Florianópolis, 22 de novembro de 2017
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PRÓXIMA PARADA MONTE SERRAT (PARTE IV)

Próxima parada: Monte Serrat (parte IV)

Reportagem:

Capítulo 4

Transporte e comunidade hoje

No Monte Serrat, morador te analisa e não esconde que tá te filmando e vendo se pode confiar. “Olhando assim, bem no teu olho, acho que tu é uma boa pessoa”, disse um morador, me fitando. E, quando ele confia, conta tudo à repórter, que sente na pele o motivo da confiança. “O Anderson sabe que eu não me abro muito, como tô fazendo agora”. Negro não quer mais ter sua história contada por brancos. Negro quer ter um discurso sobre si mesmo, e é por isso que, no Monte Serrat, uma comunidade construída por negros e ainda habitada por uma maioria negra, irmão de cor ajuda irmão de cor.

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Logo de cara, às 8h da manhã, leram-me. Eu que jurava que iria passar despercebida, na primeira manhã que acordei moradora do morro, fui seduzida pelo cheiro do pão novinho. A janela da quitinete que residi por três meses (março, abril e maio de 2016), no Alto Caieira, comunidade que divide a Rua General Vieira da Rosa com o Monte Serrat, dava para os fundos do Ponto Final Mercado, Padaria e Açougue. Enquanto pesava o pão o atendente me falou: “Tu não é daqui, né?”. Pois é, não era, e mesmo explicando para os entrevistados que havia nascido na parte continental de Florianópolis, me perguntavam nome e sobrenome da mãe e do pai. Era preciso investigar se tinha algum parentesco meu na comunidade. Mas quando não chegavam em parentesco algum eu revelava, assim como se quisesse consolá-los: “Sabe a família do Seu Dascuia? Eles são dos Anjos também”. Era um alívio. (Altamiro José dos Anjos é morador da comunidade do Morro do Céu, próxima ao Monte Serrat).

Ponto de encontro

Nos pontos de ônibus, dentro da comunidade, a conversa pode começar com uma reclamação: “Esse ônibus está atrasado, né?” ou com um pedido de informação: “Sabe que horas ele passa?” e, pronto, uma brecha para um dedo de prosa é aberta, e é preciso aproveitá-la antes de o ônibus chegar. É verdade que em qualquer ponto de espera da cidade isso pode acontecer, mas nesses três meses de Monte Serrat, percebi que o dedo pode virar mão, braço, pescoço, pois se na segunda-feira são cinco minutos de conversa, na quarta o assunto perdura e pode até alcançar outras pessoas, ganhar contornos, ter início e meio, basta querer ouvir ou participar.

Com os olhos fixos no celular, Flávia – uma jovem de estatura baixa, cabelos pretos, compridos, ondulados, pele branca -, espera o ônibus perto das 10h da manhã. Quando pergunto se está no ponto há muito tempo, responde que não, mas acha que daqui a pouco passará um.

Alguns segundos depois, ela aproveita a brecha:

– Você está indo trabalhar?

– Na verdade eu fui demitida esta semana.

– Nossa, eu também. Te perguntei, porque tô procurando um novo emprego. Tô indo agora ali no Sine. Sabe?

O Sistema Nacional de Emprego, localizado na Avenida Mauro Ramos, ao pé do morro, é o destino de Flávia, que aos 16 anos procura uma vaga. Ela precisa ajudar nas contas da casa. Mora com o marido, uns sete anos mais velho, com a irmã e sua namorada, no Alto Caieira. A escola largou no ano passado, mas quer voltar. Só que passar três anos dentro de uma sala de aula não está em seus planos, ela prefere fazer um supletivo e acabar logo o ensino médio.  Mas quando eu disse que estava na universidade, Flávia revelou que pensava em ser psicóloga.

– E você trabalhava com que?

– De auxiliar de cozinha, mas só fiquei um mês. – Responde Flávia.

Não teve justa causa, era só um período de experiência, que não foi aprovado pela dona da empresa. O problema era que o marido da patroa não saia de perto de Flávia, na cozinha. Em um mês viraram amigos. “Eu não queria nada com ele, já sou casada há um ano”. Ela não sabia qual era a intenção do homem, mas gostava mesmo era de conversar com ele. Só que no final do mês a patroa chegou para ela e disse: “Flávia, não precisa mais vir não”, sem dar explicação nenhuma.

