Florianópolis, 21 de novembro de 2017
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A venda da RBS e a derrota do jornalismo-negócio

A venda da RBS e a derrota do jornalismo-negócio

Reportagem:

A RBS anunciou ontem a venda de suas operações de televisão, rádio e jornal em Santa Catarina. O gaúcho Lírio Parisotto, um dos maiores investidores do mercado de ações do país, e o paulista Carlos Sanchez, herdeiro do grupo farmacêutico EMS, desembolsaram juntos 700 milhões de reais e tornaram-se os novos mandachuvas. Deles, não se pode esperar nada além do aprofundamento de um modelo que os Sirotsky levaram à exaustão: interesse público submetido a relações de poder escusas, pretensões monopólicas travestidas de um discurso de liberdade.
A mudança de comando na RBS demonstra que o jornalismo-negócio não apenas passa por uma crise, mas começa a admitir sua condição de derrotado. Ela simboliza o fim de uma trajetória que começou há 37 anos, quando a TV Catarinense transmitiu as primeiras imagens do alto do Morro da Cruz, meses antes da Novembrada. Para garantir o crescimento de seu conglomerado, Maurício Sirotsky Sobrinho topou todo tipo de articulação com governadores biônicos, ministros militares e demais representantes da ditadura. Após a redemocratização, coube aos herdeiros de Maurício rebaixar os assuntos relativos à comunicação na lista de prioridades da empresa: alta rotatividade, baixos salários, submissão aos principais anunciantes e investimento em setores mais lucrativos. O negócio engoliu, então, o jornalismo; viraram uma coisa só.
Assim que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovar, a venda das rádios, tevês e jornais se mostrará um ótimo negócio para os antigos controladores. Eles jamais admitiram perder (ou deixar de ganhar) um centavo que fosse, e não entregariam um oligopólio midiático de bandeja se houvesse ainda alguma chance de salvá-lo.
Se as operações de mídia se tornaram insustentáveis no estado, não se pode culpar apenas a queda dos índices de leitura dos jornais impressos ou a recessão da economia brasileira. Crises vêm e vão, mas esta é uma derrota acachapante, sem volta. Os veículos não dão mais retorno financeiro porque o público catarinense quer ler, ver e ouvir outra coisa. É o fracasso do provincianismo, do “padrão Globo de qualidade”, do falso moralismo, das reportagens editorializadas, do desrespeito à categoria profissional – de tudo aquilo, enfim, que Parisotto, Sánchez e sua turma serão capazes de oferecer, porque desconhecem as especificidades do ramo.
Os novos comandantes, ainda mais que os Sirotsky, estão com a cabeça mergulhada nas finanças. Não será deles a solução para os problemas que culminaram com a transação de ontem. O lucro esperado não virá, e os dois logo migrarão para setores da economia mais aquecidos.
O rechaço do público aos veículos da RBS em Santa Catarina escancara a necessidade de outro tipo de meio de comunicação, e de um jornalismo novo, que responda às demandas da maioria da população, e não privilegie os interesses das elites locais, do mercado financeiro e dos patrões. E, para não repetir o fracasso que se consumou ontem, a receita é simples: tudo ao contrário do que eles fizeram.