Florianópolis, 22 de novembro de 2017
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Qual o papel da mídia no golpe3

Qual o papel da mídia no golpe?

Reportagem:

Já se passaram dez dias desde que o vice-presidente Michel Temer (PMBD) tomou posse interinamente, após a abertura do processo de impeachment no Senado Federal contra a presidenta Dilma Rousseff (PT). Na votação do dia 11 de maio, foram 55 votos a favor, 22 contra e nenhuma abstenção. Com o resultado, Dilma foi notificada e afastada por 180 dias, enquanto o Senado julgará se as acusações de crimes de responsabilidade contra a presidenta são legítimas ou não. Michel Temer ocupará o cargo até o dia do julgamento.

Maria José Braça, vice-presidente da FENAJ: “O que falta são veículos generalistas que voltem a investir na qualidade do jornalismo e, principalmente, que não assumam outros papéis, como o de partido de oposição”. Foto: ABI

Maria José Braça, vice-presidente da FENAJ: “O que falta são veículos generalistas que voltem a investir na qualidade do jornalismo e, principalmente, que não assumam outros papéis, como o de partido de oposição”. Foto: ABI

Dos 23 ministros empossados pelo presidente interino, sete possuem ou controlam rádio e TV, segundo o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. Desde 2014, diversos veículos da grande mídia brasileira têm adotado um claro posicionamento contrário ao PT e à presidenta, tendência que se intensificou após o resultado das eleições de 2014. A cobertura intensa da Lava-Jato e dos trâmites do impeachment exerceu forte influência na opinião pública e vai na contra-mão dos discursos de imparcialidade jornalística adotados por esses mesmos veículos.

Para entender o papel fundamental que a mídia exerceu no golpe, o MARUIM entrou em contato com professores, pesquisadores, repórteres e organizações que estudam questões éticas no jornalismo e/ou representam a classe. Nossa terceira entrevistada foi Maria José Braga, vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). Confira:

MARUIM: Diante do cenário de crise institucional (Lava-Jato+Impeachment), muitos dos grandes veículos de comunicação de alcance nacional assumiram publicamente uma posição contrária ao PT. Alguns o fizeram de forma editorial, outros através da prática de um jornalismo descaradamente enviesado. Como avaliar este contexto, levando em consideração/ considerando o discurso da imparcialidade praticado comumente por esses veículos?

Maria José Braga: Na avaliação da FENAJ — e isso já foi afirmado em notas oficiais — muitos veículos de comunicação do Brasil abandonaram o jornalismo para assumir o papel de partido de oposição ao governo federal. Infelizmente, esta situação é percebida somente por jornalistas e por uma pequena parte da sociedade brasileira que é esclarecida o suficiente para não confundir com informação jornalística a produção de informação direcionada, com objetivo claro de desmoralizar um governo e um partido político para legitimar um golpe de Estado. O problema não é só a falta de imparcialidade (existem veículos com posição ideológica definida que conseguem fazer jornalismo); é o abandono do jornalismo em sua teoria e ética. Mantiveram somente a técnica.

MARUIM: O jornalismo fica reduzido a uma ferramenta de legitimação desses meios junto a população, uma vez que, em tempos de crise, a grande imprensa parece rasgar os próprios manuais de redação?

MJ: Volto a dizer que muitos veículos optaram por abandonar o jornalismo. Passaram a produzir informação descontextualizada, parcializada e até mesmo inverídica para legitimar o golpe que estava em andamento e que se consolidou.

MARUIM: Se olharmos de maneira ampliada para o cenário midiático, considerando os veículos “de esquerda” e os de “direita”, quais as consequências do tratamento maniqueísta da crise, praticado por todos, em maior ou em menor medida?

MJ: A consequência é a desinformação da sociedade e a produção de sujeitos que não são autônomos no seu juízo sobre os fatos e, consequentemente, também não agem autonomamente. Tivemos milhões de brasileiros que foram às ruas lutar contra a corrupção e que contribuíram para um golpe de Estado e para a ascensão de corruptos ao poder central do país. Por outro lado, a chamada mídia de esquerda não foi capaz de atingir outros políticos porque também não fez jornalismo como se deve fazer. Na mídia de esquerda, tivemos muita opinião e pouca informação.

MARUIM: Há bom jornalismo em meio à crise?

MJ: Os veículos de comunicação sabem que para sobreviver precisam fazer jornalismo, mesmo quando estão jogando parte do jornalismo fora para atender interesses outros que não o do cidadão. O cidadão procura informação de qualidade e verdadeira. Se não encontrar num veículo, vai procurar em outra fonte. Portanto, em meio ao abandono do jornalismo na política e na economia nacional (porque não devemos falar de mau jornalismo quando há a ausência dos princípios elementares da produção jornalística), havia jornalismo em muitas outras esferas da vida pública. Temos, no Brasil, muitas publicações especializadas de qualidade. Também está surgindo uma produção independente, individual e coletiva, que nos anima. O que falta são veículos generalistas que voltem a investir na qualidade do jornalismo e, principalmente, que não assumam outros papéis, como o de partido de oposição.

Maria José Braga é graduada em Jornalismo e em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás, com mestrado em Filosofia, pela mesma universidade. Em mais de 23 anos de profissão, foi repórter e subeditora do Jornal O Popular, professora do curso de Jornalismo das Faculdades Alfa, editora-chefe da Revista Outra Via e assessora de imprensa de diversas entidades e instituições de Goiás.

Na FENAJ já foi secretária-geral, tesoureira e vice-presidente Região Centro-Oeste. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás. É membro suplente do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional e membro titular do GT Comunicadores, instituído pelo Conselho Nacional de Defesa dos Direitos Humanos.