Florianópolis, 22 de novembro de 2017
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O amor nos tempos das fronteiras

PARTE II: O amor nos tempos das fronteiras

Reportagem:

Reportagem: Luara Wandelli Loth

Fotos: Ana Rita Mayer

De cima do telhado, o guarda hondurenho grita “el treeeennn”. Acaba de receber por rádio a notícia de que um trem de carga está subindo e não demora a passar por Tenosique. Do teto do albergue La 72, pode-se avistar a ferrovia. Uma euforia toma conta de casa de imigrantes. Alguns, mais precavidos, buscam confirmar se o trem está mesmo subindo ou se era outro alarme falso, como o do dia anterior. A maioria bota a mochila nas costas e não pára de correr até chegar à ferrovia. Não há solenidade nas despedidas, são acenos alegres e tapinhas nas costas. Antes lotada, La 72 anoitece com os poucos que permaneceram, em geral, pais acompanhados dos filhos pequenos. Quando já se escuta o apito do trem, uma caminhonete daMigración passa pela rua paralela à ferrovia, os hondurenhos, salvadorenhos e guatemaltecos correm, mas o veículo verde passa e ninguém é detido.

Uma jovem, sozinha, aproxima-se cuidadosamente dos voluntários da 72 e pergunta: “será que eu posso ir ver o trem com vocês e depois voltar ao albergue? Não corre perigo, sou mexicana.”.

A mexicana Magda posiciona-se ao lado da ferrovia e deixa seu celular a postos para tirar as melhores fotos possíveis. Já é noite, só resta a luz da lua cheia. Magda vê os homens correndo atrás do trem em movimento, atirando-se para se pendurar nas barras de ferro. Ela recorda do seu José. De repente o trem pára para o alívio dos viajantes, e com mais calma, todos conseguem subir e se acomodar nos lugares menos desconfortáveis e perigosos. Sob o olhar impressionado de Magda, um homem ajuda sua companheira a escalar a locomotiva. A mexicana tenta se imaginar na mesma situação daquela mulher, mas não consegue: “jamais teria a coragem de subir no trem”.

Os vídeos e fotos do Tren de La Muerte que Magda registra serão mostrados aos filhos, de 5 e 6 anos. Desde que chegou à 72, ela assistiu a todas as passagens do trem. De volta ao albergue, repara nas crianças que acompanham os pais na travessia, alguns ainda de colo. Na madrugada anterior, havia chegado uma mulher grávida no meio da tormenta. Magda sente-se aliviada por ser mexicana. “Como podem sair de seus países com seus bebês de colo? Sabendo de tudo que vão enfrentar?”, perguntou uma vez ao hondurenho José Fernando: “no país de viemos era pior. Por isso nos atrevemos”.

Há quase dois anos, Magda discou um dígito errado e o telefonema foi atendido por um jovem hondurenho que vivia em Tamaulipas, perto da cidade de Reynosa, na fronteira com os Estados Unidos . José Fernando salvou o número de Magna e voltou a ligar, instigado pelo jeito da moça ao telefone. Semanas depois, ele conseguiu convencê-la a marcar o primeiro encontro. O acaso terminou em romance. Os filhos de Magda receberam o novo companheiro da mãe como um pai.

Um dia de abril, José não voltou para casa. Nunca tinha passado pela cabeça de Magda que a polícia imigratória poderia levar seu amado. Nem sabia que existia polícia migratória no México, achava que a deportação era coisa exclusiva dos Estados Unidos. Naquele dia, ela descobriu a severidade da política imigratória mexicana. Sem saber aonde poderiam ter levado José, Magda foi a todas as corporações policiais, à Procuradoria Geral da República e ao Ministério Público. Até que um senhor contou o que havia visto na praça: um grupo de estrangeiros sendo detidos pela polícia estatal.

Era abril de 2015. José Fernando estava em horário de trabalho quando reconheceu à primeira vista um grupo de centroamericanos reunidos na praça: “um indocumentado sempre reconhece outro”, explicou uma vez à namorada. José aproximou-se do grupo e comprou algo de comer para oferecer aos novos amigos. O grupo foi abordado por policiais estatais, que se aproveitando do medo dos imigrantes, tentaram extorqui-los. Os policiais pediram mil dólares por pessoa, em troca de não entregá-los às autoridades imigratórias. Nenhum dos homens trazia aquela quantidade de dinheiro e propuseram que os deixassem em paz por 300 dólares. Os criminosos não quiseram negociar. Como vingança, o grupo foi levado ilegalmente ao escritório da imigração.