– É tão triste quando uma mulher faz isso com outra, né?

– É verdade. Ela devia se resolver com o marido dela. Se ele se aproximou de mim, vai fazer o mesmo com outra.

Naqueles dias, o repentino frio rigoroso estava dando uma trégua. Então, ao invés do vento cortante, da neblina que não dissipava antes das 9h da amanhã, ali no ponto final do Monte Serrat, aonde Flávia contava seus planos para vida, as aberturas de sol deixavam o tempo agradável. Um vira-lata preto e corpulento aproveitava o pouco movimento de carros para deitar no meio da rua, que em seus extremos abriga o Bar Ponto Final, o Ponto Final Mercado, Padaria e Açougue e o Ponto Certo Materiais de Construção.

A linha Monte Serrat passou a ter seu ponto final no Alto Caieira, em 2005 (dois anos antes o número da linha 113 foi modificado para 764), para atender uma população que há 23 anos não existia. Segundo o membro da atual gestão do Conselho Comunitário do Monte Serrat, Anderson Ferreira, alguns moradores já foram à secretaria reclamar sobre a superlotação da linha 764 – Monte Serrat em detrimento da utilização da mesma por duas comunidades. “Mas ainda é um entrave para nós”, ressalta Anderson.

Em 2012, foi inaugurada a linha 191 –Transcaieira, uma linha circular que, nos dias úteis, contém sete horários com saída do Ticen (Terminal de Integração do Centro) e oito com saída do Titri (Terminal de Integração da Trindade). Nos sábados e domingos a linha não opera. De acordo com a presidente do Conselho Comunitário do bairro Caieira, Rosemeri Melo de Souza, a comunidade necessita de mais horários da linha 191. “Recebo muitas reclamações sobre os poucos horários da linha e sobre o mau funcionamento da linha Monte Serrat”, relata a presidente.

Pedir uma carona no ônibus é comum no Monte Serrat. Tem quem entre no ônibus pedindo: “Motorista me dá uma caroninha até a escola?”, já outros permanecem na parte da frente do ônibus e desembarcam pela porta da frente. Quando estão em grupos, as crianças e adolescentes pedem para o motorista: “Abre a porta de trás?”.

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Todos os dias pela manhã, uma senhora e seus cinco filhos pequenos pegam carona no ônibus até a o terminal do centro para trabalhar. Um dia, a mulher contava moedas no ponto de ônibus.

– Quanto deu mãe? – Pergunta uma das filhas.

– 160.

– Quanto a gente vai ter que fazer?

– 100.

Dias atrás, eu havia embarcado no ônibus com a mesma família. Estava indo ao Mercado Público para entrevistar uma pessoa que já não morava mais na comunidade. Enquanto a linha ia descendo o morro, parando nos pontos, a parte da frente do ônibus ia ficando cheia, mas a parte de trás continuava com bancos vagos. Algumas pessoas que entravam no ônibus e tinham dificuldade de passar a catraca começaram a reclamar verbalmente contra a permanência das pessoas, não idosas, naquele local. A mãe e seus filhos ficaram na frente, até a insistência dos passageiros ficar insuportável. A senhora pagou sua passagem e da filha mais velha, e passou a catraca. Meia hora depois, a filha mais velha oferecia um saquinho de balas de goma para mim e meu entrevistado, no Mercado Público.

No terminal do centro, de onde partea linha em direção ao Monte Serrat, às 18h40, é a condução do trabalhador e do estudante de volta para a casa. A fila é quilométrica. Quando o veículo abre as portas, as senhoras ocupam o fundo do ônibus. São elas de pele negra, e aparentam uns 50 anos. Compartilham semelhanças essas senhoras. Todas estão com seus cabelos amarrados para trás, vestidas com camisetes brancos, ou azuis bebê, calças azul-marinho ou pretas. Se o ônibus atrasa, elas já sentam cheias de assunto para discutir, porque sabem que é um absurdo o frequente atraso de vinte minutos, toda semana.

