Florianópolis, 22 de novembro de 2017
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Crianças e adultos centroamericanos são revitimados no México

PARTE III: Crianças e adultos centroamericanos são revitimados no México

Reportagem:

Reportagem: Luara Wandelli Loth

Fotos: Ana Rita Mayer

Vestindo calças jeans de cintura alta, botas de montaria, camisa listrada, um guatemalteco se escora próximo da entrada da 72, quando outro imigrante lhe pergunta: “já fez seu registro?”. Ele responde, gracioso: “minha ficha já está pronta há exatos quatro anos”. Deportado dos Estados Unidos, depois de quatro anos trabalhando como “mojado”, gíria usada para substituir o termo ilegal, o jovem guatemalteco regressa pelo caminho que conhece.

La Bestia ou el Tren de La Muerte, trem de carga utilizado por imigrantes irregulares centroamericanos para chegar perto da fronteira com os Estados Unidos desde o sul do México, é a alternativa escolhida por imigrantes que já foram deportados diversas vezes e já não possuem dinheiro para pagar táxis, ônibus, vans, hotéis ou coiotes que os guiem por toda a travessia. Sem o dinheiro, a primeira coisa da qual se abre mão é a segurança. Mais de 50% dos centroamericanos que tentam chegar aos Estados Unidos são deportados ainda no México.

Foto: Ana Rita Mayer

Foto: Ana Rita Mayer

A viagem de trem torna-se muito mais perigosa, quando os imigrantes avistam ou são avisados sobre a presença de forças policiais ao longo da ferrovia. Para evitar a detenção implacável, eles tomam a atitude extrema de se atirar do trem para empreender fuga. Outra ação das forças de segurança preocupa os defensores dos direitos humanos e impacta no número de imigrantes expulsos do país: a detenção ilegal.

O Albergue-hogar para Personas Migrantes, La 72, fundado há cinco anos em Tenosique no estado de Tabasco, rechaça a participação de elementos das policias municipais em ações de controle e revisão imigratória, o que representa uma violação aos direitos humanos das pessoas em trânsito e também à Lei de Imigração. São inúmeros os relatos de extorsões geradas pelo envolvimento ilegal de forças policiais em funções que pertencem especificamente às autoridades imigratórias. Agentes municipais, de diferentes cidades da rota, são acusados de exigir dinheiro em troca de não entregar os imigrantes às autoridades competentes.

Defensores dos direitos humanos são contrários à detenção de pessoas imigrantes e favoráveis à implementação de medidas alternativas à detenção. Apesar dos apelos, as autoridades continuam a deter pessoas, tanto no México como nos Estados Unidos, mas utilizam termos como “resguardo” ou “salvaguarda”, para atenuar o que na prática é uma privação de liberdade. Nas cidades fronteiriças, as detenções arbitrárias são justificadas pela invenção de tipos penais ilegítimos como a “vagância” ou a “alteração da ordem pública”, imputados aos imigrantes, principalmente pelas polícias municipais.

Segundo os princípios básicos do emprego da força e de armas de fogo pelos funcionários do Estado mexicano, os agentes públicos só podem fazer uso da força quando estritamente necessário, dependendo dos obstáculos para fazer cumprir a lei e da gravidade do delito. Imigrar não é crime. Deste modo, torna-se uma violação aos direitos humanos o emprego de arma de fogo para deter pessoas em trânsito ou qualquer tipo de agressão física. Ninguém pode ser considerado suspeito apenas por ser imigrante.

Foto: Ana Rita Mayer

Foto: Ana Rita Mayer

A Troca do sonho americano pelo refúgio no México

O Hondurenho Beto foi deportado oito vezes. Cansado de alcançar seu sonho e ter de recomeçar o duro processo de imigração, decidiu tentar uma alternativa: um visto humanitário no México. Hoje ele espera a tramitação do processo na 72.

Da última vez em que foi expulso dos Estados Unidos, Beto emigrou ilegalmente para o Panamá, mas não conseguiu trabalho. Na volta a Honduras, em 2013, foi baleado em uma emboscada enquanto participava da campanha de um candidato à prefeitura de sua cidade. Sobreviveu. Com medo de que os rivais, segundo ele ligados a uma Mara, fossem dar cabo à vingança, fugiu do país e voltou aos Estados Unidos. Beto tinha recomeçado sua vida, mas foi flagrado dirigindo sem carteira de habilitação e a polícia o entregou às autoridades imigratórias. Dias antes da última apelação e do asilo político ser negado, Beto soube do assassinato de um irmão caçula. Ele esperou durante alguns meses em uma casa de detenção.

