Florianópolis, 21 de novembro de 2017
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Interpretando a violência nas ocupações: um olhar da psicologia

Reportagem:

Reportagem de Lívia Tokasiki e Luísa Michels

As ocupações de instituições de ensino por estudantes terminaram, mas foram marcadas pela judicialização e ataques violentos de grupos contrários ao movimento. Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), dois casos ganharam destaque nas redes sociais. Um dos episódios, ocorrido no dia 16/11, no Centro de Comunicação e Expressão (CCE), envolveu comportamento hostil do ex-diretor do centro e então pró-reitor de graduação da UFSC (foi exonerado, a pedido, após o caso), o professor de Letras Felício Margotti. 

O segundo caso aconteceu no Centro Socioeconômico (CSE), no dia 19/11, quando uma discussão entre alunos pró e contra ocupação acabou resultando em uma briga generalizada, com ao menos duas pessoas encaminhadas para atendimento médico e oito estudantes com boletins de ocorrência registrados na 5ª Delegacia de Polícia da Capital.

Em face à recorrência de eventos como esses, que evidenciam a carência de discussões e a ascensão do discurso de ódio, o MARUIM conversou com a psicóloga Daniela Mayorca, que estuda a psicanálise aplicada à violência e movimentos sociais. Seu trabalho busca compreender, a partir da visão psico-social, a prática desse tipo de atitude e comportamento. Atualmente, faz parte do projeto Clínicas do Testemunho, da Comissão da Anistia, no qual trabalha com a reparação psíquica das vítimas dos abusos oriundos da violência de Estado no Brasil ditatorial.

Diálogo: a solução para um trauma cíclico

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A ocupação do CSE, na UFSC, não paralisou as aulas, mas foi alvo de atos de rejeição organizados por grupos de estudantes. Foram comuns ameaças e até violência física. Foto: Divulgação/OcupaCSE

Diante do processo histórico atravessado pelo cerceamento da democracia, vivido no Brasil desde a primeira metade do século XX, é possível visualizar que o país tem hoje uma realidade semelhante à vivenciada há meio século: o descontentamento com a esquerda e a ascensão dos movimentos conservadores. Esse fenômeno cíclico solidifica o discurso agressivo e, consequentemente, a carência de um diálogo construtivo acerca das questões de insatisfação popular, como é o caso da PEC 55 e da MP do Ensino Médio.

A razão para a prática da violência contra movimentos sociais, na visão de Daniela Mayorca, vem de um trauma não tratado. Segundo a psicóloga, “o trauma é algo da ordem de um excesso, seja na vida particular, seja na vida coletiva, que é difícil de ser inscrito na história de vida ou na história de um país”. Segundo ela, esses traumas podem se manifestar a partir de um discurso ou atitude que perturba o indivíduo. Ao não conseguir lidar com esse incômodo, as pessoas recorrem à brutalidade. No coletivo, esse tipo de comportamento é decorrência da atitude coercitiva tomada pelo Estado durante as ditaduras ocorridas no Brasil, que resultaram numa sociedade sistematizada na ordem do silêncio e do impedimento do diálogo político.

Quando o trauma não é reparado, ele dá margem à repetição dessa violência. Daniela explica que a forma de tratar esse impacto é através da fala e da conversa. A partir do diálogo, testemunhos são traçados e se constrói coletivamente uma memória que, segundo ela, chega muito perto da verdade, para recontar a história e evitar que esse choque se repita. Dessa maneira, pode-se inserir o trauma dessas pessoas, antes individualizado, na história do país.