Sobre os atrasos frequentes, motorista e cobrador não sabem explicar. Então os trabalhadores se estranham, levantam a voz um com outro, se dividem entre frente e fundo de ônibus. Na frente, eles falam: “Não podemos fazer nada, a viagem que atrasou não era a nossa. Não sabemos o que aconteceu”.  No fundo, elas comentam entre si: “É porque é linha de morro, então eles não estão nem aí”. No terminal, o fiscal desaparece, não é encontrado, fica de longe assistindo alguns passageiros acordar da espera demasiada e reclamar em voz alta. O SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) do Consórcio Fênix informou quenão há queixas referente a esse horário no sistema.

 

Nos fins de tarde, dentro do ônibus, dá de contar as crianças nos dedos. A maioria está em casa com os irmãos, ou esperam as mães chegaram do trabalho, nas casas dos vizinhos. Os horários entre as 17h30 e 18h são os que lotam de crianças no ônibus e na rua. É hora de voltar para casa, tanto para quem estudou a tarde toda, como para quem participou doprojeto de contra turno do colégio Marista.

Em uma manhã, quando uma das aulas do projeto foi suspensa, Emily, de 11 anos, foi incumbida de me mostrar a estrutura da escola, já que Nana Um dificilmente sai de seu posto, pois é muito requisitada pelos alunos.

– Emily mostra a escola para essa menina. – Fala Nana.

– Oi. Tu conseguiu achar uma casa? –Me pergunta Emily.

– Oi. Consegui sim. Mas como tu sabe que eu estava procurando uma casa?

– Um dia tu perguntou na rua, para mim e para a minha mãe, se a gente sabia onde tinha uma casa para alugar.

Já fazia dois meses e meio que estava no Monte Serrat quando reencontrei Emily. Nos meses de janeiro e fevereiro havia procurado casas para alugar batendo nas portas e para as pessoas que passavam na rua. Apesar das opções que encontrei dentro da comunidade, acabei escolhendo morar no Alto Caieira, pois a quitinete ficava bem em frente ao ponto final da linha Monte Serrat, e parecia uma boa localização para começar a apuração.

Emily mora em frente à escola, mas é dentro da instituição que fica de manhã e à tarde. E é com essa apropriação do espaço que a menina vai mostrando o colégio. No começo abre as salas onde os professores ministram aulas, até que explico que não gostaria de atrapalhar todas as aulas. Apresenta a coordenação, a cozinha, a biblioteca, o ginásio. Em e conta das vezes que saiu correndo do banheiro por causa do medo que tem da Maria Sangrenta. Quando explico o meu trabalho sobre os ônibus, ela estampa no rosto uma expressão de surpresa. A garota não fazia ideia que nem sempre o ônibus subiu no morro:

– E você nasceu aqui no Monte Serrat?

 

– Eu nasci aqui, e minha mãe também.

– E ela te contou que não tinha ônibus aqui há uns vinte anos atrás? – Emily me olha impressionada com a informação.

 

No cotidiano da linha

upload-ec51d140-41e5-11e6-b1b7-d996e42385d8 “Esses novinhos são fodas”, disse uma passageira sentada nos últimos bancos do ônibus para as suas companheiras do fundão. O ‘novinho’ a quem se referia era um cobrador que não tirava os olhos do celular durante a viagem da linha Monte Serrat. O ônibus está lotado, é final de tarde, e ele manda fechar a porta quando ainda tem gente descendo. Uma mulher que está em pé, começa a relatar que dias atrás um outro novinho quase fechou a porta no rosto do seu filho. Logo mais todo o fundo do ônibus começa ao bservar as ações do cobrador. Percebem que nem boa tarde ele dá para as pessoas que estão pagando a passagem.

Dependendo do horário, o contato entre motoristas, cobradores e comunidade é diferente. Há cobradores que sequer cumprimentam as pessoas, mas há outros que puxam conversa, querem saber como estão os familiares. Jorge Batista trabalha como cobrador há oito anos, e em linhas como Morro do Horácio, Ângelo Laporta e Monte Serrat há sete. Na primeira vez que subi a comunidade de ônibus, foi para ele que pedi ajuda: “Eu queria descer na casa da Dona Uda”. Depois ele revelou:“Como a gente trabalha todos os dias na mesma linha, a gente acaba fazendo amizade com as pessoas. O povo do morro é de pessoas mais humildes que conversam muito com a gente. Eu não tenho muito intimidade com as pessoas do Monte Serrat, mas no Morro do Horácio eu conheço todo mundo”.

