Florianópolis, 29 de julho de 2017
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Dossiê Ayotzinapa: o contexto do desaparecimento forçado de 42 estudantes mexicanos, há sete meses

Reportagem:

Entenda como o movimento estudantil mexicano se reorganizou em nível nacional dois meses após o massacre em Iguala, quando sete pessoas morreram e 43 desapareceram, em 26 de setembro de 2014

Reportagem: Luara Wandelli Loth
Edição: Camila Rodrigues da Silva e Joana Zanotto
Fotos e vídeo: Philipe Branquinho e Luara Wandelli Loth

Sábado, 30 de novembro de 2014. Cerca de 300 jovens, representantes discentes de 69 escolas e universidades de quase todos os Estados do México, participaram do Congresso Nacional Estudantil, na Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, que fica na cidade de Ayotzinapa, no Estado de Guerrero. O encontro estava previsto para acontecer na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), mas as prioridades estratégicas do movimento estudantil mudaram drasticamente pelo impacto político do desaparecimento de 43 normalistas, estudantes dessa mesma entidade, após ataque de forças policiais de Estado, no município de Iguala, em 26 de setembro do ano passado. Esta noite, quando sete pessoas morreram e 29 ficaram feridas, ficou marcada como a pior matança estudantil do país desde a sangrenta noite de 1968, na Praça Tlatelolco, Cidade do México, quando o Exército abateu 200, 300, 1000 estudantes — cifras que variam segundo as fontes históricas.

O objetivo era criar a Coordenação Nacional Estudantil, que buscará legitimidade para representar todos os discentes do país. Essa articulação é uma reação ao desmantelamento do movimento estudantil desde a década de 1970 e a necessidade de enfrentar as reformas estruturais promovidas pelo governo mexicano.

Congresso organizado na quadra da Normal Rural Raúl Isidro Burgos, onde representantes de 69 instituições de ensino se reuniram para criar uma Coordenação Nacional Estudantil como arma para enfrentar a repressão e as reformas neoliberais

Congresso organizado na quadra da Normal Rural Raúl Isidro Burgos, onde representantes de 69 instituições de ensino se reuniram para criar uma Coordenação Nacional Estudantil como arma para enfrentar a repressão e as reformas neoliberais

Quem presidiu a mesa da assembleia foi José Hernandez e Gerardo Ramirez Flores, representantes da Federação dos Estudantes Campesinos Socialistas do México (FECSM). Os jovens, ambos com 20 anos de idade, concederam entrevista ao Maruim minutos depois do encerramento do congresso histórico, esperançosos com a consolidação da proposta, pelo menos no papel, mas cansados depois de muitas noites mal-dormidas devido ao amontoado de tarefas da militância.

A proposta da FECSM venceu por um voto, mas o nome da entidade não foi um consenso dentro da assembleia, que reuniu diversas organizações políticas, incluindo anarquistas, stalinistas, neozapatistas, militantes partidários e estudantes que abominam esta forma de organização. O modelo de entidade que inspirou a coordenadoria foi a Coordenação de Trabalhadores da Educação, sindicato que promoveu uma série de greves nos últimos meses.

O apoio chega de todos os lados do país. Doações de mantimentos e roupas para os normalistas que resistem, sobretudo, destinadas aos familiares dos desaparecidos que esperam insones respostas

O apoio chega de todos os lados do país. Doações de mantimentos e roupas para os normalistas que resistem, sobretudo, destinadas aos familiares dos desaparecidos que esperam insones respostas

O que foi o massacre de Ayotzinapa

ayo4As imagens de 43 rostos, maioria de menos de 20 anos, que compartilham os traços da etnia indígena Náhuatl, estão espalhadas por todo o mundo, impressos ou virtuais, acompanhados pela mensagem: “Vivos se los llevaron, vivos los queremos” (vivos foram levados, vivemos os queremos). Eles faziam parte de um grupo de 57 ayo5normalistas que retornavam para a Escola Normal Raúl Isidro Burgos, onde estudam e moram. O grupo de estudantes estava em três de seus ônibus expropriados, em busca de meios para viajar ao Distrito Federal, a cinco horas da capital de Guerrero, e participar da marcha, tradicionalmente realizada há 46 anos, contra o esquecimento do massacre de Tlatelolco. Isso porque nenhum general ou mandatário do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que esteve no governo de 1929 a 2000 e retornou ao poder em 2011 com a eleição de Peña Nieto, recebeu punição pela trama e execução da matança. A maioria dos ayo6culpados já morreu e até hoje não se conhece a verdade dos fatos.