As prisões para imigrantes são constantemente denunciadas pelas instituições que fiscalizam a garantia dos direitos humanos. As violações mais comuns são: negar o direito do imigrante a se comunicar com familiares, não disponibilizar defensores públicos, negligenciar a demanda por intérpretes e tradutores, a não disponibilização de informações sobre os direitos legais, negar o acesso ao processo e as más condições de vida nos locais de detenção.

Beto voltou dos EUA especialmente para se dedicar às eleições. Ele explica em apenas uma frase a decisão de arriscar a vida nas campanhas políticas de Honduras: “Me encantava andar nessas coisas”. Também justificou a escolha do partido político apoiado, citando as promessas do candidato: arrumar as ruas e construir uma escola na comunidade. Mas a verdadeira motivação é uma tradição familiar, que fez de Beto um eleitor do Partido Liberal assim como seus tios, pais e irmãos.

Além da opção partidária, a imigração já estava traçada na história da família. Quando Beto tinha 11 anos, seu pai deu adeus à casa e nunca mais se soube dele. O pai Francisco desapareceu tentando fazer a travessia para os Estados Unidos. A família acredita que ele tenha morrido em decorrência de algum acidente na viagem de trem. Dezenove anos depois, o filho precisou percorrer o mesmo caminho. Por alguns anos, Beto ainda teve esperança de encontrar algum vestígio do pai nos EUA.

Foto: Ana Rita Mayer

Foto: Ana Rita Mayer

Também está desacompanhado na 72 o jovem Meris. Ele não tem grandes esperanças voltar a viver nos EUA, de onde foi deportado nos últimos dias de 2015. O agricultou retomou a travessia no mesmo dia em que chegou a El Salvador. O país de cinco milhões de habitantes viveu uma sangrenta guerra civil entre 1980 e 1992, na qual morreram 72 mil pessoas. Agora, no século XXI, os índices de violência se parecem ainda aos de guerra declarada. Em agosto de 2015, a média de homicídios diários chegou a 30. Quando Meris voltou a deixar o país, o ano de 2016 já prometia ser sangrento. A violência é a principal causa das andanças arriscadas do jovem entre as fronteiras. Mesmo sendo vítima da violência, Meris não possui nada que comprove que corre riscos em El Salvador e não vê um pedido de refúgio como opção viável.

Quer trabalhar onde puder, desde que ganhe mais do que os cinco dólares diários que recebia em El Salvador. “Como vou buscar emprego na minha cidade? Se não posso ir a outro bairro?”, disse inconformado. Para Meris, a situação de El Salvador é tão difícil que considera os hondurenhos, a esmagadora maioria no albergue La 72, afortunados. “Vejo os imigrantes de Honduras vestindo as roupas que querem, andando de forma relaxada, usando cortes de cabelo da moda, falando o que querem e expondo tatuagens. Em El Salvador, qualquer atitude pode causar a morte. Se os maras não reconhecem uma tatuagem, a arrancam com uma faca”, compara. Meris conta que mesmo vivendo no meio rural recebeu ameaças de morte depois de se recusar a entrar na pandilha do bairro.

Foto: Ana Rita Mayer

Foto: Ana Rita Mayer

A espera no albergue, entre o sonho e o pesadelo

“Alô, é de Honduras. Quero falar com Miguel Torres. É a esposa dele”. “MIGUEL TORRES”, grita por todos os cantos do albergue o voluntário que atendeu ao telefonema.

— Senhora, ele não está. Parece que foi embora.

— Então, ele tomou o trem?

— Não saberia dizer senhora.

— Eu disse para ele nunca tomar o trem, diz a mulher com a voz embargada.

— Sinto muito.

— Queria agradecer tudo o que vocês fizeram por ele. Ele sempre dizia que era bem tratado.

O voluntário não soube o que responder, a mulher começou a chorar e desligou o telefone.

Foto: Luara Loth

Foto: Luara Loth

O tempo de espera pelo processo e as recorrentes negativas aos pedidos de refúgio fazem com que alguns imigrantes permaneçam grandes períodos no albergue. Famílias inteiras esperam meses na 72, porque o medo do que possa acontecer no caminho é maior do que as incertezas e dificuldades de viver em um lugar de passagem. Os que demoram em seguir caminho acabam se integrando às atividades do albergue para vencer o tédio. Luís é o faz tudo da casa, ganha quatro mil pesos (R$ 800) mensais e vive na 72 há dois anos. Não sabe como seguir adiante, mas não quer voltar a El Salvador. Contar histórias é um dos talentos que se destacam, a vida intensa de Luís poderia preencher um livro de aventuras fantásticas, mas ele não tem ideia do que acontecerá no próximo capítulo. Seu caminho se deteve ali em Tenosique. À noite, sob a luz do luar e, em meio ao calor intenso, Luís prende pelo ouvido dezenas de pessoas ansiosas em saber como ele escapou de cada enrascada contada.