Uma resposta à insatisfação com o pacto social

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O ex-diretor do CCE, autor de agressões contra estudantes da ocupação, já foi alvo de campanhas de rechaço em anos anteriores. Foto: Divulgação/OcupaCCE

A atitude violenta também pode ser enxergada como reação a um descontentamento. A rejeição social à PEC do teto dos gastos (55) e à reforma do ensino médio pode ser demonstrada de diferentes maneiras, sendo uma delas a agressiva. Daniela Mayorca assinala que a insatisfação com o pacto social — o ideal do bem comum, da convivência harmônica — e, mais ainda, com o Estado, que é um grande componente para que esse pacto funcione, provoca a construção de diversas formas de manifestação de indignação. No caso das ocupações, não só o movimento de massa, mas também a própria violência pode ser entendida como uma resposta às medidas que o atual governo vem tomando.

A psicóloga afirma que a agressividade não pode ser vista com moralismo, explicando, segundo Freud, que trata-se de um componente que constitui a base das relações humanas. Seguindo ainda esse pensamento, a agressividade seria uma grande força de desligamento entre pessoas, fazendo com que grupos se dispersem em outros, juntando indivíduos que partilham de pensamentos mais próximos. Essa difusão leva à polarização dos movimentos sociais, que, nas universidades, pode ser vista na fragmentação da frente favorável às ocupações, que se divide naqueles que são contra e a favor da paralisação das aulas.

Violência: Um sintoma social

“É importante entender a violência como um sintoma social que não pode ser tomado como algo perverso, pois há um tipo de discurso, por trás desse corpo que agride, que o afeta”, observa a psicóloga. O ato agressivo deve ser compreendido como uma resposta a algo que não se consegue mais tolerar por algum motivo, como a desvalorização de uma opinião, a dificuldade de se conseguir articular sobre um assunto ou a falta de um espaço de discussão. Ela acredita que as ocupações deveriam ser esse espaço de abertura para o debate.

Daniela compara  o discurso que afeta o indivíduo a uma flecha cravada na pele. Se não retirada, ela causa reações que sinalizam o incômodo. Essa reação sintomática é a violência. Dessa forma, não se deveria responsabilizar pelas atitudes agressivas apenas o sujeito que agride, mas também reconhecer uma carga de responsabilidade nesse discurso que o perturba. Essa interpretação não justifica os atos de violência, mas dá abertura para uma possível compreensão dos acontecimentos das últimas semanas.

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Uma das reivindicações históricas do movimento estudantil no CCE é ampliação dos espaços de discussão no centro, e a garantia da efetiva participação dos estudantes. Foto: Divulgação/OcupaCCE

Um outro pretexto que pode levar a violência é o medo de uma ameaça. A psicóloga faz uma referência a cultura do silêncio, enraizada durante a ditadura cívico-militar pela expressão “sobre política não se fala”, e demonstra a dificuldade da/o brasileira/o em comunicar sua opinião, principalmente política — decorrência desse período de repressão.

Um reflexo da internet

A internet permite a criação de identidades no plano virtual que, apesar de se conectarem em rede, possuem um relacionamento distante, sem afeto. Daniela afirma que a internet como um ambiente de discussão é problemática, à medida que esse distanciamento desumaniza a prática do diálogo, do ato de falar, escutar e afetar-se.

Ela comenta que a proposta política originada desse ambiente desumanizado é a mesma do regime do medo, que afasta opiniões discordantes. A internet é o espaço ideal para que, em meio a relações artificiais, a aversão à mudança de posicionamento e a intolerância ao discurso da oposição se intensifiquem. Além disso, a psicóloga associa essa falta de sensibilidade com a superficialidade da plataforma, que “dá lugar àquilo que é da ordem da fala vazia, da política da não-afetação”.  

Da mesma forma que é difícil se sensibilizar com a opinião de um indivíduo que está virtualmente distante, a psicóloga enxerga que a afetação política sobre as ações que cercam os efeitos da PEC 55 e da MP 746 também está longe de ser conquistada. “O que está sendo votado agora só vai surtir efeito no ano que vem. Hoje, a única coisa que elas [pessoas contrárias à ocupação] estão sentindo é que antes tinham aula e agora não. Elas ainda não sentem o incômodo por parte do governo”, completa Daniela Mayorca.