Os executores e mandatários da tragédia do século XXI provavelmente não tinham em mente a memória de Tlatelolco, mas protagonizaram uma insólita coincidência.

Estudantes negam relações com a guerrilha

Grupos políticos governistas acusam a normal de ser uma escola de formação de quadros para a principal guerrilha de Guerrero, o Exército Popular Revolucionário Insurgente (EPRI), encravado desde 1997 nas montanhas dessa região. Por esta assossiação, a antropóloga Rossana Reguio, que estuda a juventude do México na Universidade Jesuíta de Guadalajara, levanta a possibilidade de que o ataque aos normalistas seja uma mensagem do Estado mexicano à guerrilha, utilizando os narcotraficantes como soldados da violência.

A guerrilha estava bastante distante dos noticiários jornalísticos nos últimos anos, mas depois da explosão do caso Ayotzinapa, principal assunto do segundo semestre de 2014 no México, a organização armada fez vários pronunciamentos em vídeo e escritos. Já os líderes da FECSM negam veementemente qualquer ligação com a guerrilha — a não ser a admiração e o compartilhamento dos preceitos do marxismo-leninismo.

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Buscas duram mais de sete meses

Em seis de dezembro de 2014, a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), mundialmente reconhecida pelos trabalhos investigativos relacionados a crimes de lesa humanidade, anunciou a identificação de parte da ossada de um dos desaparecidos. Um dente molar e um fragmento de osso de um dos dedos das mãos do estudante filho de agricultores, Alexandre Mora Venancio, de 19 anos, foram encontrados carbonizados no lixão de Cocula, município próximo a Iguala. Segundo o Comitê de pais e mães, o resultado do teste de DNA não comprova que o estudante esteja morto, já que a matéria orgânica encontrada, em circunstâncias duvidosas, é muito pequena. O pai de Alexandre Mora, viúvo, continua na busca por seu filho desaparecido e continua a integrar o Comitê que se concentra em Ayotzinapa. Tampouco há provas científicas que os ossos tenham sido queimados naquele local especificamente. Mario César González Contreras, pai do estudante desaparecido César Manuel González Hernández, suspeita que estas evidências tenham sido plantadas no lixão e afirma que o pai do estudante ainda não recebeu os supostos restos mortais e segue acreditando que seu filho esteja vivo.

Neste cenário de dúvidas, os 42 desaparecidos podem estar vivos em posse do Exército, como suspeitam o comitê de pais e mães de Ayotzinapa, enterrados em alguma das centenas de fossas clandestinas, carbonizados ou atirados em algum lugar da geografia mexicana, depois de torturados até a morte.

Oferenda do Dia dos Mortos em homenagem aos dois normalistas mortos durante o tiroteio no dia 26 de setembro: Daniel Solís e Yosivani Guerrero. As flores de cempasúchil de radiante tonalidade amarela são cultivadas na própria Normal.

Oferenda do Dia dos Mortos em homenagem aos dois normalistas mortos durante o tiroteio no dia 26 de setembro: Daniel Solís e Yosivani Guerrero. As flores de cempasúchil de radiante tonalidade amarela são cultivadas na própria Normal.

Melissa Mondragón mal conheceu o pai. Quando o corpo de Julio César Mondragón foi encontrado, a pequena havia chegado ao mundo há pouco mais de quarenta dias. O normalista Julio César teve o corpo desfigurado pelos mercenários do narcotráfico, como se este fosse o suporte para uma mensagem assustadora. Já no dia 27 de setembro, as fotos do rosto em carne viva e sem os glóbulos oculares começaram a ser divulgadas e compartilhadas nas redes sociais. Foi pelo Facebook que Marisa Mendonza, esposa do estudante, descobriu que ele não estava mais desaparecido. Julio César havia sido assassinado após intensa sessão de tortura.