Luís, o faz tudo. Foto: Luara Loth

Luís, o faz tudo. Foto: Luara Loth

Outros imigrantes que detiveram seus passos na 72 arranjam empregos por baixo salário na cidade de Tenosique. Para fortalecer o vínculo do albergue e dos imigrantes com os 60 mil habitantes de Tenosique e combater a xenofobia local, os voluntários organizaram em fevereiro de 2016 um Festival Comunitário, cujo tema era “Sonhos”. Durante dois dias, uma fotografa retratou moradores de Tenosique e imigrantes segurando uma folha de papel onde deveria estar descrito em poucas palavras o sonho de cada um. Nas respostas, um desejo comum. Tanto os jovens centroamericanos que esperam pelo trem, quanto os mexicanos desejam chegar aos Estados Unidos. Durante o evento, atrações culturais e comidas típicas da América Central foram oferecidas à população. Entre as expressões culturais destacadas está a música da etnia Garífuna.

Foto: Ana Rita Mayer

Foto: Ana Rita Mayer

Os Garifunas são um grupo descendente dos Caribes, Arahuacos e africanos. A maioria dos garífunas vive no golfo de Honduras e, em particular, ao sul de Belize, na costa de Guatemala, na ilha de Roatán, nas cidades costeras de Honduras e Nicaragua e em centros urbanos dos Estados Unidos. A maior concentração de garífunas encontra-se em Honduras, país onde se comemora o 12 de abril de 1797 como a chegada de afrodescendentes à zona de Punta Gorda, Roatán. Os garífunas tambiém são conhecidos por seu estilo de música único, chamado punta.

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Muitas crianças também pedem refúgio. Em La 72, muitos menores desacompanhados esperam decisões judiciais para viver no México. Com o passar dos dias iguais, os adolescentes começam a sentir o tédio na casa. Enjoam do basketball, de pintar com os voluntários, de dormir às 21h, do feijão com arroz. Brian, um menino hondurenho de quinze anos, virou o queridinho da casa, mas nem ele, nem os voluntários sabem qual será o seu destino. Ele gosta de exagerar sobre sua história, conta que já subiu no trem, que já fez a viagem aos Estados Unidos oito vezes, que a primeira foi aos 13 anos, mas logo um voluntário que o conhece há mais tempo o desmente. Separado da família há muito tempo, Brian tenta burlar as regras para se sentir especial entre outros tantos jovens e, sobretudo, deseja atenção e carinho: “sabe, eu estou com uma hérnia. Eu acho bonito isso de ter um defeito. É lindo como cada um tem o seu defeito especial”. Se não lhe dão a atenção que busca, parte para outra estratégia: “sinto que você não gosta de mim, só está falando comigo, porque eu estou sentado do seu lado. Você é uma pessoa pesada”. Ninguém poderá impedi-lo no dia em que resolver deixar a casa e seguir para os Estados Unidos. A 72 não substituí os país dos menores desacompanhados.

Foto: Luara Loth

Foto: Luara Loth

Os Estados Unidos ordenaram a deportação de cerca de 10 mil crianças em 2015. Em 2014, 50 mil menores centroamericanos cruzaram o México e chegaram à fronteira Norte para se entregar às autoridades migratórias estadunidenses. O governo estadunidense apelidou o fluxo migratório de “a crise dos meninos imigrantes desacompanhados”.

Foto: Ana Rita Mayer

Foto: Ana Rita Mayer

Paola, de 15 anos, saiu de Honduras com o irmão um ano mais velho e um amigo, apenas com a roupa do corpo. A menina conseguiu escapar do cativeiro onde esteve seqüestrada e foi torturada em San Pedro Sula, a capital mundial do homicídio em 2015. O episódio traumático serviu para impulsionar a viagem improvisada. Os três queriam subir no tem para chegar aos Estados Unidos. Depois de alguns dias na 72, Paola recebeu a notícia de que sua mãe havia sofrido um infarto e resolveu voltar a Honduras sozinha. No dia seguinte à desistência de Paola, os dois rapazes subiram no trem da morte.