Florianópolis, 21 de novembro de 2017
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A rotina que viveu a comunidade do Horácio após morte de policial militar

Reportagem:

Reportagem de Clarissa Levy

A escola ficou vazia, com menos da metade de seus agitados e pequeninos frequentadores habituais, nos dias que sucederam a madrugada de morte (15/9) de um policial militar e  um morador, na comunidade do Morro do Horácio. Poucos pais arriscavam deixar seus filhos saírem de casa naquela atmosfera de tensão e insegurança: se durante a noite ouviram-se tiros, a polícia invadiu casas e machucou moradores, não se sabia o que esperar dos dias seguintes que já amanheciam com oficiais carregando fuzis pelas vielas do bairro. Quase uma semana depois da funesta madrugada, a casa de dona Marisa*, mãe do morador que como já contaram ao MARUIM foi alvejado na cama em frente a sua esposa e filho,  acordava pela terceira vez com a Polícia dentro do quintal.

Dona Ivone* quando resolveu deixar suas crianças voltarem a jogar bola no campinho – “mesmo com aquele clima, eles precisavam se distrair, né” – nem precisou de tempo para se arrepender da decisão: menos de vinte minutos e os filhos voltavam para casa correndo, de mãos dadas com os menores que tremiam de medo dos policiais que desceram da viatura quando quase saía o primeiro gol da partida. “É que depois daquela noite que eles vieram aqui em casa, bateram no pai e na mãe,  só de ver, não sei o que acontece, tremo toda”, me explica Gabriela*, a filha de sete anos.  

“Você está aqui por que eles também entraram na sua casa?” me pergunta Gabriela.  Faz quase um mês da madrugada em que policiais arrombaram a porta, entraram aos berros perguntando sobre a morte do soldado Vinícius e o levaram seu pai Luciano para apanhar no quintal. Mas o medo de acordar com policiais armados na beirada da cama, sem mandado ou justificativa judicial, ainda acompanha o sono dos moradores todas as noites.

A essa altura já sumiu da nuca de Luciano a marca do cabo de vassoura que o fez desmaiar na mesma noite e que ele me mostrou dias depois. Também já consertou-se a fechadura da porta e passou a vermelhidão do rosto de Ivone, que ela conta, veio em resposta ao seu pedido de “calma, não faz isso com meu marido, temos crianças em casa”. Mas o regime de exceção, como a  advogada popular Daniela Félix caracterizou a situação de vida da comunidade, perdura.

“É verdade que semanas atrás estava muito ruim, com crianças sendo revistadas no paredão, os alunos contando dos móveis quebrados nas invasões policiais e pouca gente tendo coragem para sair de casa. Mas acho que ainda pior é a sensação de normalidade que fica mesmo depois disso tudo” me conta a professora Joana*, sobre a impressão que tem das crianças de sete e dez anos para as quais dá aula.

Se não fosse a falta d’água, outra realidade comum nas comunidades menos abastadas da Ilha, nos primeiros dias da semana passada a Escola Desdobrada Oswaldo Galupo estaria de novo cheia. “É claro que dá pra notar as crianças bem mais dispersas, agitadas, mas vão passando os dias e não se fala mais no assunto”, uma outra professora comenta. No fundo, a situação de violência não é anormal para eles, Joana me diz. A professora conta que percebe, por exemplo, mais perplexidade nas crianças falando das TVs que foram quebradas durante  a invasão na casa do vizinho do que do som de tiros ou das mortes.  

Talvez seja por isso que Jéssica,  uma das crianças que ouviu policiais mandando deixar a luz apagada enquanto entravam armados para uma busca em sua casa, me disse com dolorosa naturalidade:

“eu não entendo, olha quantos eles já mataram daqui, foi muitos. Mas quando morre um deles, os policiais entram nas nossas casas, gente que não tem nada ver com nada, e bate e quebra”. Na casa de Jéssica, a polícia que entrou gritando “hoje esse morro vai vir abaixo”, não tinha mandado judicial ou  suspeita para justificar busca noturna. Saiu sem encontrar qualquer material ilícito, como em todas as outras casas que realizaram busca, deixando apenas o “stress pós traumático” que os agentes de saúde da comunidade diagnosticaram em seguida.

Nos dias seguintes aos episódios de violação, apareceram relatos de sofrimento psíquico em cerca de 40% dos atendimentos médicos a pacientes da comunidade que foram ao postinho de saúde. Na semana das mortes a visita quinzenal da equipe de medicina da família à comunidade não pode acontecer pois nem o motorista do Centro de Saúde nem os agentes comunitários se sentiam confortáveis para subir até o bairro. Um dos pacientes em estado pós operatório com uso de sondas, que necessitava assistência em casa, ficou sem a visita.

Os relatos de insônia, inclusive em crianças, e de “meu filho não quer mais entrar em casa” foram frequentes na Unidade Básica de Saúde da Agronômica, que atende a região. Para a médica da família, Camila Boff, os traumas vividos tem consequência imediata no aumento dos níveis de ansiedade da população, mas também geram danos de longo prazo. “Quando a situação de violência vem da força estatal provoca um medo difuso, uma profunda sensação de insegurança, de não ter para onde fugir”, completa. A falta de psicólogos nas equipes e sobrecarga de alguma delas, é um dos problemas apontados tanto por Camila como por médicos que atendem a comunidade: “os profissionais trabalham sempre no limite”, me relataram.

Os traumas dos abusos policiais que surgiram nas consultas médicas também foram discutidos em reunião com Defensoria Pública e com a Corregedoria da Polícia Militar. Mas a sensação de insegurança persiste ainda palpável em conversas com moradores. “Agora até que a  situação se normalizou, mas até quando?”,  pergunta uma.

A organização comunitária do Horácio estima que  menos de 2% dos moradores seja envolvido com o tráfico, o que faz ainda maior o lamento de Daniela Félix,  advogada responsável pela organização de um processo de averiguação e denúncia dos abusos, quando me afirma que “no fundo, são trabalhadores que sofreram e sempre sofrem com ações policiais deste tipo nas comunidades”.

A comunidade do Morro do Horácio permanece com uma blitz na avenida principal e vez ou outra, mergulha de novo no medo quando vê começarem  as incursões policiais pelas vielas. Há alguns dias a escola teve de fechar mais cedo pois os pais foram buscar seus filhos antes do horário aflitos com o sobrevoo de um helicóptero. Mas na minha última visita,  ouvi menos sobre as linhas de tiro e mais sobre o planejamento do evento do dia das crianças, quase aí. Dia 12 vai ter pula-pula, pipoca e algodão-doce, prometeram.

 

* Para esta reportagem o Maruim ouviu moradoras/es, profissionais da educação e  da saúde pública que atendem na comunidade. Os nomes acompanhados de (*) foram alterados para proteção da identidade, solicitação feita pelos entrevistados em função do clima de tensão vivido.