Caminhão da Multinacional Coca-Cola, expropriada pelos normalistas como forma de pressionar o governo a tomar medidas em relação ao massacre. Ônibus turísticos a caminho de Acapulco também são alvo dos normalistas, que mantêm esta pratica para exigir recursos e para possibilitar a mobilidade dos estudantes

Caminhão da Multinacional Coca-Cola, expropriada pelos normalistas como forma de pressionar o governo a tomar medidas em relação ao massacre. Ônibus turísticos a caminho de Acapulco também são alvo dos normalistas, que mantêm esta pratica para exigir recursos e para possibilitar a mobilidade dos estudantes

Na mesma noite em que os normalistas estavam em Iguala, a esposa do prefeito Abarca, María de los Ángeles Pineda, apresentava-se como a próxima candidata do Partido da Revolução Democrática (PRD) à sucessão do cargo. A versão oficial da Procuradoria Federal deposita a culpa intelectual pelo crime inteiramente no casal Abarca, ambos do PRD. Segundo o relatório, com medo de que o grupo de normalistas fizesse uma manifestação que interrompesse o evento e os planos da carreira política de María de los Ángeles, o prefeito deu ordens aos policiais municipais para acabarem com a “ousadia dos garotos”. A primeira-dama é irmã de um dos líderes do cartel de narcotraficantes chamado Guerreros Unidos, organização criminosa de longa trajetória, o que ligaria a participação do cartel à execução do massacre, a pedido do casal Abarca. Os normalistas negam que tenham ido a Iguala com a intenção de interromper a confraternização política.

Uma série de evidências documentais desmorona as bases da versão oficial que alega que a operação teria sido executada pelas forças policiais do município rural e que os jovens teriam sido entregues para serem fuzilados e queimados por narcotraficantes. A polícia municipal de Iguala ou qualquer outra polícia desta instância institucional não seria capaz de comandar uma ação de tamanha complexidade. Os armamentos utilizados nos quatro ataques orquestrados contra os estudantes não são compatíveis com os uniformes, veículos e armas dos agentes de Iguala. As testemunhas que embasam a frágil versão das autoridades são os próprios membros do cartel dos Guerreiros Unidos e foram espancados e torturados antes de assumirem a participação e reafirmarem que os mandantes do crime eram os representantes da instância municipal, em parceria com o narcotráfico local.

As testemunhas e os vídeos são unânimes: os federais cientes em todos os momentos, segundo o material reunido e divulgado pela repórter mexicana Anabel Hernandez autora da matéria especial Governo mexicano participou do ataque contra estudantes de Ayotzinapa publicada pela Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo. Os registros do Centro de Control, Comando, Comunicaciones y Cómputo (C4) — um sistema integrado que distribui informações para centrais das três instâncias de governo — são fortes evidencias quanto à ciência do Governo Federal em relação ao crime de estado, desde início dos ataques. Mas ao que tudo indica, os representantes do mandato do presidente Enrique Peña Nieto não foram apenas omissos no caso. Participaram ativamente.

O Estado contra os jovens e pobres

A pobreza é uma característica que une as vítimas de todos os massacres no México nas últimas décadas. São massacres como o de Ayotzinapa e o de Tlatlaya, onde 22 jovens campesinos foram acusados de crimes e fuzilados

Estudantes da Normal Rural de Tenería no Estado do México, em greve desde outubro, marcham estendendo uma bandeira de cinco metros da Federação dos Estudantes Campesinos Socialistas do México, na cidade de Toluca

Estudantes da Normal Rural de Tenería no Estado do México, em greve desde outubro, marcham estendendo uma bandeira de cinco metros da Federação dos Estudantes Campesinos Socialistas do México, na cidade de Toluca

pelo Exército sem explicações satisfatórias, também em 2014. Lutando contra a mesma miséria estavam os 45 indígenas mortos, em Actel (Estado de Chiapas), 1997. Essa também era a condição de vida das mulheres de Atenco, estupradas e molestadas por policiais como represália à rebelião popular organizada pelos agricultores das comunidades originárias contra a expropriação de suas terras. Mas a pobreza também é a sina dos algozes. Essa epidemia de violência possui uma característica que expõe sua paradoxal crueldade: pobres são “comandados” para matar pobres. Os “soldados” submetidos ao narcotráfico incumbidos de fazer o trabalho sujo, colocando suas cabeças a prêmio, provêm de camadas tão humildes quanto à origem dos desaparecidos. Os policiais que participam dos crimes também são subalternos, agindo em prol de um sistema que geralmente não os favorece. Mas há também outra característica preponderante entre as vítimas de violência: ser jovem. Somente em 2012, morreram 20.658 por causas violentas. Em 2014, foram 16.298 indivíduos, de ambos os sexos, que já não têm a oportunidade de ultrapassar a linha da juventude.