Ser imigrante não faz de ninguém um suspeito natural. Para abordar um estrangeiro, os agentes policiais precisam ter a suspeita fundamentada de que o indivíduo cometeu ou está cometendo algum crime, conforme a denunciam os últimos relatórios da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Imigrar, mesmo que irregularmente, não está previsto como crime no código penal. Não cabe às forças policiais fazer o trabalho de controle imigratório e verificação de documentos. Este tipo de interferência é uma violação aos direitos humanos das pessoas em trânsito e também à Lei de Imigração, segundo defensores dos direitos das pessoas em trânsito que atuam no Albergue-hogar para Personas Migrantes, La 72.

Desesperada, Magda encontrou José Fernando detido e implorou para que o soltassem. Disse que era casada com ele e mãe de seus filhos. Os agentes solicitaram a certidão de casamento como prova da união familiar. Magda propôs casar-se com José ali mesmo,para que as autoridades o deixassem em liberdade. A proposta desesperada não foi aceita e, vinte dias depois, o hondurenho seria deportado.

Depois dessa separação quase na fronteira com os Estados Unidos, o casal apenas voltaria a se encontrar dois anos depois no albergue La 72, em Tenosique, no Estado de Tabasco, a poucas horas da Guatemala.

Foto: Ana Rita Mayer

Foto: Ana Rita Mayer

A deportação em Tamaulipas, estado que faz fronteira com o Texas, não foi a primeira de José Fernando. Nem a primeira vez que foi vítima de extorsão. Antes de conhecer Magda, em 2012, o hondurenho foi deportado dos Estados Unidos quando acompanhava a sobrinha de sua ex-esposa à Dakota do Norte. A criança pôde permanecer no país, mas a autorização foi negada a José. José Fernando também sofreu um longo seqüestro no México, em Tampico. Esteve quase um mês capturado por integrantes do Cartel do narcotráfico Los Zetas, junto com outras dezenas de imigrantes, inclusive mulheres e crianças, e só foi liberado quando a família pagou quatro mil dólares pelo resgate.

Depois de ter sido separado de Magda, José permaneceu em Honduras apenas dez dias e partiu para o norte junto com o irmão. Ambos colecionavam deportações. Eles alcançaram o Golfo do México e estavam a cerca de uma hora da cidade de Porto Veracruz. Sempre viajavam em combis separadas para chamar menos atenção. À frente, a combi que transportava o irmão de José passou por uma barreira e não foi revistada, mas José não teve a mesma sorte e foi abordado pelos agentes pouco tempo depois. Ao saber que o namorado tinha sido “pescado”, Magda pediu permissão para vê-lo detido, mas não foi autorizada. Em poucos dias, ele foi expulso do país. Mas não iria desistir. Já o irmão resolveu não mais tentar viver nos EUA, por conta das dificuldades em atravessar, e ainda mora em Porto Veracruz, cidade onde se separou de José.

No mês seguinte, José Fernando já estava de volta ao território mexicano e escolhera passar a fronteira pelo estado de Chiapas. Ele havia trabalhado um mês em Honduras para conseguir o dinheiro para financiar a nova viagem. Novamente ele seria deportado no Estado de Veracruz. Naquele verão de 2015, ele tentou de novo, mas foi menos longe ainda. A deportação aconteceu em Coatzacoalcos, a três horas de Puerto Veracruz, onde vive o irmão mais novo.

Nas primeiras viagens, havia dinheiro para gastar. José então viajava em ônibus. Pagava taxistas para rodear os bloqueios policiais. Na terceira tentativa, Magda recebeu um telefonema dramático de José: “já não posso, é muito dinheiro que estou gastando. Já não vou voltar a fazer a travessia”. O casal ficou três semanas sem trocar uma palavra. José Fernando não agüentou a vida em Honduras e ligou para Magda para dizer o quanto a amava e sentia saudades: “já estou juntando dinheiro outra vez”.

Na primeira travessia para encontrar a Magda, foram gastos oito mil pesos (R$ 1620,00). Na segunda, seis mil pesos (R$ 1220,00). Na última, seis mil outra vez. Com tantos gastos, na quinta tentativa, José decidiu tomar o Tren de La Muerte. José chegou a Tenosique e tomou o trem até Palenque. A decisão foi tomada contra a vontade de Magda. José desligou o celular, enquanto viajava na Bestia, e telefonou à noite para dizer que estava bem. Magda ficou chocada. Mesmo com a economia e com o maior esforço para desviar dos reténs, José acabou sendo deportado mais uma vez.

Tren de la Muerte passa por Tenosique Tabasco sob o olhar de Magda. Foto: Luara Loth

Tren de la Muerte passa por Tenosique Tabasco sob o olhar de Magda. Foto: Luara Loth

Em fevereiro de 2016, Magda ligou para a mãe e pediu para que ela cuidasse de seus filhos por uns dias. Ela estava desemprega e nada a impedia de descer ao sul do país para encontrar José, casar com ele e acabar com as deportações. Depois da quarta tentativa de José, o plano já era o casamento, mas ele nunca conseguiu chegar a Tamaulipas.

