram juntos esse momento.

“Ao mesmo tempo que a gente fica um pouco extasiado, a gente fica confuso também. É tanta bandeira levantada, tanta gente diferente, de tantos lugares, que fica difícil encontrar a unicidade do movimento”, disse Douglas Fernandes que viajou 12 horas com 160 pessoas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

“A gente teve que se adaptar, cada um abrir um pouco mão da própria ideologia para encontrar o ponto comum que afeta todo mundo”, explicou Douglas sobre o propósito do protesto Ocupa Brasília.

Ato Ocupa Brasília 29/11/2016 Crédito: Marcelo De Franceschi/ MARUIM

Crédito: Marcelo De Franceschi/ MARUIM

“Aqui vocês tiveram um pouco a experiência de como é ser indígena, a sociedade de vocês fragmenta muito”, comenta Laura Parintintin, indígena do Povo Parintintin do Rio Madeira, no Amazonas, e estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ela explica que, para os índios, os conhecimentos e as tarefas são socializados por todos, independente da idade e do gênero.

 

A caminho da manifestação, Laura pintava nossos braços com desenhos de proteção de seu povo, ansiosa por encontrar outros parentes – maneira como se refere aos  índios de outras etnias. “Cada risquinho deste representa um guerreiro, e cada triângulo representa os clãs de um povo. Quando se juntam eles estão unidos e tem força, nada pode derrubar eles. Se está junto você está em harmonia, você consegue vencer a guerra.” Metáfora também representada pela intervenção -mar de gente- performance concebida pelos ocupantes do curso de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais.

 

No entanto, nem todos estavam em harmonia. Apesar da disputa pelo protagonismo do ato, organizações sociais tradicionais estavam diluídos na grande massa. Nesta, como em outras oportunidades, fazer parte de um movimento sem líderes e horizontal foi um desafio que nem todos concordaram.

Para uma militante petista, as críticas aos governos Lula e Dilma são práticas “golpistas” e quem as fizer atrapalha o movimento. Ela conta que há dois anos sua vida gira em torno de lutar contra o golpe de estado e que essa manifestação em Brasília foi uma das tantas que participou nos últimos 24 meses. Ela precisou conviver com as discordâncias nas conversas sobre política durante viagem.

“Nunca fui viúva do Lula. Desde que ele colocou como vice o dono da maior empresa têxtil do Brasil, eu sabia que faríamos um mandato tanto para os empresários, quanto para os trabalhadores”, é a opinião de Nicolau Almeida, assessor sindical de 49 anos – 30 deles envolvidos na militância. Ele pintou à mão camisetas na primeira campanha de Lula à presidência da república, em 1989.

Foi possível perceber três visões nas discussões sobre o Partido dos Trabalhadores (PT) no poder. A primeira representa uma defesa incansável dos governos petistas, interpretando-os como vítimas de adversários corruptos e da grande mídia. A segunda trata de uma grande decepção, pois seus ex-militantes acreditavam em profundas mudanças estruturais com a vitória da esquerda e com um presidente oriundo das classes populares. A última reflete uma interpretação das ambiguidades das gestões de Lula e Dilma, creditando valor de transformação nas políticas de inclusão social e na expansão das universidades, por exemplo.

Foto: Marcelo de Franceschi/ MARUIM

Foto: Marcelo de Franceschi/ MARUIM

Havia quem não acreditasse na democracia representativa e nas eleições. E entre os críticos do atual sistema, alguns eram contra qualquer forma de estado e outros defendiam um governo popular. Dessas diferentes concepções de sociedade, surgem diferentes visões de ação política, do pacifismo às ações diretas.  

Atualmente, Nicolau vê o campo político progressista em renovação. “Secundaristas são uma esperança, até porque nós estamos ficando velhos. Dos que militaram comigo há 30 anos, muitos se acomodaram.” A jornalista sindical, Fabíola de Souza, 57 anos, entre críticas e reflexões sobre o sindicalismo e os partidos no Brasil, observa sobre a juventude: “Não existe uma linha político-partidária dirigindo esse movimento das ocupações, estão nos mostrando que a gente tem que se juntar e dar uma nova cara”. Nicolau conclui que “a resistência neste momento são os estudantes, nós [sindicalistas] estamos indo a reboque”.

Ambos se referem a estreantes como Lucas Schuster dos Santos, secundarista de 17 anos e um dos ocupantes do Colégio de Aplicação UFSC. Pela primeira vez em Brasília, o que mais lhe marcou foi o sentimento de impotência ao ver dois amigos sendo presos injustamente. O jovem pondera ainda não conhecer muito sobre política mas, desde que se envolveu com o grêmio estudantil, tem estudado o tema.

Foto: Anderson Dias Silveira/ MARUIM

Foto: Anderson Dias Silveira/ MARUIM

Os novos movimentos se dividem em grupos que parecem seguir a trajetória dos tradicionais partidos e sindicatos, e indivíduos que buscam outras formas de organização. Parte dessa geração atua como independente, muitos criam coletivos autônomos.

As distintas gerações apontam caminhos para os movimentos sociais no Brasil. Fabíola acredita na união, “ir pra rua junto e dar mais visibilidade para nossa força, os meios de aproximar é que não tenho ideia de como se faz”. Lucas pensa que é preciso agir, mas sem deixar ninguém de fora.

“Temos que fazer o mundo a partir de agora. Não pode excluir essas pessoas que pensam de modo diferente, tem que trabalhar com elas”.