Outro violento e impune antecedente já existia na história recente de Ayotzinapa — e só foi lembrado por conta do massacre de 2014. Em 12 de dezembro de 2011, um grupo de estudantes da Escuela Normal Rural se mobilizava, em Chilpancingo, exigindo a reparação das instalações e o aumento dos recursos destinados ao sustento dos alunos, quando foram assassinados dois estudantes: Jorge Alexis Herrera Pino e Gabriel Echeverría de Jesús.

Também encoberta estava o desaparecimento de 31 estudantes na capital do Estado, ocorrida em 2013, e as centenas de corpos carbonizados ou destroçados encontrados nas centenas de fossas, casualmente descobertas na busca pelos normalistas.

O país está em guerra, mas a estratégia do PRI é tentar governar o inferno, negando o caos. Desde o início da guerra declarada pelo neoliberal Felipe Calderón, nos Estados de Tamaulipas, Guerrero e Jalisco, bastante distantes entre si, 460 corpos foram retirados das covas para investigação. São feminicídios, inimigos de narcotraficantes, vítimas de violência exemplar, camponeses indígenas em resistência, líderes comunitários e sindicais, sequestrados e capturados para o tráfico de órgãos ou de pessoas.

Marcha organizada por estudantes e sindicatos em outubro de 2014, na cidade de Toluca, no Estado do México, considerado o centro do poder priista. “Nos han quitado tanto, que nos quitaran el miedo” (nos tiraram tanto que nos tiraram até o medo), era uma das reflexões mais difundidas pelos cartazes

Marcha organizada por estudantes e sindicatos em outubro de 2014, na cidade de Toluca, no Estado do México, considerado o centro do poder priista. “Nos han quitado tanto, que nos quitaran el miedo” (nos tiraram tanto que nos tiraram até o medo), era uma das reflexões mais difundidas pelos cartazes

Banalização dos massacres e das fossas clandestinas

O choque e a comoção não foram proporcionais à impactante descoberta das várias fossas clandestinas que passaram a aparecer de maneira trivial nos noticiários nos últimos seis meses. Dos 28 corpos encontrados nas primeiras cinco fossas, nenhum era dos normalistas, quase um alívio que eclipsou a macabra descoberta. Mais outras dezenas de cadáveres nas seguintes, restos de ossos calcinados em lixões e a contagem não parou.

Durante a busca pelos normalistas, foram encontradas 38 fossas clandestinas em Iguala, totalizando 87 corpos, pessoas das quais pouco se conhecem, apenas que 61 são homens e 13 são mulheres e que a idade dos indivíduos varia entre curtos 15 e 55 anos.

Manifestação Massiva na Cidade do México, em 10 de dezembro de 2014. Conhecida como Toma do Distrito Federal

Manifestação Massiva na Cidade do México, em 10 de dezembro de 2014. Conhecida como Toma do Distrito Federal

As fossas estão se tornando banalidade em Guerrero, onde corpos despedaçados, carbonizados e objetificados pelos grupos criminosos perdem sua história. Além disso, só uma pequena parcela destes corpos ganhará novamente uma identidade e será associada a um rosto com uma história que acabou em tragédia. Inexiste um protocolo adequado para testes de DNA. Dos 87 corpos, apenas 16 foram identificados, e um número menor ainda foi devolvido às famílias.

As fossas clandestinas passaram a ser institucionalizadas, pois são o destino comum de grande parte dos corpos das vítimas de crimes de Estado ou de organizações criminosas. A quantidade de fossas clandestinas chega a cifras tão altas que não é difícil suspeitar da conivência do Exército e das instituições de governo.