Ser motorista no Monte Serrat não é fácil. Ainda mais entre os horários de 17h e 19h, quando avia da comunidade é usada para cortar caminho pelo pessoal que sai  de carro da Trindade e quer chegar mais rápidoao centro. Essas são viagens que o motorista precisa ficar o tempo todo decidindo quais são as melhores opções para que o ônibus e os carros consigam passar pelas ruas estreitas, sem colisões.  O técnico de segurança do trabalho José Eugênio explica que, desde que a linha foi implantada, os motoristas têm receio de assumi-la, e que por isso a empresa Transol decidiu que motorista com menos de um mês de casa não dirige as linhas dos morros.

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Por causa de batidas, ou quando o motor para de funcionar, o ônibus não sobe. Nesses casos, outro ônibus não é solicitado, e as opções para os passageiros são: esperar o próximo ou voltar para casa a pé. Os passageiros escolhem andar até em casa, e enquanto vão subindo avisam para quem espera nos pontos que o ônibus quebrou no meio do caminho.

Em greve de ônibus

O som do noticiário ao fundo, em um volume mais alto do que o normal para às 6h30 da manhã, é a trilha sonora que substitui o movimento de ônibus nas quitinetes próximas ao ponto final em dias de greve do transporte público. Normalmente esse é o horário que trabalhadores e estudantes estão atentos demais para perder o ônibus. Durante esses três meses que fui vizinha de Sandra, não a vi faltar o trabalho, e naquele dia não seria diferente. A mãe de Sandra que costuma buscar na escola o filho mais velho, Gustavo, de seis anos, bate na porta:

– Tu vai a pé mesmo?

– Eu vou sim.

Na noite anterior, os meios de comunicação da cidade informaram que os trabalhadores do transporte coletivo entrariam em greve no dia seguinte, 31 de maio. Assim, às 7h da manhã Sandra saiu de casa para ir ao trabalho a pé. Ela é um dos cerca de 30 passageiros, que em dias de funcionamento normal do transporte coletivo, pegam ônibus às 6h45 no Ponto Final do Monte Serrat.

Moradoras do Alto Caieira, Vanderléa, que trabalha como auxiliar de cozinha, e Jaqueline, que atende em loja infantil, também desceram o Monte Serrat a pé durante os dois dias de greve. No primeiro dia, quando as encontrei no morro a caminho do trabalho, era quase 8h da manhã. Perguntei se podia acompanhar o trajeto delas até o trabalho. Vanderléa, uma mulher de estatura baixa, cabelos pretos bem curtos, falou:

– Você falou com a Flávia esses dias. Não foi?

– Ah, falei com ela sim.

– Então, sou irmã dela. Também te vi batendo umas fotos do ônibus.

Vanderléa vira para Jaqueline e diz:

– Ela tem uma daquelas câmeras que tu gosta, amor.

Jaqueline é loira e bem alta. E paradescer o morro, usa uma bota preta de salto, diz que está acostumada a usar esses sapatos altos e que não é a primeira vez que desceu o morro assim.

– Na verdade a gente podia pegar carona. Quantos carros já passaram pela gente? – Diz Jaqueline, mas Vanderléa observa:

– Mas a maioria dos carros que passam por aqui está desviando o caminho. Não são da comunidade. Na hora que eles entram no morro chegam a fechar o vidro, e não param. São tudo preconceituoso.

Além do grande movimento de carros, muitas pessoas desciam o morro a pé, naquela manhã, assim como os moradores precisavam fazer a 23 anos atrás. O que não mudou muito de 1993 pra cá foi o tipo de emprego dos moradores. É verdade que há mais universitários, funcionários públicos e atendentes no comércio, mas a maioria dos postos de trabalho continua o mesmo.

– E a Flávia conseguiu emprego? – Perguntei.

– Não. Hoje falei para ela ir lá, descer a pé mesmo, porque o Sine deve estar vazio por causa da greve. E tu estás procurando?

– Eu não, é que como me formo daqui a uns dois meses vou terminar primeiro este trabalho e depois procurar.

Continue lendo a reportagem:

Capítulo 1 – Nem ônibus, nem água

 Capítulo 2 – A abertura do caminho novo

Capítulo 3 – A primeira viagem

Capítulo 4 – Transporte e comunidade hoje