Florianópolis, 22 de novembro de 2017
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Não tem mais peixe no Rio Ratones

Reportagem:

Para iniciar a série de reportagens sobre a poluição em Florianópolis, o Maruim traz o relato de membros da Associação dos Pescadores do Rio Ratones (APRR), fundada em 1991, e que conta hoje com 34 associados. Evilásio, Mica e Virgínio cresceram na isolada comunidade do Norte da Ilha, e hoje convivem com as complicações que ameaçam a vitalidade da Bacia Hidrográfica do Rio Ratones, a maior do município. O ecossistema que deságua entre as praias de Sambaqui e Daniela está ameaçado pelo despejo de esgoto, especialmente no seu principal afluente, o Rio Papaquara. Há também trechos assoreados por escombros de antigas comportas construídas sob as duas pontes da SC 402 que impedem a passagem da água salgada e provocam o desaparecimento de espécies marítimas.
O Rio Papaquara está poluído. Nasce na região de Canasvieiras e Cachoeira do Bom Jesus e é um dos principais fatores que vem prejudicando a pesca na Bacia. O principal afluente do Rio Ratones deixou de ser navegável há décadas e sofre com a falta de controle quanto ao despejo de resíduos tanto pelas comunidades costeiras – especialmente na região da Vargem Grande e Vargem Pequena -, como pela Casan, através da Estação de Tratamento de Esgoto de Canasvieiras (ETE).
Sílvio de Souza, chefe da Unidade de Conservação da Estação Ecológica de Carijós, administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), afirma que os efluentes despejados no Papaquara pela ETE de Canasvieiras, mesmo tratados, poluem o rio pois “são lançados fora dos padrões para diversos componentes, como fósforo, óleos, graxas, entre outros”. Souza explica que a carga orgânica despejada no Papaquara ocasiona um crescimento acelerado de macrófitas aquáticas como os aguapés, em um processo conhecido como eutrofização. “A consequência da eutrofização é a drástica redução de oxigênio na água, morte de peixes e crustáceos, perda da biodiversidade e aumento do assoreamento”, explica.
Mas o principal fator que está há anos afetando a vitalidade do Rio Ratones são as comportas construídas sob as duas pontes da SC-402. Peixes que antes abundavam na região como a tainha, o robalo e a manjuba não conseguem mais subir o rio. A falta de nutrientes das águas salgadas impedem o desenvolvimento do manguezal e o crescimento do camarão. Construídas pelo extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), no final da década de 50 – período em que o pecuarista Celso Ramos era governador de Santa Catarina -, as comportas foram a solução encontrada para conter o avanço da água salgada sobre as pastagens de Ratones e demais regiões do Norte da Ilha. A atividade agropecuária, principalmente a produção leiteira, era prejudicada pelos períodos de maré cheia. “A comporta segura os sedimentos, e como já faz 50 anos que está instalada, observa-se um intenso assoreamento do rio. Grandes bancos de areia estão presos por ela”, explica Souza.
No início de abril, em reunião envolvendo pescadores da APRR, Sílvio Souza (ICMBio), o Secretário da Casa Civil do Governo do Estado de Santa Catarina, Nelson Antônio Serpa, e o presidente da Associação de Moradores de Ratones (AMORA), Flávio de Mori, foram apresentados estudos e projetos para a remoção das ruínas. A retirada das comportas permitirá a restauração parcial do impacto socioambiental causado e a recuperação de aproximadamente mil hectares de manguezal. Se realizada, será a maior ação do tipo na história de Florianópolis.
Nota: Após a realização da reportagem, Sílvio Souza foi exonerado do cargo de diretor da ESEC, e substituído por Ricardo Peng. A troca foi rejeitada por organizações que militam pela preservação do meio ambiente.