Leia mais sobre os grupos de buscas aos desaparecidos em https://medium.com/@midiamaruim/comunidade-n%C3%A1huatl-do-estado-de-guerrero-o-mais-pobre-do-m%C3%A9xico-rebela-se-contra-o-desmando-o-865599e5e941

O contexto no Estado de Guerrero

Guerrero é o estado mais pobre do México. O mais guerrilheiro. O quarto mais violento. É cenário da luta de comunidades indígenas por autonomia e defesa de seus territórios. Onde povos marginalizados durante a construção da imagem do México moderno desejam soberania, e neste sonho não há espaço para a intervenção do Exército.

Desde que o ex-presidente Felipe Calderón, filiado ao Partido Acción Nacional (PAN), com relações ainda mais próximas com a Casa Branca do que o atual governo de Enrique Peña Nieto, declarou guerra ao narcotráfico, em 2006, 85 mil pessoas foram assassinadas e 26 mil desapareceram por conta dessa guerra, em que os supostos adversários, Estado e narcotráfico, parecem revelar a mesma face à população empobrecida, principal alvo da violência.

O que são as escolas normais rurais no México

Nos últimos anos, os governos mexicanos de todas as esferas têm negligenciado as normais rurais, reduzindo os recursos de financiamento e obrigando os normalistas a cobrarem seus direitos e pressionarem as autoridades.

Essa postura é parte de uma política econômica mais ampla, que prevê grandes privatizações para 2015 no setor energético, educacional e até dos bens naturais, como a água, sem contar os projetos de flexibilização das leis trabalhistas. Para os normalistas, esses são os maiores problemas a serem enfrentados atualmente.

O sistema de normais rurais é uma das poucas heranças da Revolução Mexicana ainda não liquidadas pelas medidas neoliberais intensificadas a partir do governo do ex-presidente do país (antes presidente da Coca-Cola na América Latina), o panista Vicente Fox, em 2000.

“Quisieron enterrarnos, pero no sabían que éramos semillas” (quiseram nos enterrar mas não sabiam que éramos sementes ), frase impressa em camiseta produzidas para denunciar o desaparecimento. “Ojalá que su sangre sea, en este caso, para el bien del pueblo…” (tomara que seu sangue tenha escorrido para o bem do povo), disse o avô de Julio Mondragón, o dono do rosto sangrento e puro osso que assombrou os que o viram nas redes sociais ou nas folhas dos jornais. Inspirados em mártires latino-americanos, como o Ernesto Che Guevara, os normalistas dizem não ter medo dos ataques e garantem estarem dispostos a uma vida de sacrifícios em nome da luta e da justiça

“Quisieron enterrarnos, pero no sabían que éramos semillas” (quiseram nos enterrar mas não sabiam que éramos sementes ), frase impressa em camiseta produzidas para denunciar o desaparecimento. “Ojalá que su sangre sea, en este caso, para el bien del pueblo…” (tomara que seu sangue tenha escorrido para o bem do povo), disse o avô de Julio Mondragón, o dono do rosto sangrento e puro osso que assombrou os que o viram nas redes sociais ou nas folhas dos jornais. Inspirados em mártires latino-americanos, como o Ernesto Che Guevara, os normalistas dizem não ter medo dos ataques e garantem estarem dispostos a uma vida de sacrifícios em nome da luta e da justiça

As primeiras escolas foram criadas na década de 1920. No governo de Lázaro Cárdenas, de 1936–1941, as Escolas Normais Rurais receberam grande incentivo, chegaram a existir 36 em todo o país. Atualmente existem 245 Escolas Normais Públicas nos 32 Estados, mas apenas 17 são Escoas Normais Rurais.

As normais rurais são escolas de formação de professores para o ensino primário, vindos de extratos rurais muito pobres. São escolas que formam professores pobres para ensinarem a outros pobres. Muitas vezes, são a única alternativa de estudo e de ascensão social nestas zonas. É um sistema de ensino integral, em que os estudantes recebem três refeições diárias, teto, uma ajuda de custo e todo o material didático. Direitos importantes para jovens que, por uma questão financeira, não podem pedir ajuda dos parentes para sobreviver.

