Florianópolis, 21 de novembro de 2017
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Morte de PM no Horácio transforma vida da comunidade em regime de exceção

Reportagem:

Reportagem de Joana Zanotto

Sexta-feira (16/9). Madrugada. Carla* despertou às 3h ao ser surpreendida com a porta de sua casa sendo arrombada. “Ele deve ter tentado empurrar a porta para o lado errado por isso não conseguiu abrir e começou a chutar”. Um policial ficou na entrada com o fuzil empunhado enquanto os demais entraram, sem pedir licença. Cerca de quatro agentes encapuzados tiraram todos os homens da família de dentro da residência. “Eu tentei impedir, o policial me segurou pelo braço para eu não pegar meu celular. Eu falava que era um abuso o que eles tavam fazendo. Eu falava: calma, calma que tenho meus filhos em casa”. Com um cabo de vassoura, os policiais espancaram os moradores pelas costas. “Empilharam meu marido, genro e primo no chão para bater neles.”

Carla relata acompanhada da família as cenas que vivenciou dias atrás. A filha mais velha sentada próxima da mãe ajuda a recordar os detalhes. Depois preferem que a reportagem não publique tudo, com receio de serem reconhecidas. As duas estão visivelmente abaladas. Em um momento, Carla comenta que acordou o companheiro na noite de domingo para levá-la ao banheiro pois tinha medo de ir sozinha até a sala.

A reportagem ouviu nesta segunda-feira (19/9) dezenas de moradores no Morro do Horácio que deram seus depoimentos sobre as violências sofridas pela comunidade desde a última quinta-feira (15/9), quando o Policial Militar Vinícius Alexandres Gonçalves foi assassinado no local. Um morador foi baleado e está internado no Hospital Universitário e outro foi morto. Segundo Daniela Felix, do Coletivo Catarina de advocacia popular, “diante dos relatos há fortes indícios de que o homem assassinado estava na cama com a esposa e o filho de dois anos quando foi alvejado pelos tiros da PM”.

Daniela explica que desde a semana passada o Coletivo Catarina junto a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no estado tentam marcar reunião com o Comando Geral da Polícia Militar. “Só hoje tentamos cinco vezes. Eles nos falam que terão agenda apenas na semana que vem”. Daniela diz que o grupo está coletando testemunhos para prestar uma queixa coletiva. “Os moradores não estão registrando Boletim de Ocorrência porque para fazer o B.O. é preciso se identificar. Vamos prestar a queixa coletiva.”

Os principais abusos cometidos na comunidade, segundo Daniela, seriam “toque de recolher não declarado, buscas e apreensões nas residências à noite sem mandado, apreensão de todos os carros que estavam estacionados na rua, destruição de patrimônio particular, revistas em crianças e senhores de idade sem respeito”. Nas palavras da advogada, “um regime de exceção”. No domingo (18/9), um grupo de moradores protestou contra as violações em frente à Casa d’Agronômica.

Toque de recolher

Ao pé do Morro do Horácio, viaturas policiais barram a entrada. Apresento-me como repórter para tentar conversar e fotografar. Recebo a recomendação de um dos agentes de que nenhum policial poderia ser registrado. Caminhando pela rua principal, a Antônio Carlos Ferreira, chamam a atenção os buracos de balas nos muros e na parede da Igreja. Os moradores apontam para as marcas recentes das trocas de tiros da última quinta. O transformador que fica ao lado da mercearia foi trocado, uma das coisas atingidas.

Muitas portas estão arrombadas ou, nota-se, recém-restauradas. Em alguns domicílios os pertences dos moradores foram revirados, móveis e eletrodomésticos destruídos. As viaturas da Polícia Militar, do Choque e do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) realizam rondas incansáveis do pé ao alto do morro, sempre com os fuzis apontados para a rua, onde circulam os moradores.

Uma senhora de mais de 50 anos comenta “a noite é pior, eles descem a pé”. A reportagem do MARUIM deixou a comunidade por volta das 18h quando começavam as primeiras incursões noturnas. Diante dos cinco agentes armados saindo de um beco para a rua principal, as pessoas que estavam no ponto de ônibus pareceram não se incomodar, ao menos não alteraram em nada a maneira como agiam. Mais tarde, as ruas se esvaziariam.

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Na guerra não há vencedores

Em entrevista para o Diário Catarinense (DC), o Comandante Geral da PM Paulo Henrique Hemm falou que “eles [os policiais] estão abatidos pela perda do irmão, mas não estão abatidos em continuar nessa luta desleal contra a criminalidade. Continuamos motivados porque essa é a nossa grande vocação  e o nosso grande juramento. Esse policial [Vinicius] foi um exemplo.”

Vinicius, o PM assassinado, morava no Horácio antes de entrar para a corporação. Segundo a mesma entrevista publicada pelo DC no final de semana, “na noite de quinta, momentos antes de morrer, o policial trocou mensagens com um oficial da PM pedindo para assumir um posto no BOPE. No áudio enviado disse que atuar no BOPE era um sonho.”

Nesta terça-feira (20/9), em entrevista para o MARUIM, o tenente-coronel Marcelo Pontes, comandante do 4º Batalhão, ao ser questionado sobre os abusos de autoridade disse que a polícia está agindo dentro da legalidade. “Se por qualquer ventura alguém achar que tem algo sendo feito irregular deve denunciar na Corregedoria da PM.”

O comandante também pediu apoio da sociedade e da mídia a PM. Para ele, “o tráfico de drogas está ligado aos crimes, furtos, tudo que a gente vê. A gente tem agido em locais de risco onde se concentram os criminosos e as fontes de drogas. O apoio da comunidade é essencial.”

*Na reportagem foi usado nome fictício por solicitação da entrevistada