Amigas de Magda a alertaram: “e se ele se casa contigo e no dia seguinte depois de conseguir os papeis, te deixa?” Apaixonada, Magda nem pensa nessa possibilidade. Sua história de amor sempre esteve à beira da tragédia, mas acredita que tudo irá valer à pena. “Ele tratava meus filhos como um pai. Ele me trata como uma princesa, sempre atencioso. Se ele só quisesse os papeis, ele teria proposto, desde a primeira vez, para casarmos e disso não se falou até a quarta viagem. E ele ainda se jogou no caminho pela quinta vez, sozinho e sem documentos. E agora não foi ele quem disse ´vem por mim!´, fui eu!”.

A ida a Honduras nunca esteve nos planos do casal. Magda não sabia nada sobre o país centroamericano até conhecer José. Quando ele foi deportado pela primeira vez, resolveu buscar imagens do país na internet, o resultado foi uma seqüência extremamente desagradável de imagens sangrentas sobre a violência no país. Em 2015, as autoridades registraram 5.108 homicídios, uma taxa de 59,5 homicídios por 100.000 habitantes, mas já foi pior, em 2014, eram 75 assassinatos em Honduras. San Pedro Sula, a cidade mais industrializada do país, é considerada a capital mundial do assassinato.

Entre as viagens fracassadas, o medo também passou a ser um dos motivos para a fuga de José, além do amor e do trabalho. Sua mãe foi procurada algumas vezes pelos mesmos homens que mataram um de seus filhos há alguns anos. A família suspeita que o motivo do interesse dos gangsters por José seja o dinheiro que ele poderia estar trazendo do exterior. As idas e vindas do imigrante chamavam a atenção da vizinhança. “Será que ele é um “coiote?”. Na última vez que esteve em Honduras, a mãe de José teve medo de que ele dormisse em casa.

O casamento de Magda e José aconteceu no cartório de Tenosique, mas o casal não planejava comemorar com festa, pois era provável que José teria que pagar uma multa por ter entrado ilegalmente no México. “Se a migração diz que não nos cobrará a multa, quem sabe fazemos algo”, Magda sem grandes expectativas. Com a certidão de casamento em mãos, poderão pedir permissão para que o processo de José seja tramitado em Reynosa, perto de onde vão morar, no norte do país. Mesmo se José for abordado pela imigração durante a longa viagem ao norte mexicano, não poderá ser deportado, pois a apresentação do documento comprova a união familiar.

Durante a espera pelo dia do casamento, José quase foi “pescado” pela “migra”. Para casar no México, é necessária a apresentação de exames sobre a existência de doenças sexualmente transmissíveis. O casal saiu do albergue para fazer os exames em uma clinica. Na volta, saíram para comer com um imigrante hondurenho que conheceram no caminho. Distraídos, os três foram surpreendidos por uma caminhonete da imigração. O casal conseguiu correr. Magda pode ver quando o hondurenho foi agarrado com violência pelos agentes.

Adolescentes aguardam sobre as vias do trem, em calor de 34º.

Adolescentes aguardam sobre as vias do trem, em calor de 34º.

“Ele tinha mais pinta de ilegal que nós. Meu esposo estava arrumadinho. O moço andava de chinelo e meia, vestia uma calça rasgada e suja. A Imigração foi pra cima dele. Eu olhava para trás a cada momento. Meu esposo me dizia, ‘não olhe pra trás’. Eu via que o rapaz continuava correndo. Dava vontade de voltar para ajudá-lo. Mas meu esposo tampouco tinha documentos. Seguimos caminhando e José pediu água para uma senhora idosa. Então, eu disse: ‘fique aqui e eu vou pegar um táxi’ e sai para buscar o carro da ‘migra’. Eu perguntava às pessoas: ‘viram um rapaz correndo?’. Caminhei umas quatro quadras e não o encontrei. Começou a chover, fui às vias do trem procurá-lo, mas não o encontrei”.

“Ele está aqui de novo aqui na 72. Foi espancado pela polícia e deportado há apenas cinco dias. Não faz nem uma semana e já voltou a atravessar. Os imigrantes são muito persistentes. Imagine como está mal o seu país? Não ficam lá nem por uns dias”, contou Magda logo depois de reencontrar o amigo do casal, descansando recostado em um dos muros pintados.

“Fui ver o trem no domingo pela primeira vez. É superforte ver tudo isso. Eu estava chorando pensando que uma vez José teve que fazer isso por mim e pelos meus filhos”. No ano que vem, Magda quer voltar ao albergue para trazer roupas de homem para doação: “Eu sempre vejo que chegam com os sapatos furados”. Alguns meses passarão para que a Justiça mexicana conceda a José um visto de residente. E as fronteiras, mesmo inventadas, continuarão a existir por muito tempo.

Albergue em festa. Foto: Ana Rita Mayer

Albergue em festa. Foto: Ana Rita Mayer


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