Bloco de dormitórios: a vida na escola normal é muito simples. Também pela falta de recursos, os estudantes dividem todas as tarefas necessárias para manter a instituição de pé

Bloco de dormitórios: a vida na escola normal é muito simples. Também pela falta de recursos, os estudantes dividem todas as tarefas necessárias para manter a instituição de pé

As regras são rígidas neste regime de internato só para homens. Possíveis namoradas não têm permissão para entrar na instituição. A formação política é obrigatória e todas as tarefas são distribuídas coletivamente, desde a limpeza das estruturas até a organização de protestos, o cultivo do milho e o semear das famosas flores que decorram as oferendas aos mortos na principal festa popular mexicana.

Ao ingressar em uma normal, o estudante entra na Federação dos Estudantes Campesinos Socialistas do México, onde acaba passando por diferentes comissões, entre elas organização, agitação e propaganda e formação. As famílias que visitam os jovens praticam esportes nas quadras da escola, como basquete, futebol e até se refrescam na piscina.

Mural com temática asteca expressa uma alegoria da violência sofrida pelos povos da região desde a invasão espanhola

Mural com temática asteca expressa uma alegoria da violência sofrida pelos povos da região desde a invasão espanhola

A decoração da escola não deixa dúvida sobre a identidade dos heróis da FECSM. Che Guevara, Lênin, Marx, Engels, Zapata, Pancho Villa, o último imperador asteca Cuauhtémoc — que aguentou as torturas dos espanhóis sem súplicas, os guerrilheiros guerrerenses Genaro Vásquez e Lúcio Cabañas estão representados nas dezenas de murais de diferentes estilos, do realismo socialista ao grafite underground, que colorem as paredes, muros e todas as estruturas de concreto da Isidro Burgos.

“Ser Pueblo, hacer Pueblo y estar com el Pueblo”, sem dúvida é a frase mais lembrada pelos normalistas em insurgência. Repetida a exaustão da boca de Lucio Cabañas um dos mártires das décadas de 1960 e 1970 que se formou na mesma normal, assim, como o conterrâneo e também guerrilheiro rural Genaro Vásquez. Cabañas foi assassinado pelo Exército coincidentemente nos arredores de Iguala, durante o período conhecido como Guerra Suja. Nesse período, o governo usou o Exército para cometer crimes de lesa humanidade com o intuito de coibir focos de insurgência popular entre finais dos anos 1970 e princípios da década de 1980.

Refeitório da Escola. Ao fundo a tríade do Marxismo: Engels, Marx e Lênin. Se ainda é servida comida nos pratos, é graças às doações de alimentos como feijão e masseca para fazer tortilhas

Refeitório da Escola. Ao fundo a tríade do Marxismo: Engels, Marx e Lênin. Se ainda é servida comida nos pratos, é graças às doações de alimentos como feijão e masseca para fazer tortilhas

Um pesadelo do qual não se desperta

Nosso entrevistado José Hernandez está seguindo as trilhas do pai, um professor de nível primário em comunidades rurais e líder sindical. Depois da gravação da entrevista, conversamos com o estudante sentado à mesa do grande refeitório vermelho, quase vazio, tendo os rostos de Engels, Marx e Lênin pintados na parede como cenário, comendo sem pressa, mas com apetite o feijão e a tortilha de milho, onipresente no prato dos mexicanos. São praticamente vegetarianos, não por opção. A refeição só é possível graças à solidariedade expressa nas doações de víveres e pelas mãos que a preparam com apreço, sem ganhar nada em troca. José revela seus sonhos e seus pesadelos, a princípio com bom humor e aos poucos em tom de confissão, segredando percepções íntimas e delicadas. O estudante divide as leituras dos clássicos do marxismo, que começou a ler incentivado pelos veteranos da Normal, com livros sobre a mitologia Maia, tema que é uma de suas paixões. Sua formação baseada nos preceitos da chamada “educação científica e popular” pela qual luta, não o impede de acreditar que exista coisas inexplicáveis sobre a terra. Como sonhos que anunciam o futuro. Provavelmente, agora, o menino de traços meigos, descansando de mais um intenso dia de espera dentro de seu dormitório, desejaria acordar deste longo pesadelo que começou na véspera daquela madrugada do último 27 de setembro.