Florianópolis, 21 de novembro de 2017
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Do alto da escadaria da José Boiteux, moradora fala sobre acesso à cidade

Reportagem:

Texto: Linda Inês Pereira Lima

Fotos: Júlia Orige

Do alto da escadaria da rua José Boiteux, no maciço do Morro da Cruz, a moradora de duas décadas Luciana Freitas observa a avenida Mauro Ramos abaixo. “A gente aqui em cima costuma chamar a Mauro Ramos de Faixa de Gaza, porque para nós é como se fosse uma linha dividindo o morro e o resto da cidade.” Ela afirma que nunca viu mudança de infraestrutura e saneamento básico no local.

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Subir diariamente a escada estreita de cimento batido e apoiar-se no corrimão fino irregular fazem parte do cotidiano da família de Luciana e da população da comunidade central de Florianópolis. Foto: Júlia Orige

Os 365 degraus da escadaria construída há 40 anos na rua José Boiteux estão marcados por algumas reformas ao longo dos últimos anos. Na transposição entre as comunidades vizinhas José Boiteux e o Monte Serrat, um dos pontos mais íngremes do morro, é possível se apoiar no corrimão amarelo feito pela prefeitura no carnaval de 2015. “Foi até bom o trabalho que eles fizeram aqui na escada ano passado.” Segundo Luciana, o topo do morro antes era coberto por mato alto e não havia degraus naquela parte, apenas uma trilha de terra batida por onde as pessoas passavam. “Esse caminho é muito usado para quem vai pegar ônibus, e mora mais em cima no morro.”

Outra característica marcante no cotidiano de quem mora na José Boiteux é a coleta de lixo. O caminhão da Comcap chega somente no início da escadaria e recolhe os sacos próximos na rua de baixo. “Para jogar o lixo quem mora lá em cima, desce tudo ou sobe para deixar o lixo no Mont Serrat.” A José Boiteux faz divisa com as comunidades Santa Clara e Monte Serrat, que dão acesso a outras regiões da cidade através das estradas que cortam o maciço do Morro da Cruz.

A dificuldade de acesso enfrentada pelo caminhão do lixo também dificulta a mobilidade das/os moradoras/es. Luciana conta que várias vezes deixou de descer o morro por causa da locomoção entre a comunidade e o centro da cidade. “A mobilidade se torna um entrave na vida do cidadão periférico, um obstáculo a mais para ter uma vida social.”

O maciço do Morro da Cruz, no centro de Florianópolis, é formado por 16 comunidades, a rua José Boiteux está no projeto da prefeitura para melhorias na infraestrutura e saneamento básico. Iniciada a discussão e pesquisas há mais de dez anos, em 2005, o projeto está vinculado ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), do governo federal em Santa Catarina, que pretende abranger a população.

Estão previstas modificações no espaço físico das comunidades e suportes que podem melhorar a mobilidade no local, como o transporte sobre trilhos. De acordo com a prefeitura, a ideia inicial traçada em 2011 durante o governo de Dário Berger era construir um sistema de bondinhos para melhorar a mobilidade dos moradores da rua José Boiteux.

Depois de cinco anos e com a mudança de governos a proposta não foi levada adiante. A única melhoria no dia a dia da comunidade José Boiteux foi a reforma feita na escadaria em 2015. Outros aspectos como saneamento básico segundo relatos de Luciana ainda não foram providos pela prefeitura aos moradores.

Acesso à cidade

Em 20 anos como moradora do maciço, a estudante de Ciências Sociais e membro do Coletivo Negro 4P, Luciana Freitas viu uma cidade que se recolhe às suas tradições e reserva pouco às comunidades. “Quando eu era mais nova, a gente descia o morro, ia aos bailes que aconteciam no centro, que eram frequentados pela comunidade negra de Florianópolis.” Ela conta das festas da Embaixada Copa Lord e do Clube 15 que eram frequentadas pela comunidade negra e que não existem mais no centro. “O mercado público nos anos 1990 era um local extremamente negro. Todas as sextas-feiras aquele lugar ficava lotado de gente.” Ao comparar o espaço do mercado público de hoje ao que costumava frequentar nos anos 90, Luciana usa o termo “gourmet”.

A estudante cita ainda outros locais que eram referência para as comunidades no centro de Florianópolis. Lembra-se dos sambas e outros encontros nos espaços públicos. “Até uns anos atrás acontecia roda de capoeira no vão do Mercado Público, as batalhas de rap também. Hoje não acontece mais.” Em 2014, com o início das obras de restauração da ala sul e norte do mercado público, os acontecimentos culturais característicos do Largo da Alfândega, como a capoeira e o reggae de quinta-feira, foram suprimidos por proibições e cerceamento da Polícia Militar. Após a inauguração do “novo Mercado Público” não restou lugar para as festas de antes, gratuitas e abertas às comunidades. “É uma forma de você pensar uma nova higienização da cidade, sabe? Eles tornaram uma cidade histórica em algo cult.”